Critica | ‘Cafarnaum’ e o caos implacável da miséria

Caos, sem dúvida essa é a melhor palavra que poderia definir Cafarnaum (2018), filme libanês em cartaz no Brasil desde 17 de janeiro. Este é um conceito presente em todo filme dirigido brilhantemente por Nadine Labaki.

A história se passa na periferia de Beirute, capital do Líbano, Zain (Zain Al Rafae) é um menino de 12 anos que vive com seus pais e seus vários irmãos em um cortiço. Difícil não se chocar com todos os esforços dos personagens para sobreviver em uma circunstância tão árida. Logo no início, Zain, seus pais e outros personagens estão em um tribunal sendo interrogados pelo juiz. O garoto cometeu um crime que será esclarecido no desenrolar da narrativa.

O filme em nenhum momento nos poupa em mostrar com riquezas de detalhes a perversa miserabilidade dessa dramática realidade. Ao acompanhar a dureza do cotidiano dessa família disfuncional, o espectador depara-se com situações trágicas como a completa falta de alimentos.

Em uma cena, a mãe de Zain os alimenta com uma mistura de água e açúcar, por exemplo. Enquanto seus pais trabalham em uma mercearia durante o dia, Zain, por ser o filho mais velho, cuida de seus irmãos. Devido a essa autonomia, adquire uma certa malícia precoce, mas sem perder seu lado ingênuo infantil. Como em alguns momentos em que comete pequenos furtos na mercearia em que seus pais trabalham.

Um dia sua irmã de onze anos menstrua. Zain se preocupa em ajudá-la a omitir a sua menstruação, pois sabe que seus pais em troca de dinheiro, vão querer casá-la, por mais nova que seja. Durante alguns dias, eles conseguem esconder os sangramentos da menina, Zain primeiramente oferece a sua camiseta e depois rouba da mercearia um pacote de absorventes. Entretanto, seus pais descobrem a farsa e rapidamente a vendem para um homem repugnante.

O jovem protagonista, apesar de tentar impedir a negociação com unhas e dentes, acaba falhando, revoltado com a ocorrência bizarra, foge de casa sem olhar para trás, seus pais parecem não se importar muito. Sem nenhuma dificuldade, o garoto pega um ônibus sem rumo, lá encontra um homem idoso com uma fantasia de Homem-Aranha com uma expressão bastante melancólica. Ele rapidamente diz a Zain que não o é (o super-herói), o garoto concorda e diz que ele está mais para o “Homem-Barata”, o velho apenas sorri e concorda.

Ainda que essa cena seja curta e despretensiosa, talvez possua muitos significados. Ela faz lembrar uma temática típica das óperas italianas que retrata a trágica ironia do palhaço, apesar de ter a responsabilidade de entreter e divertir a plateia, sua vida é uma desgraça, com sua maquiagem e sua falsa alegria, tenta esconder isto de seu público. Pouco tempo depois, o “Homem-Barata” desce do ônibus e vai para o parque de diversões em que trabalha. O garoto se encanta com o parque, segue o falido super-herói e passa o dia nas atrações.

Não tarda para o dinheiro acabar, os problemas retornarem e para piorar, ele está longe de casa. O filme faz um retrato sensível da crueldade do modo como as pessoas vivem nessa periferia, com uma narrativa muito coerente e bem construída, além de um ritmo envolvente. Importante destacar a capacidade do diretor em transmitir esse contexto tão perverso de uma forma universal, apesar da diferença cultural, sente-se com facilidade uma forte empatia pelos personagens.

Apesar da violência deles e de atitudes maquiavélicas, consegue-se compreender em parte suas motivações, por mais que sejam injustificáveis e horrendas, como no caso da venda da irmã de Zain.

Um outro aspecto muito chamativo é o estilo cinematográfico de Labaki; praticamente durante todo o tempo as cenas são filmadas com grande proximidade nos personagens e muitos closes nos rostos, principalmente em Zain. Talvez haja uma intenção em propiciar uma intimidade maior do público com os personagens e uma sensação de sufocamento, como se o telespectador estivesse cercado pela câmera, assim como Zain e os outros estão encurralados pelas drásticas circunstâncias de suas vidas.

Em muitas cenas de correria e tensão, a câmera treme, proporcionando uma impressão de incômodo, desorientação e angústia. Importante destacar a atuação primorosa de Zain, que mesmo sendo tão novo conduziu com grande êxito seu personagem, mostrando força e sagacidade.

A mensagem mais importante que o filme transmite é a do desamparo da situação precária em que milhões de pessoas sofrem, apesar de focar na periferia de Beirute. Em nome da sobrevivência as pessoas cometem as maiores barbáries e se desumanizam diante do sofrimento do outro, se veem obrigadas a viver como animais disputando migalhas, em uma espécie de vale tudo.

Cafarnaum merecidamente disputa o Oscar de melhor filme estrangeiro nesse domingo, apesar de sua grandiosidade, provavelmente perderá o páreo para Roma, franco favorito na corrida do Oscar desse ano, com possibilidade de vencer a categoria de melhor filme também. Ainda assim, não deve ser esquecido e negligenciado como os seus miseráveis personagens.

CARFANAUM | CARPHANAUM
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RESUMO:

Carfanaum retrata com maestria e implacabilidade a miséria da periferia de Beirute a partir do ponto de vista de Zain, um menino de apenas 12 anos.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.