Crítica | ‘A Mula’: Toda simplicidade de Clint Eastwood a serviço de uma boa história

Inspirado num artigo do The New York Times, o produtor, diretor e ator Clint Eastwood nos entrega em A Mula (The Mule) uma obra apoiada em uma história real, mas recheada de liberdade poética e narrativa em um filme “à la Eastwood”. O filme acompanha um horticultor de 90 anos, veterano da Guerra da Coréia, que é pego transportando US$ 3 milhões em cocaína por Illinois para um cartel de drogas mexicano.

Aqui, é possível identificar diversos olhares diferentes: há aqueles apaixonados por cinema e suas técnicas, os fãs de Eastwood e os descompromissados com a sétima arte, mas que adoram um bom filme. Uma coisa é fato: aos 88 anos de idade, Eastwood sabe como inserir sua imagem social nas telas de forma cativante, provocativa e atual. A direção caminha no ritmo de sua idade: devagar, objetiva e despreocupada com grandes feitos, andando de mãos dadas com seu personagem.

Apesar de sua boa qualidade, não temos aqui um filme grandioso, inovador ou até mesmo de tirar o folego, fato que pode e vai desapontar aqueles cinéfilos mais “hardcore”, para usar um jargão atual, devido a sua leveza e simplicidade narrativa.

Os cinéfilos que são grandes fãs de Eastwood terão mais facilidade em deixar esses problemas passarem, devido ao carinho prévio pelo ator, a profundidade muito bem trabalhada de seu personagem e o divertimento levemente ácido que ele é capaz de produzir. As comparações com Gran Torino serão automáticas e óbvias, devido as incontáveis semelhanças entre os dois filmes, porém, lá temos mais cinema e menos Clint, aqui temos menos cinema e mais Clint.

Por falar em Clint, sua participação como ator é talvez uma das melhores coisas do filme. O roteirista Nick Schenk nos entrega Eastwood aos moldes do já citado Gran Torino: velho, ranzinza, veterano de guerra e por aí vai. Porém, existem mais camadas desta vez, há críticas mais precisas às gerações atuais, um racismo dúbio por parte do personagem que nos faz levantar questionamentos sobre como devemos nos posicionar perante os racistas idosos, aqueles que viveram sob a luz de outras ideologias e, assim como todos, sofrem com dificuldades de adaptação ao mundo atual. De qualquer forma, o carisma com o personagem e suas diversas camadas é certeiro em fãs do ator e naqueles que o estão conhecendo pela primeira vez.

Atrás de Clint, temos mais uma banca de bons atores como Bradley Cooper, Andy Garcia, Taissa Farmiga e Lawrence Fishburne, mas todos contaram com pouquíssimo material para trabalhar e receberam pouco destaque.

Se analisarmos os três espectadores que mencionei acima, o descompromissado com a sétima arte sai como o felizardo da vez por encontrar um filme de boa qualidade, com boas temáticas, bons atores e que tem uma boa mensagem sobre família, amor, redenção e amadurecimento.Os amantes mais ferozes da sétima arte vão encontrar um filme bom e divertido, mas muito similar a trabalhos antigos do ator/diretor e vão achar que a direção merecia toques mais inovadores e um roteiro com momentos mais tensos.

Em todo o caso, A Mula está longe de ser um filme ruim, consegue atrair um público sortido e não vai decepcionar aqueles que quiserem dispor de duas horas para assisti-lo.

A MULA | THE MULE
3

RESUMO:

Em A Mula, Clint Eastwood não inova na direção, mas apresenta um filme recheado de boas temáticas e um personagem carismático.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Matheus Amaral

Formado em Audiovisual, amante do cinema em todos os seus aspectos. Filósofo de bar. As vezes mistura as coisas...Desde pequeno assistia tudo o que via pela frente, cresceu lado a lado com o cinema e com as suas diversas vertentes.