Crítica | ‘No Coração da Escuridão’ discute fé e razão em um drama profundo

Reverendo Toller (Ethan Hawke) é o cuidador da antiga igreja Primeira Reformada, que está prestes a completar 250 anos. Buscando se entender, ele desenvolve uma atividade, na qual escreve num diário todos os pensamentos que teve no dia. Após tentar ajudar um ativista ambiental radical, Toller passa a prestar mais atenção nos bastidores de sua igreja e, a partir disso, começa a questionar sua fé e suas crenças.No Coração da Escuridão 

O filme é escrito e dirigido por Paul Schrader. Ele foi o roteirista de grandes longas como Taxi Driver, Touro Indomável e A Última Tentação de Cristo. Em No Coração da Escuridão (First Reformed) ele quer apresentar passo a passo um universo bastante comum, mas que não é tão conhecido. É admirável o cuidado e a lentidão com a qual Paul desenvolve a história. A escolha de trabalhar com a câmera parada em boa parte do filme, com o prolongamento de algumas cenas e movimentos apenas dentro do quadro contribuem para a imersão na história. Além disso, o diretor também opta pelo uso de primeiros planos, principalmente nas cenas de diálogos. Esse recurso é muito bom porque abre um espaço para que os atores possam desenvolver intensamente seus trabalhos.

A questão ambiental, posicionamentos políticos, as grandes empresas por trás das igrejas e a desconfiança de um homem naquilo que estava acostumado a acreditar e pregar são assuntos abordados no filme. O modo como o roteiro relaciona esses temas é perfeito. O diretor tenta colocar em evidência o enorme poder das igrejas, principalmente, no que diz respeito a influência que ela tem sobre as pessoas. Poder esse que vem do patrocínio de grandes corporações que estão envolvidas, até mesmo, com crimes ambientais. Essa é a relação estabelecida entre a Abundant Life, que é dona da Igreja Primeira Reformada, e a Indústria Balq.

É uma pena que No Coração da Escuridão não esteja ganhando tanto destaque aqui no Brasil, porque é uma história que toca em assuntos bastante polêmicos e poderia dialogar muito bem com alguns aspectos do atual contexto político do país. É um trabalho surpreendente que rendeu a Schrader sua primeira indicação ao Oscar na categoria Melhor Roteiro Original.

É muito interessante comparar a lentidão da história com a vida bastante comum e regular do Reverendo Toller. As coisas se transformam aos poucos. A partir do momento em que o personagem principal muda os seus pensamentos e, consequentemente, suas características, o filme ganha um outro tom. Eles fica mais agitado, mais empolgante e completamente imprevisível. Essa transição entre os diferentes tons é muito boa e coerente.

Os diálogos são ótimos e profundos. Paul também consegue abrir momentos de reflexão de uma maneira bastante natural. Outro aspecto positivo do longa é o bom uso da narração em off, que está lá para complementar as cenas e não simplesmente para explicar alguma coisa. Ela também serve para colocar em dúvida a fé do Reverendo. É um recurso difícil de ser trabalhado. Esse filme, nas mãos erradas, poderia cair em diversos clichês, mas felizmente isso não acontece.

Ethan Hawke está excelente. Certamente é o seu melhor trabalho. Seu personagem está sendo corroído pelos seus problemas internos e pessoais, mas precisa tentar manter a aparência. É uma pessoa que apresenta dentro de si muitas oposições. Esperança e desespero; política/ambientalismo e religião; fé e ceticismo. A jornada de Toller o leva a conhecer um outro lado das igrejas. O lado das empresas patrocinadoras, da publicidade e, no caso do filme, das grandes corporações de energia que poluem o meio ambiente.

O Reverendo tem uma mudança radical, no entanto, seu personagem é muito bem desenvolvido pelo roteiro. Quando esse começa a pesquisar e a conhecer outras visões de fora da religião, ele torna-se um “rebelde” dentro da igreja e passa a interpretar os textos bíblicos de outra forma. Toller entende que o seu objetivo ali poderia ser outro. Após se envolver com a questão ambiental, a dúvida passa a ser se Deus poderia perdoar as pessoas por estarem destruindo a sua criação. Além disso, por que a Igreja não se posicionava sobre um tema tão importante como esse?

E já que estamos na temporada de Oscar, é válido acrescentar que Hawke poderia ter recebido uma indicação a Melhor Ator. Amanda Seyfried também está ótima. É um papel bem mais amadurecido perto de outros que ela já teve a chance de interpretar. A relação entre os dois é muito bem construída. Ambos estão passando por momentos complicados, mas se ajudam, se complementam. Algumas das sequências mais profundas e reflexivas do filme são protagonizadas pelos dois. Philip Ettinger, Victoria Hill e Cedric The Entertainer não têm tanto espaço, mas estão bem dentro do que é exigido aos seus personagens.

No Coração da Escuridão é um ótimo projeto desenvolvido por Paul Schrader. É uma história interessante, imprevisível, com bons diálogos e que aborda temas importantíssimos relacionados à religião, à política e à questão ambiental. O filme acerta bastante no seu tom e na sua forma cuidadosa e lenta de apresentar a história. Ethan Hawke desempenha uma excelente performance, ele simplesmente desaparece no personagem. Amanda Seyfried merece igualmente os elogios. Um dos melhores filmes do ano e um dos mais profundos também.

NO CORAÇÃO DA ESCURIDÃO | FIRST REFORMED
5

RESUMO:

Acertando em diversos aspectos, No Coração da Escuridão (First Reformed) discute importantes questões e conta com uma excelente atuação de Ethan Hawke.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.