Crítica | Um retrato real e sensível em ‘Querido Menino’

Ao assistir filmes de superação, sabemos exatamente o que iremos encontrar: um personagem, que enquanto vivia normalmente, é obrigado a ter que lidar com um grande acontecimento traumático. Mas (é claro) ele acha forças para lutar e superar qualquer que seja o obstáculo, resultando no filme cliché sobre aceitação e superação que não necessariamente é ruim, mas pouco inovador. Felizmente, Querido Menino (Beautiful Boy) não se encaixa nessa categoria.

A história real de Nicolas Sheff (Timothée Chalamet), que aos 18 anos é viciado em drogas e do seu pai, David Sheff (Steve Carell), que vive em constante preocupação e tenta ajudar o filho de todas as formas possíveis, foca na relação dos dois durante o período conturbado que deixa perceptível que o vício não afeta somente o usuário, mas também destrói seus entes queridos com o sentimento de culpa, incapacidade e desespero.

Baseado nos livros “Querido Menino” e “Tweak” escritos respectivamente pelo próprio David e Nicolas Sheff, estamos próximos tanto das inquietações de David em relação ao filho, como estamos lado a lado de Nic e da sua busca inconstante pelas drogas.

E como Querido Menino não se rende às narrativas usuais de filmes de superação – e se esse fosse o caso, poderia ter facilmente uma hora a menos – ele é, e consegue, cumprir a finalidade de ser propositalmente cansativo para o espectador. Assim como a trajetória de Nic acontece em círculos, o filme consegue, com grande êxito, se assemelhar à exaustão que é conviver com um usuário de drogas.

Enquanto isso, flashbacks que recorrem à relação de David com o filho anos ou até meses antes do estado atual do filho revelam o quão íntimos os dois realmente eram, aproximando o espectador dos sentimentos do pai, mas também dando ênfase para a transformação de Nic e todo o seu comportamento descontrolado e grosseiro como consequência da abundância de ilícitos e a falta que eles fazem em seu sistema.

É importante ressaltar, no entanto, que o filme não tenta fazer um retrato minucioso e fiel referente a um verdadeiro usuário de drogas; ou até um retrato fiel do próprio Nicolas Sheff, que chegou até a se prostituir para sustentar o vício. Ao invés disso, o diretor Felix van Groeningen prefere abordar “Tweak” de uma forma mais sútil e nos colocar no lugar de David, focando no impacto que tem nas pessoas ao redor por meio de um retrato pessoal que em nenhum momento tem a intenção de julgar.

Sendo assim, se torna quase que impossível não sentir orgulho das conquistas de Nic como a formatura na faculdade e a quantidade de tempo que ele esteja sem usar drogas, por menor que seja. A esperança e a decepção andam lado a lado no meio das diversas idas às reabilitações, recaídas, mentiras e roubos. Mas não importa quanto isso afete a vida de David, – sua esposa, seus outros filhos e sua vida no geral – ele nunca desiste do filho, assim como o espectador.

As performances de Steve Carell e Timothée Chalamet trazem vida aos papéis de pai e filho em performances angustiantes e reais. Não é apenas ir à reabilitação uma vez e tudo estará bem; infelizmente, o vício consiste em recaídas e hábitos não tão fáceis de largar. Querido Menino sucede em colocar o espectador lado a lado de Nic e fazê-lo sentir o cansaço que é conviver com um usuário de drogas – e todos os sentimentos que ele traz junto.

QUERIDO MENINO | BEAUTIFUL BOY
3.5

RESUMO:

Ao invés de seguir as narrativas convencionais de filmes de superação, Querido Menino sucede em fazer o espectador sentir como é conviver com um usuário de drogas da forma mais humana possível.

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível ver todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é uma forma de viajar e conhecer outras realidades sem sair do lugar.