Crítica | Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Baseado no livro escrito por Garrard Conley, Boy Erased: Uma Verdade Anulada aborda a história real do autor sobre o doloroso período em que frequentava um centro de terapia cristã onde seus pais acreditavam que seria possível “curá-lo” da homossexualidade. Se assemelhando à premissa do também recente O Mau Exemplo de Cameron Post e por isso surgindo uma certa vontade em compará-los, os dois filmes, no entanto, diferem em seu público-alvo.

Enquanto a obra de Desiree Akhavan beira à sutileza e nunca deixe de abandonar o sentimento de “você não está sozinho, por mais que coisas horríveis aconteçam”, Boy Erased se apresenta mais incômodo, já que seu foco permanece nas práticas disformes da tentativa de “cura” gay do centro de terapia. Tendendo à crueldade e em exprimir toda a miserabilidade que atormenta os jovens da instituição, o filme dirigido por Joel Edgerton funciona essencialmente como uma denúncia dos casos que Garrard Conley presenciou, e por isso, manifesta-se como uma história árdua e sem esperança, porém necessária.

Garrard Conley é Jared (Lucas Hedges), jovem, gay, que vive com os pais Marshall Eamons (Russell Crowe), bispo, e Nancy Eamons (Nicole Kidman), também devota à igreja. Crescendo em um ambiente religioso, Jared tem dificuldade em aceitar os pensamentos referentes a sua sexualidade e inicialmente, acaba aceitando ir para o centro de terapia com a consciência de que é realmente possível mudar.

Em primeira instância, o local se mostra extremamente restrito, cheio de regras e dizeres absurdos. Ser homossexual, segundo o padre, é a mesma coisa que escolher ser jogador de futebol; e se você “escolher” ser gay, você vai sofrer abuso, estupro, ter AIDS. Os zooms sutis e os planos médios em Jared demonstram constantemente o desconforto durante as reuniões e as expressões de Lucas Hedges deixam explícito o incômodo tanto com as práticas e discursos ilógicos, como com si mesmo.

Após ingressar na faculdade, Jared logo faz amizade com outro garoto o qual rapidamente desenvolve uma certa atração, e no mesmo dia, acaba sendo estuprado por ele. Seu primeiro contato sexual se torna exatamente o que lhe foi ensinado na terapia, e então, Jared também começa a criar uma maior aversão à homossexualidade e ao que ele sente, concordando com o pai em retornar ao centro cristão.

Demasiadamente explícita, a cena de estupro concede um teor ainda mais carregado ao longa. É impactante tanto para o espectador como para Jared, marcando-o por um extenso período e levando-o a um conflito interno ainda mais denso que o persegue durante todo o segundo ato. A cena provoca uma intensidade que acaba por criar uma assincronia entre o peso de um estupro e o peso de ser homossexual – o protagonista, no entanto, confunde os dois.

No restante das cenas torturantes, Joel Edgerton prova que o filme se destina aos pais ou qualquer simpatizante à “cura” gay. Os acontecimentos da instituição já são angustiantes o suficiente como episódios isolados, mas o diretor apela para o melodramático ao optar por capturar essas cenas em slow motion com uma trilha instrumental de violinos ao fundo. Por mais que o padre e os ajudantes do centro de terapia gradativamente adquiram o papel de vilões, os pais do garoto são sempre vistos como pessoas cegas pela religião, ingênuas por causa da sua fé; mas que amam o filho e aos poucos se esforçam para entendê-lo.

Boy Erased acompanha a trajetória de Jared durante seu processo de aceitação, não recebendo quase nenhuma forma de apoio. As dúvidas e a negação sobre si mesmo, a falta de esperança em relação ao futuro em um ambiente religioso onde reina a heteronormatividade compulsiva, além de presenciar um local onde falam que é errado ser quem ele é ainda são fatores que o acompanham junto ao descobrimento da própria sexualidade.

Além de denúncia, Boy Erased é um desabafo do autor que não se apoia na sensibilidade para transmitir sua mensagem, se tornando efetiva justamente por relatar a crueldade com o que esses lugares tratam pessoas LGBT e alarmando o quão urgente esses centros de terapia necessitam acabar.

BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA | BOY ERASED
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RESUMO:

Destinada principalmente aos pais e simpatizantes à “cura gay”, Boy Erased: Uma Verdade Anulada é um denúncia triste e emocionante do quão urgente os centros de terapia de conversão necessitam acabar.

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é uma arma poderosa de transformar realidades e uma forma de explorar diferentes culturas.