Crítica | Arte e terror se misturam de maneira inusitada em ‘Velvet Buzzsaw’

Depois que uma série de pinturas de um artista desconhecido é descoberta, uma força sobrenatural decide se vingar daqueles que permitiram que sua ganância atrapalhasse a arte. Esta é a sinopse de Velvet Buzzsaw, novo filme de Dan Gilroy, que estreou recentemente na Netflix. Mas, ao contrário do que aparenta a premissa, o suspense é revestido de um cinismo que somente uma sátira pode proporcionar, transformando o longa em um terror nada convencional.

O filme se desenvolve a partir de um evento sobrenatural. O roteiro escrito por Gilroy se encarrega de apresentar as personagens principais logo de cara, e depois nos mostra a descoberta de Josephina, que é o motor propulsor do filme. Ao encontrar um homem morto em seu prédio, ela descobre que ele era um artista com inúmeras e impressionantes obras em seu apartamento. O pintor, Dease, deixou ordens expressas para que o material fosse destruído, mas, contrariando o que soube a partir de funcionários de uma empresa de remoção, a gananciosa assistente se apropria das obras.

A partir de então, o filme entra em um espiral assombroso para todos aqueles que possuem um interesse que não seja puramente artístico nas obras. Desde um simples trabalhador da galeria, até os mais ricos e pomposos empresários, todos são, em algum momento, afetados pelos seus atos e através da maneira como lidam com a arte. Quando precisa, o filme não abre mão do gore, mas não há aqui a intenção de criar uma atmosfera de tensão através da estética. A direção de arte e os acontecimentos possuem cores em propulsão, e tudo é bastante vivo em tela.

No elenco do filme temos nomes conhecidos como Jake Gyllenhaal, com quem o diretor repete a parceria de O Abutre, além de Rene RussoToni ColletteZawe AshtonNatalia DyerJohn Malkovich e Billy Magnussen.

Porém, três personagens são essenciais para o andamento do filme. Gyllenhaal vive o crítico de arte Morf, cujas avaliações são essenciais no restrito e seleto nicho da arte; Rhodora, interpretada por Rene Russo, a dona de uma galeria de que se parece com um tipo de Miranda Priestly (personagem de Meryl Streep em O Diabo Veste Prada, 2006) do mundo da arte; e Josephina (Zawe Ashton), que vai de assistente a sócia da chefe por conta de uma descoberta. Os demais complementam a trama e com pouco ou razoável tempo de tela, ajudam a compor a história de acordo com o que o diretor pretende contar.

Com um olhar mais simplista, Velvet Buzzsaw é um filme de terror e suspense, em que uma presença sobrenatural assombra aqueles que se apropriam da arte por pura ganância ou lucro. Escavando uma camada, percebemos a intenção do autor em expor a arte sob diversas perspectivas: da crítica, que pode arruinar ou alavancar o sucesso de uma obra a partir do prestígio de quem a faz (assim como a genuinidade da avaliação); o olhar do artista para a arte, o que explica o fato de artistas não serem influenciados pelo espectro maligno que assombra os quadros; e da arte como produto, através das pessoas que visam o lucro.

O grande problema aqui são as idas e vindas do roteiro. A história perde força no segundo ato, e para efetivamente engrenar e entregar o clímax desejado no terceiro, demora. Algumas situações, como um teste químico e o relacionamento entre Morf e Josephina são alguns dos exemplos de situações que poderiam ter sido encurtadas, assim como o filme, que poderia ter uns quinze ou vinte minutos a menos.

No entanto, temos dois elementos dignos de reconhecimento. O primeiro é a grande atuação de Jake Gyllenhaal. Mostrando ser um ator versátil, ele encara o crítico Morf com uma composição que poderia beirar ao caricato, mas felizmente isso não acontece. O outro é a ousadia do projeto de Gilroy. Este não é um filme convencional. A estranheza da narrativa e as discussões não teriam o mesmo impacto caso o filme se levasse muito a sério. Ele não deixa de provocar tensão, mas o sarcasmo é essencial aqui para a crítica que ele deseja passar.

É possível definir Velvet Buzzsaw como um terror/suspense não convencional, que pode não impressionar aos desavisados, mas provocar alguns pensamentos diante de um olhar mais aberto. É o tipo de filme que pode não agradar, mas não deve ser acusado de vazio ou pretensioso. É uma produção ideal para o tipo de distribuição feita pela Netflix, que tem apostado cada vez mais na marca pessoal de muitos cineastas, entre eles, Dan Gilroy.

VELVET BUZZSAW
3.5

RESUMO:

Dan Gilroy repete a parceria com Jake Gyllenhaal para fazer críticas com sarcasmo e sátira em forma de terror no inusitado Velvet Buzzsaw.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...