Crítica | A beleza na tragédia em ‘Se a Rua Beale Falasse’

Que Barry Jenkins sabe como produzir um resultado belo e fascinante não é novidade. Equiparando-se aos moldes de Moonlight, ganhador do Oscar de melhor filme em 2018, em Se a Rua Beale Falasse, o diretor entrega uma obra graciosa envolta em tons bucólicos e poéticos. E consegue fazê-lo mesmo abordando um tema lastimável que se perpetua em nossa sociedade até os dias atuais.

O filme, baseado no romance homônimo de James Baldwin, lançado em 1974, trata do amor interrompido. Mas diferente de tantas histórias, nesta nossos heróis são prejudicados pela triste realidade que assola os Estados Unidos nos anos 70 (realidade tal que permanece ainda hoje), o preconceito racial.

Os protagonistas são Tish (Kiki Layne), que está grávida, e Fonny (Stephan James) que está na prisão. Amigos desde a infância, os personagens precisam lidar com a injusta violência policial e a acusação de um crime que Fonny não cometeu. Com imagens intercaladas de passado e presente, podemos nos apaixonar também pela relação dos dois, tão pura e delicada.

Em Se a Rua Beale Falasse, vemos beleza na tragédia. É um filme extremamente bonito esteticamente e tudo é construído de forma admirável para aludir ao formato conto de fadas. As cores saturadas, ênfase para o vermelho e amarelo, trazem vida ao filme e à história. O colorido contrasta com fotos em preto e branco utilizadas para dar um tom documental às situações representadas.

Um destaque especial à direção de arte, figurino, fotografia e trilha sonora, que casam perfeitamente e são os responsáveis pela linguagem encantadora do filme. A obra é um deleite para os olhos com frames que poderiam ser facilmente fotografias e enquadramentos com os personagens sempre centralizados de modo simétrico e harmônico.

No entanto, o ponto forte do filme — a arte — pode funcionar também como ponto fraco. A preocupação exacerbada com a estética acaba acrescentando uma lentidão acentuada aos 119 minutos de duração. Há o risco da poética das imagens enfraquecer um pouco a história, mas talvez seja do interesse do diretor manter a adversidade apenas como pano de fundo e focar do amor jovem e eterno dos dois, o que cria uma sutileza interessante.

Se a Rua Beale Falasse nos faz pensar em contos de fadas ao mesmo tempo que desconstrói as ideias do “maravilhoso” e do “perfeito” que vêm atreladas a essas histórias. O filme nos inspira à reflexão. Essas fábulas mágicas, com seus encantos e deslumbramentos, não são para todos. A realidade mostra-se cruel e injusta ao passo que compreendemos a sociedade injusta que vivemos que não permite que todos tenham seus finais felizes.

SE A RUA BEALE FALASSE | IF BEALE STREET COULD TALK
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RESUMO:

Se a Rua Beale Falasse nos faz pensar em contos de fadas ao mesmo tempo que desconstrói as ideias do “maravilhoso” e do “perfeito” que vêm atreladas a essas histórias.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"