Crítica | ‘Sex Education’ é uma aula de como se fazer uma série adolescente

É difícil negar que sexo ainda é um tema tabu em nossa sociedade. Não só o sexo em si, como tudo que o envolve como, por exemplo, masturbação e fetiches. É comum ver séries adolescentes que tratam a descoberta da sexualidade, e a vida sexual de seus personagens ao longo de suas histórias. Mas, em todas elas, esse assunto é sempre algo secundário. Com o público se sentindo confortável ou não para ouvir sobre o assunto, em Sex Education, série criada por Laurie Nunn, isso não acontece e o sexo é o maior assunto em pauta.

Asa Butterfield interpreta Otis, adolescente de 16 anos que se encontra no auge da fase de descoberta sexual. Otis vive com sua mãe – papel de Gillian Anderson, excelente em cena – que trabalha como terapeuta sexual. Pela profissão de sua mãe, Otis tem bastante conhecimento do assunto, mas encontra dificuldades de falar sobre quando o tópico é ele mesmo. Ao fazer amizade com Maeve (Emma Mackey), os dois decidem criar uma clínica de terapia sexual dentro da escola para ajudar os alunos e, consequentemente, receber uma grana.

É interessante notar a diferença que as séries americanas e britânicas lidam com temas tabus e polêmicos hoje em dia. Enquanto 13 Reasons Why, por exemplo, tenta chocar sem ter o menor senso de sutileza, Sex Education já vai para outro lado. A série tem consciência da responsabilidade que tem em mãos, e aborda temas pesados com uma leveza surpreendente.

Por ser uma série de comédia/drama, há um certo medo da comédia ultrapassar os limites e acabar sendo ofensiva, ou até mesmo fora de hora. Mas aqui isso não acontece. O roteiro sempre sabe quando é hora de inserir a comédia, e quando é hora de deixa-la um pouco de lado. O humor é constantemente leve e constrangedor, no melhor sentido da palavra. Não havia como fazer uma série sobre sexo sem, propositalmente, deixar o público desconfortável. É divertido, e o desconforto é muito bem-vindo.

O sexo é abordado de forma consciente. Acompanhamos todo episódio um problema sexual de algum personagem secundário (ou não). Dessa forma, a série se sente aberta para abordar diversos tópicos pouco comentados em séries de televisão, ou que, se são abordados, não possuem muita profundidade. A masturbação, por exemplo, é algo bastante visto, tanto com o personagem principal, quanto com personagens femininas. E é neste ponto que a série acerta mais uma vez. Parece que existe um bloqueio ao se tratar da sexualidade feminina. Aqui, isso é, felizmente, ignorado, e temos diversas histórias de personagens femininas se descobrindo, e tendo uma vida sexual ativa.

A série acerta também em seus personagens principais. É de glorificar de pé o excelente desenvolvimento que cada um possui. Todos eles são isentos de defeitos, errando e acertando ao longo da temporada. Maeve é uma das que se destacam pela sua personalidade forte. Desde o começo ela se mostra ser uma garota misteriosa, muito inteligente, mas que demonstra ter várias barreiras que impedem outros de se aproximarem. Conforme a história vai se desenvolvendo, é possível ver que ela não é tão dura e fechada assim. Seu relacionamento com Otis é um dos grandes portos fortes da série. Os dois possuem uma amizade que vai crescendo ao longo da temporada, mas que sempre deixa um pinguinho de que algo a mais pode acontecer ali.

Eric (Ncuti Gatwa), melhor amigo de Otis, é, em alguns pontos, o contrário de Maeve. Extrovertido, e sempre aberto a novas amizades, ele é um garoto incompreendido por seus colegas. Ele protagoniza a cena mais pesada da série e, frequentemente, sofre de bullying e homofobia. Seu desenvolvimento é impecável pois, ao mesmo tempo que o vemos passando por toda essa injustiça, vemos ele se descobrindo como uma drag queen. A série mostra essa descoberta da forma mais pura e delicada possível. A reação de sua família e, principalmente, de seu pai, é algo que deve ser ressaltado pois os dois possuem uma das cenas mais bonitas de pai e filho já vistas na televisão.

Vale ressaltar a alta qualidade do episódio focado em aborto. Todo esse assunto é tratado de uma forma que merece aplausos. A sensibilidade colocada em cena, e as personagens presentes nela são de tirar o chapéu. É possível perceber todos os sentimentos envolvidos sem nem ao menos precisar ser dito uma palavra, ou ter um diálogo expositivo. O episódio é um conjunto de força feminina, delicadeza, e responsabilidade que é raro de se ver. É, fácilmente, o melhor episódio da temporada.

Sex Education é mais um acerto da Netflix. Excelente ao retratar não só o sexo, mas também o amadurecimento e o cotidiano adolescente. Os britânicos se mostram difíceis de errar quando se trata de séries adolescentes, e aqui eles provaram ainda mais isso. Piadas on point, roteiro inteligente, personagens fortíssimos e uma representatividade mais do que necessária. O hype não está errado. Sex Education é realmente tudo isso.

SEX EDUCATION - 1ª TEMPORADA
5

RESUMO:

Sex Education se mostra forte ao trazer o sexo como principal tema em pauta, e ainda mais forte ao desenvolver seus personagens. Com uma excelente primeira temporada, a série é mais um acerto da Netflix.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.