Por que a indicação de ‘Pantera Negra’ ao Oscar de melhor filme incomodou tanto (e outras não)?

Todo ano é a mesma coisa. Tão logo conhecemos os indicados ao Oscar, debates acalorados acontecem sobre aquele ou esse filme/artista que deveria receber uma nomeação e acabou ficando de fora da disputa. Esse ano não foi diferente. No termômetro das redes sociais, não houve um longa mais falado que Pantera Negra, o primeiro filme de super-heróis a ser indicado em 91 anos pela Academia ao prêmio principal. O que deveria ser motivo de orgulho para os fãs do gênero. Mas não foi bem assim.

Além da categoria principal, o filme do Marvel Studios também apareceu nas categorias Melhor Figurino, Melhor Design de Produção, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Canção Original, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som. Mas a presença do longa no Oscar vem sendo pavimentada na temporada de premiações, confirmando uma tendência.

No Critic´s Choice Awards, o longa recebeu doze indicações. No Globo de Ouro, três. Além disso, o filme protagonizado por Chadwick Boseman foi considerado um dos 10 melhores de 2018 pela National Board of Review, organização dos EUA que discute e seleciona as melhores obras cinematográficas do ano. Podemos citar ainda a indicação que o filme recebeu no PGA Awards, premiação do Sindicato dos Produtores, considerado um dos grandes termômetros do Oscar, além do prêmio de Melhor Elenco no SAG Awards, prêmio do sindicato dos atores de Hollywood.

Mas, além da crítica e imprensa, Pantera Negra quebrou vários recordes e paradigmas. Foi a segunda maior bilheteria do ano de 2018, a terceira maior dos EUA e se tornou a nona maior arrecadação da história do cinema. Além disso, é o filme de maior sucesso comercial com diretor, roteirista e elenco majoritariamente negro.

Pantera Negra (2018) – Marvel Studios

A representatividade que o filme carrega é importante. O longa que mostra a avançada civilização de Wakanda, embora conserve a essência das HQs, vai além da simples narrativa de super-heróis, além de fazer críticas sociais e políticas que conversam com a nossa realidade. O vilão, Killmonger (Michael B. Jordan) é um dos personagens mais bem construídos desse universo e a história é atraente o suficiente, indo além da ação.

O que mais surpreendeu em Pantera Negra foi a capacidade de transitar entre a aventura e a maturidade de um arco dramático. Mesmo que não seja um filme perfeito em determinados aspectos, ou que vá levar a estatueta principal para casa, sua indicação não é injustificada. Principalmente se olharmos para os concorrentes, tanto em questões cinematográficas, quanto em aspectos que serão abordados mais adiante.

Mas, o sucesso não se dá apenas pela qualidade que o filme tem, mas pelo que ele representa para o mundo nos dias de hoje. Em um ano que, por exemplo, as premiações ignoraram a existência de filmes como Ponto Cego, O Ódio que Você Semeia e Sorry to Brother You, ver Pantera Negra indicado ao Oscar é um alento. A propósito, ainda bem que também figura na lista o ótimo Infiltrado na Klan (Spyke Lee, 2018).

O QUE INCOMODA?

É comum, no entanto, que pautas que carregam o tema da diversidade causem aversão e uma espécie de movimento reacionário em parte do público. Mas, se colocar a favor e celebrar o sucesso de filmes representativos não se trata de uma questão apenas impositiva. É empírico.

Recentemente, um estudo apontou que cineastas negros conseguiram destaque em 2018, mas com as mulheres não foi o mesmo. Outro relatório mostrou que elas dirigiram apenas 8% dos 250 principais filmes de 2018. Isso mesmo após movimentos como o “Time’s Up” e o “#MeToo” ganharem força em Hollywood. Outro levantamento, feito em 2018 apontou a redução de personagens LGBTQ em Hollywood. Diante disso, pautar, discutir e enaltecer o sucesso de determinadas produções se torna essencial. Principalmente pelo fato de sabermos o que esse filme representou para jovens negros, é digno de reconhecimento.

Pantera Negra (2018) – Marvel Studios

Por outro lado, segmentos das redes sociais discutiam se Pantera Negra realmente merecia ter sido indicado pois não era nem o melhor filme da Marvel (o que é discutível), ou porque os recentes Logan (James Mangold, 2017) e o aclamado O Cavaleiro das Trevas (Christopher Nolan, 2008) foram injustiçados sob a égide da comparação pura e simples. De fato, esses foram grandes filmes do gênero, na lista dos melhores já feitos nesse segmento.

Porém, há 11 anos, o mundo se comportava de uma forma diferente, e além disso, a Academia ainda não olhava com bons olhos para um filme que tivesse super-heróis em tela, em que pese a indicação póstuma de Heath Ledger, como o icônico Coringa, e o grande trabalho de Nolan com o seu Batman.

Há dois anos, no entanto, já havia um movimento nesse sentido. Muitos apostavam em Mulher-Maravilha, mas o filme solo da heroína não cativou a Academia o suficiente. Já Logan quebrou uma barreira. Antes, esses filmes só haviam conseguido indicações em categorias como Trilha sonora, edição de som, mixagem de som, efeitos visuais, maquiagem e penteado, direção de fotografia, direção de arte e montagem. Mas, o filme garantiu um lugar na disputa pelo prêmio de Melhor Roteiro Adaptado, e fez história.

Há também uma tentativa de atribuir a indicação ao fato da Academia perder audiência da cerimônia do Oscar a cada ano. Isso – os números decrescentes – é um fato. Porém, não é possível que apenas os fãs de Star Wars ou da Marvel possam garantir ao Oscar audiência que ele precisa. Na verdade, eles nem estão tão interessados, em sua maioria, no evento. Há mais coisas que precisam ser discutidas quanto ao formato do programa, como a duração do mesmo, que passa das três horas e extenua até o mais ávido espectador de premiações.

Mais cedc ou mais tarde, portanto, algum filme alcançaria esse objetivo. Mas, se Pantera Negra é uma indicação injusta por não ser um bom filme, ou por ser um filme apenas bom, ou, em última hipótese, por ser um filme com negros e por isso a Academia está cumprindo uma “cota” (coisas ditas por ai nos últimos dias), por que não colocamos o filme em perspectiva com os demais filmes indicados?

Pantera Negra (2018) – Marvel Studios

É incrível, mas há quem também atribua como um exagero a indicação de Roma. Felizmente, esse é um número menor. A obra-prima de Alfonso Cuarón é franco favorita na premiação, tendo recebido dez indicações. Com o mesmo número de nomeações, A Favorita (Yorgos Lanthimos, 2018) surge como um nome capaz de surpreender.

Concorrendo em oito categorias, Nasce Uma Estrela também desponta como um filme capaz de levar alguns prêmios, embora não tenha se saído tão bem nas recentes premiações. Há quem atribua ao filme dirigido por Bradley Cooper o rótulo de superestimado. Fato é que o longa está lado a lado, em número de indicações, com Vice (Adam McKay, 2018), drama/comédia política ácida e provocativa, que é uma produção candidata ao prêmio.

Dirigido e co-escrito por Spike Lee, Infiltrado na Klan é um daqueles filmes que o público reconhece a qualidade, mas não admite a possibilidade de Oscar. Mas, por que? O filme do aclamado cineasta é um dos mais sagazes dessa corrida, além de conversar com a nossa realidade a partir de eventos passados. No entanto, quase não se viu essa produção como um contraponto ao longa dirigido por Ryan Coogler.

Porém, não há o que discutir sobre o mérito dessas indicações. Há um consenso por parte da crítica. Porém, há aspectos discutíveis em outras obras, que passaram batido por parte do público, em especial, aqueles que justamente atribuíram a indicação de Pantera Negra a uma forçação de barra.

A começar por Bohemian Rhapsody. Eu poderia citar as polêmicas envolvendo o diretor Bryan Singer, acusado recentemente de abusar sexualmente de menores e com uma ficha pra lá de duvidosa. Ok, você vai dizer que isso não vem ao caso. Podemos concordar, em partes. Não, porque o diretor foi creditado, mesmo depois de ter sido demitido por má conduta. Sim, porque, em primeiro lugar, temos que analisar a produção como um filme. E ele é apenas um bom filme.

Não que a performance hipnótica de Rami Malek e os números musicais do Queen não empolguem. Não que o longa não deixe de prestar um grande tributo a uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, e um dos maiores vocalistas do panteão sagrado do rock. Mas, em termos cinematográficos, o que temos de espetacular além disso? Mas sim, o sucesso comercial do filme impulsionou o mesmo a ganhar um Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama, com todos esses concorrentes ao lado.

Pantera Negra (2018) – Marvel Studios

E outro filme que tem impressionado e conquistado a crítica é Green Book, outra boa produção. Mas, apenas boa. E nós vamos entrar novamente em uma questão delicada. Poderíamos citar todas as confusões associadas ao roteirista do filme, Nick Vallelonga, filho do protagonista interpretado por Viggo Mortensen, e seus tweets islamofóbicos. Isto sem mencionar os casos de assédio envolvendo o diretor Peter Farrelly. O filme também tem sido bastante criticado pela família de Dr. Don Shirley, interpretado por Mahershala Ali,que alegam que o filme é uma “sinfonia de mentiras” e manipula a relação entre Shirley e Frank Vallelonga. Mas, novamente, vamos deixar isso de lado. Cinematograficamente, o que fica além das boas atuações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali?

Não, essa não é uma defesa ao Oscar de mehor filme para Pantera Negra. Mas, por que tais indicações não eclodiram com o mesmo furor nas redes sociais? Talvez as pessoas não tenham visto todos os filmes, o que é bem provável. Mas, também, se darão ao trabalho de procurar e estabelecer uma comparação em relação ao mérito?

Ao nivelar dessa forma, não há como defender uma posição. Veja bem: se houvesse uma reivindicação por esse ou aquele, tudo bem. Mas reduzir uma obra a apenas o que ela representa, diminui o peso do que ela é de fato. E tornar ela importante, apenas pelo que cinematograficamente ela é, não considera a importância e a relevância que uma obra pode causar em seu tempo.

Pantera Negra conseguiu ser as duas coisas. Não é melhor que Roma, Infiltrado na Klan ou Vice, por exemplo. Mas sua indicação é tanto emblemática – ao lado da obra de Cuarón – quanto merecida.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...