Crítica | ‘Polar’: uma festa estranha com gente esquisita

Em 2018, a Netflix viveu um segundo semestre fora da curva em relação aos seus filmes originais. E de maneira positiva. Roma (Alfonso Cuarón) e The Ballad of Buster Scruggs (Joel e Ethan Coen) renderam indicações ao Oscar, em especial, o primeiro – foram dez, e uma do segundo. Outros exemplos de longas que merecem a atenção do público são o ótimo Lazzaro Felice (Alice Rohrwacher), O Outro Lado do Vento, último filme de Orson Welles, 22 de Jullho (Paul Greengrass) e Mais Uma Chance (Tamara Jenkins). Porém, Polar vai passar bem longe desse grupo seleto.

No filme, o maior assassino do mundo, Duncan Vizla, o Black Kaiser (Mads Mikkelsen), quer se aposentar. O problema é que seu ex-chefe acha que ele vai atrapalhar os negócios. Contra a vontade, ele terá agora que enfrentar um implacável exército de assassinos mais jovens, mais rápidos e decididos a silenciá-lo a qualquer custo.

A sinopse acima indica um filme de ação, e de fato ele é. Então, talvez você possa ter se questionado sobre o início do texto, quando obras predominantemente dramáticas – ou dramédias – são citadas. Acontece que, recentemente, Atômica (David Leitch, 2017) e John Wick (Chad Stahelski, 2014) nos mostraram esse tipo de produção de outra maneira. Até mesmo séries de TV como Demolidor, ou a própria franquia Missão: Impossível nos fazem grudar os olhos na tela com suas impossibilidades explícitas, porém criativas.

A grande questão em Polar é a narrativa. O filme pretende contar a história de um matador de aluguel que está se desligando do jogo, premissa pra lá de batida. Mas não é de todo ruim dentro do subgênero do filme de assassino. Ao se aposentar, os agentes da organização que ele pertence recebem uma espécie de poupança. No entanto, ao morrerem em serviço, este valor deve retornar à organização, caso não possuam nenhum herdeiro, algo improvável para alguém nesse tipo de negócio. Isso deveria nos levar a um intenso thriller de perseguição, no entanto, o filme é totalmente bagunçado com a apresentação de diversos personagens que entram e saem sem sentido algum.

O protagonista, Vizla, é interpretado com competência por Mads Mikkelsen. Um excelente ator, diga-se de passagem. Ele é capaz de transmitir um olhar vazio para um homem que chega aos 50 anos e matou centenas de pessoas. Ele também transmite credibilidade nas cenas de ação. Uma, em especial, impressiona, quando em um corredor, ele precisa se livrar de diversos adversários (um tipo de cena que não é inédita).

Você também verá Katheryn Winnick, conhecida por interpretar a personagem Lagertha na série Vikings. Mas aqui ela não faz nada demais. Em termos de atuação, Vanessa Hudgens merece uma menção por algumas boas cenas que tem com Mikkelsen.

No entanto, há algo estranho compondo a narrativa de Polar. O tom é muito desequilibrado. Em determinados momentos, o longa assume um viés dramático. As vezes, parece com uma comédia que não se leva a sério. Em outros, com uma adaptação de HQs – o que não é um problema, pois é adaptado de uma graphic novel do escritor espanhol Victor Santos. As vezes se transforma em uma mistura de Os Mercenários com RED: Aposentados e Perigosos. Tudo isso contando com a absoluta suspensão de descrença do público, já que a construção do roteiro se baseia com conveniências e incoerências lógicas.

Para que o filme engrene, demora. O primeiro ato nos mostra a história e põe as cartas na mesa, e no segundo, para que o conflito se estabeleça, mesmo já estando ciente do que virá, o espectador precisa passar por longas e desnecessárias cenas de sexo e violência. Os tiros na cabeça são incontáveis, quase que uma obsessão do diretor Jonas Åkerlund. A equipe enviada para matar o Kaiser Negro é apresentada no início do filme, mas parece que por cada lugar que eles passam, espalhando morte e terror, é uma nova forma de dizer ao público: “olha que legal essa versão ainda mais bizarra do Esquadrão Suicida”. A violência parece não ter propósito algum, a não ser o gore pelo gore. Esses personagens são afetados, extravagantes e bregas, assim como o excêntrico chefe, uma espécie de cosplay mal feito do Elton John.

O terceiro ato é bastante previsível, embora o clímax nos dê algumas boas sequências. A essa altura do campeonato, a diversão pelo menos precisa existir. Há também um grande plot twist nos minutos finais, o que realmente surpreendeu positivamente. Porém, o roteirista Jayson Rothwell tem a brilhante ideia de sabotá-la com uma dose de incoerência absurda, deixando tudo ainda mais fora dos eixos.

No final das contas, em que pese o bom trabalho de Madds Mikkelsen, o ritmo constante e algumas cenas de ação bem executadas, Polar é uma festa estranha com gente esquisita. Mirou em Tarantino e acertou numa mistura de Esquadrão Suicida com Hitman.

1.5

RESUMO:

Polar conta com o talento de Mads Mikkelsen e algumas cenas de ação que empolgam, mas possui um tom desajustado, conta com um roteiro previsível e personagens caricatos.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...