Crítica | ‘Creed II’ empolga, mas ainda está bastante preso à franquia Rocky

Em 2015, Creed: Nascido Para Lutar foi um grande sucesso por dar início a uma nova história no universo, que começou a ser desenvolvido por Stallone na década de 70. O filme sobre o filho do Apollo Creed (Carl Weathers) teve como objetivo apresentar um novo núcleo, mas ainda estava bastante na sombra da franquia original. E precisava ser assim para que a ponte entre as gerações pudesse ser estabelecida. Portanto, Adonis e Rocky estavam no mesmo patamar.

O filme, dirigido por Steven Caple Jr., segue os passos de Adonis Creed (Michael B. Jordan), numa carreira que está em ascensão, o levando a conquistar o cinturão de campeão mundial de boxe ao lado de seu mentor, Rocky Balboa (Sylvester Stallone). Tudo muda quando um personagem do passado de Rocky retorna, buscando vingança por uma luta perdida há anos. Assim, os dois se unem para que possam enfrentar Ivan Drago (Dolph Lundgren) e seu filho, Viktor Drago (Florian Monteanu).

No caso de Creed II, era esperado que o longa seguisse um caminho próprio. Isso até acontece em relação a certos aspectos. É possível ver muito mais de Adonis do que de Rocky, por exemplo. Este segundo personagem tem um núcleo próprio na sequência, que é desenvolvido de maneira demorada, mas possui um desfecho muito bonito. O filme é de fato Adonis. Há uma cena muito simbólica logo no começo, na qual Jordan aparece no canto direito da tela e o restante do quadro está vazio. Stallone começa a falar com ele e, aos poucos vai entrando no quadro. Eles realizam esse breve diálogo, enquanto a câmera se movimenta lentamente, e o veterano logo em seguida abandona o quadro. Como já foi dito, eles não estão no mesmo patamar aqui. Porém ainda tem muito o que se separar da franquia original. Principalmente no que diz respeito à estrutura.

Essa sequência, escrita por Juel Taylor e o próprio Stallone, tem muitos elementos de Rocky II: A Revanche, Rocky III: O Desafio Supremo e Rocky IV. Os fãs poderão perceber, inclusive, a tentativa de reconstruir alguns momentos marcantes desses dois filmes citados, mudando os personagens e certos aspectos. Isso torna a história previsível, porque o público sentirá a sensação de que já viu aquilo antes. Esse é um dos problemas. Era o momento certo para fazer com que a franquia Creed saísse das sombras da franquia Rocky.

O primeiro longa foi dirigido por Ryan Coogler e ele fez certa falta na sequência. As cenas de luta do diretor Steven Caple Jr. são bem empolgantes e a violência no ringue se aproxima do realismo. Mas a câmera de Coogler era bem mais fluida, ele fazia bons usos de planos sequência. Nada disso está presente em Creed II. Algumas decisões não foram tomadas da maneira correta pelo diretor. Ele faz muito uso de câmera lenta e câmera subjetiva, que não funcionam. É importante deixar claro que o longa não é mal dirigido, mas também não apresenta nada que não seja convencional, exceto uma cena ou outra.

Michael B. Jordan está muito bem e cresce bastante nessa sequência. É um momento no qual ele se entende e aprende muito com os seus erros. O primeiro longa trabalha uma questão de identidade no personagem. Nesse, ele compreende o tamanho de seu sobrenome e o assume. No segundo filme, ele cria uma certa personalidade a partir do seu nome. Ele toma decisões por conta própria, não precisa seguir exatamente os mesmos passos do pai. Ele é um Creed, mas não é o Apollo Creed.

Tessa Thompson está ótima. Ela não teve muito destaque no primeiro filme, mas ganhou um grande espaço na sequência. É uma boa atriz e entendeu bem sua personagem. As cenas das apresentações musicais de Bianca são alguns dos melhores momentos. Michael e Tessa formam um casal com bastante química, são bons juntos. No entanto, a sua presença em algumas cenass do filme pode ser um pouco problemática. Ela se assemelha bastante com a Adrian, vivida por Talia Shire na franquia original do Rocky Balboa. Ou seja, às vezes ela é retratada como uma esposa que está ali para apoiar as decisões do marido. Tomara que haja uma mudança no rumo da Bianca, pois ela tem personalidade e vários caminhos diferentes poderiam ser tomados com ela.

Stallone está excelente, num nível de atuação semelhante a do primeiro filme. Como já foi dito, sua participação é reduzida em relação ao longa dirigido por Coogler. O personagem passa por um momento de indecisão, enquanto ele começa a abrir um caminho para que Adonis assuma esse “bastão” e siga em frente. Outro aspecto que vale a pena ser comentado é a forma como certas questões do passado voltam a atormentá-lo de maneira mais profunda.

A família Drago é boa, mas poderia ter sido melhor. Dolph Lundgren está bem dentro do que é estabelecido para seu personagem. Ivan poderia ter sido melhor trabalhado. Porém, ele fica numa premissa, até interessante, mas que é bastante repetitiva. É um homem, que depois de perder a luta para Rocky, perdeu também sua honra e sua posição de destaque na Ucrânia. Uma relação de pai e filho começa a ser desenvolvida, mas fica na superficialidade. Florian Monteanu também consegue se sair bem.

Creed II é uma sequência que, infelizmente, fica abaixo do seu anterior. O trabalho de direção de Steven Caple Jr. é aceitável. O trio Michael B. Jordan, Sylvester Stallone e Tessa Thompson possui ótimas atuações e são os grandes destaques. E o roteiro conta uma boa história, mas que não sai das sombras da franquia original. O momento de total nostalgia passou. É hora de seguir em frente e inovar no que diz respeito à história desses novos personagens, criar algo próprio para Adonis Creed.

CREED II
3.5

RESUMO:

Creed II é um bom filme. Tem ótimas atuações, cenas empolgantes e muitas referências aos filmes da franquia original. Porém, continua preso às sombras do Rocky Balboa.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.