Crítica | ‘Green Book: O Guia’: quando os opostos se atraem

Dirigido por Peter Farrelly, que também assina o roteiro ao lado de Brian Hayes Currie e Nick VallelongaGreen Book: O Guia conta a história de Tony “Lip” Vallelonga (Viggo Mortensen), um descendente de italianos, que aceita trabalhar como motorista do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista de jazz negro, durante uma turnê pelo sul dos EUA. O longa é baseado em fatos ocorridos no início dos anos 60.

A história não é muito complexa e segue uma estrutura bastante utilizada em vários outros longas. Duas pessoas completamente diferentes são colocados numa determinada situação. Um quer voltar para a família e o outro é uma pessoa solitária. No final, os dois se aproximam e viram grandes amigos.  Lembra, inclusive, a estrutura do filme Antes Só do Que Mal Acompanhado, com Steve Martin e John Candy.

Mesmo com um tipo de narrativa bem comum, o que a torna previsível, nesse caso é adicionado o tema sobre o racismo nos EUA. Muitos também têm comparado esse longa ao vencedor do Oscar Conduzindo Miss Daisy, do diretor Bruce Beresford. De fato, há grandes semelhanças. Porém Green Book: O Guia consegue se destacar por uma certa inversão nos papeis – dessa vez um homem branco é o motorista – e por uma abordagem mais profunda dos personagens.

Uma das coisas que mais chama a atenção no roteiro é o humor. O filme tem muitas cenas de comédia (numa quantidade inesperada) e elas são muito engraçadas. A transição entre o humor e o drama é realizada de maneira competente. Aliás, esse segundo gênero é trabalhado de um modo bem leve. Farrellytem bastante experiência com a comédia.  Ele já dirigiu Quem Vai Ficar com Mary?, Debi e Loide: Dois Idiotas em ApurosEu, Eu Mesmo e Irene, entre outros.

Tendo como base o currículo apresentado, Peter mostra que sabe conduzir muito bem essas sequências mais cômicas. Obviamente elas funcionam por causa de uma união entre a habilidade do diretor e as ótimas atuações. Duas são memoráveis: a cena na qual eles comem frango frito no carro e a cena da arma próxima ao final.  Essa última apresenta uma maneira de construir piadas ao longo do filme que funciona. Uma pequena informação é lançada e um bom tempo depois, o diretor a retoma para gerar um desfecho engraçado. Isso acontece várias vezes durante a história. Muitos diálogos também são realizados a partir do humor, o que dá uma outra perspectiva ao longa.

Outro grande ponto positivo do roteiro é o ótimo desenvolvimento dos personagens. Como o roteirista Nick Vallelonga é filho de Tony Vallelonga na vida real, esse foi o escolhido para ser o protagonista do filme. Ele é um homem do tipo “machão”, fala bastante, não é muito educado (come de boca aberta ou enquanto fala), utiliza termos inapropriados – muitos desses racistas inclusive.

Porém, a principal característica de Tony é que ele se sai bem em situações mais sérias, sabe dar um “jeitinho” para resolver as coisas, mesmo que tome atitudes questionáveis. Isso fica claro nos primeiros minutos de filme. Logo, o público acompanha a mudança que ele sofre, tornando-se uma pessoa um pouco mais tolerante. A atuação de Viggo Mortensen é excelente. Ele também se preparou bem para interpretar o personagem. Sua transformação física, o sotaque italiano, tudo isso influenciou no seu trabalho. Ele merece uma indicação ao Oscar de Melhor Ator.

Já o Dr. Don Shirley, interpretado pelo excelente Mahershala Ali, é o completo oposto de Tony. Um homem de poucas palavras, correto, inteligente, calmo, mais refinado. O ator já ganhou um Oscar por Moonlight e merece uma indicação por Green Book. Shirley é um personagem interessante, pois, a partir dele, é levantada uma questão sobre a identidade. O pianista é um homem negro, mas que vivia em condições diferentes que outras pessoas negras nos EUA naquela época. Ele cresceu ao redor de pessoas brancas e ricas e se apresenta para gente desse mesmo grupo. Portanto, de certa forma, Shirley tem um bloqueio, ele não consegue se encaixar na comunidade negra.

Porém, as atitudes racistas adotadas também acabam valendo para Shirley. Há uma cena muito boa, na qual ele mostra um conhecimento de música clássica, mas não entende muito sobre as músicas de artistas negros de sucesso na época. É uma questão bem trabalhada. No entanto, o filme falha em certos momentos por causa de cenas que forçam um pouco o assunto, ao invés de tentarem retratá-lo de maneira mais suave.

As cenas nas quais os dois estão juntos são ótimas, porque o contraste entre os personagens fica em evidência. A oposição é estabelecida desde a cena na qual eles se conhecem. E é interessante analisá-la, principalmente, a partir do aspecto do posicionamento deles. Tony sentado em frente a Shirley, que está num trono, acima de um degrau. Isso remete também,de maneira metafórica, à inversão social presente no longa. Não dá para saber o quanto disso aconteceu na vida real, mas é uma forma inteligente de iniciar a relação entre os personagens. Entretanto, o roteiro possui uma falha ao apresentar certos fatos da vida de cada um, sem ter a necessidade de desenvolvê-los. Em alguns casos, acaba sobrando uma ponta solta.

Vale a pena comentar também sobre a personagem de Linda Cardellini, que por mais que não seja tão presente e seu papel não tenha tanto destaque, é possível perceber um certo carinho na sua retratação. Ela se sai bem dentro do que lhe foi oferecido. Cabe lembrar que sua personagem é a mãe do roteirista do filme.

Green Book: O Guia é uma história que tem como temas a amizade e a tensão racial nos EUA. No primeiro caso, inicialmente, há um embate entre Tony e Shirley. Ao longo do filme, esses embates vão se transformando, de maneira sutil, num estado de apoio. Isso quando um passa a entender a realidade do outro.

Em relação ao segundo tema, o longa apresenta situações recorrentes com pessoas negras naquelas determinadas época e região. O próprio título da história, “Green Book”, diz respeito a um livro que indicava hotéis e/ou pousadas nas quais somente negros ou brancos poderiam se hospedar. O que pode parecer problemático em determinados momentos é que esse tema é apresentado sobre o ponto de vista do Tony, um homem branco que cuida dos obstáculos que podem surgir durante a viagem. Porém, sobre a visão de Shirley, a questão é melhor desenvolvida e, até mesmo, evolui para um ideal de resistência.

Green Book: O Guia é uma comédia dramática bem leve sobre uma grande amizade, formada ao longo de uma viagem de carro. Conta com ótimas atuações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Tem um roteiro previsível, mas bem trabalhado, principalmente no humor, e que levanta importantes temas. Falha ao tentar expor certos aspectos dos personagens sem necessidade e escorrega um pouco no que diz respeito ao ponto de vista pelo qual o principal tema é apresentado. É um filme simples e que, no geral, consegue se sair bem.

GREEN BOOK: O GUIA | GREEN BOOK
3.5

RESUMO:

Green Book: O Guia é uma comédia dramática sobre a formação de uma grande amizade entre duas pessoas bem diferentes, ao longo de uma viagem de carro.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.