Crítica | ‘Vidro’: apesar do potencial, fim da trilogia de Shyamalan é frágil como o nome

Sabe aquela sensação de que algo é bom, mas ao mesmo tempo não é? Pois bem, Vidro (Glass), que deveria ser a continuação de M. Night Shyamalan para Fragmentado (2017) e Corpo Fechado (2000) consegue reunir um misto de sentimentos em torno de si. Por vezes o filme oscila entre a ousadia e a cafonice expositiva, o mistério envolvente e o anticlímax. É difícil digerir.

Mas, antes de mais nada, um parêntese. Por que deveria ser a continuação, mas não é uma sequência tão boa para os dois filmes? Isso acontece porque muitos dos elementos do primeiro filme da trilogia são negligenciados, e a sensação de um prosseguimento imediato é muito mais presente. Por uma questão de temporalidade, é claro, mas também pelo caráter do protagonismo aqui. Todas as atenções se voltam para a Fera, Patricia, Dennis, Hedwig e mais um punhado de novas personalidades vistas nesse filme. Vidro tem Fragmentado demais, e Corpo Fechado de menos.

No filme, Kevin (James McAvoy), o homem com 24 personalidades e uma habilidade sobrenatural, está livre por ai, fazendo vítimas. Enquanto isso, David Dunn (Bruce Willis), que possui uma empresa de segurança mas se tornou um vigilante incomoda as autoridades,  já tomou conhecimento do fato, e tenta detê-lo.

Para reunir os três personagens centrais dos filmes, o roteiro escrito pelo próprio Shyamalan se encarrega de introduzir uma nova personagem, a Dra. Ellie Staple, interpretada por Sarah Paulson. A atriz entrega uma boa atuação, com um ar de mistério sempre presente, além da incerteza de suas motivações. A personagem é responsável por ditar o ritmo de muitos acontecimentos do filme, do segundo ato em diante.

O artifício para reuni-los, no entanto, soa muito conveniente. Mas, a intenção é boa. Todos eles são internados em uma ala psiquiátrica para pessoas que acreditam serem super-heróis ou portadores de poderes especiais. A partir desse pressuposto, Staple, especialista no assunto, tenta demover todos eles da ideia de que são dotados de dons especiais, utilizando para isso, a psicologia.

O primeiro ato do filme é primoroso, atmosférico e visceral. Nele, somos apresentados a maior parte dos personagens que veremos em tela. Ele culmina em uma grande sequência de ação, que empolga e nos faz desejar mais. Porém, ao adentrar o segundo ato, o filme desacelera um pouco mais do que deveria. Ao menos, Shyamalan faz uso de diversos recursos visuais interessantes, como planos holandeses, ângulos bem posicionados, boas movimentações com tracking shots e câmeras subjetivas. Mas, a sensação de vazio no miolo da história até a resolução é inevitável, em muitos momentos. O longa parece dar volta em círculos, construindo uma mitologia que viaja entre as reviravoltas pretendidas pelo cineasta.

O terceiro ato, no entanto, é caótico, no sentido da agitação. E isso não é ruim. Porém, há aqui uma grande marca do diretor. A reviravolta “Shyamalanesca” se faz presente por mais de uma vez. A primeira não compromete, e era até previsível em certo ponto. No meio disso, o desfecho anti-climático dos personagens é grande demais para ser ignorado. Fica aquela sensação de “é sério que você fez isso com eles?”. Por fim, o grande plot twist do filme desconstrói toda a ideia do que vimos em tela. Mas não de uma maneira positiva. É um final divisivo, sem dúvidas.

Porém, há um alento. A Atuação de James McAvoy é primorosa. As personalidades já conhecidas ganham mais destaque aqui, e o ator varia de um personagem para o outro com mais frequência e rapidez na mesma cena, lançando mão de um sem númeno de expressões e variações de vozes e sotaques em seu repertório. É um trabalho digno de reconhecimento.

Por outro lado, Bruce Willis demonstra uma certa apatia aqui. Muito por conta do que o roteiro oferece, relegando um grande personagem construído no passado a um papel secundário. Do outro lado da balança está Samuel L. Jackon, o grande elo de ligação entre a Fera e Dunn, que consegue entregar uma atuação dentro do esperado. Depois de anos confinado, o Senhor Vidro possui as marcas do tempo, mas sua genialidade é ainda maior. O senso de vulnerabilidade, no entanto, é menor do que em Corpo Fechado. Ele é muito mais senhor das ações e seguro de si, um vilão ardiloso como aqueles vistos nos quadrinhos. Não é a toa que, o terceiro filme da franquia lhe de o protagonismo real, coisa que vai se revelando lentamente e só é percebida nos instantes finais.

Outro ponto curioso é a adição no elenco de Spencer Treat Clark. Por se tratar do mesmo ator que viveu o filho de David Dunn no primeiro longa, há 19 anos atrás, a sensação de veracidade é muito maior. Além disso, sua presença em tela não é demasiada, nem desnecessária. Há equilíbrio, fato que também ocorre no retorno da mãe de Elijah, Charlayne Woodard. A propósito, aqui vai uma curiosidade: a atriz é cinco anos mais jovem que Smuel L. Jackson, seu filho no longa. Embora não seja tão perceptível, por vezes, isso causa uma certa estranheza.

É uma pena que haja um desperdício tão grande quanto o de Anya Taylor-Joy. A talentosa atriz retorna, mas sua personagem, Casey, não deveria sequer participar do filme, se houvesse o mínimo de coerência. Suas motivações não tem sentido algum, e parece que o único propósito de seu envolvimento com o longa é que cada um dos personagens centrais tivessem alguém conhecido em determinados momentos do filme, e para que o diretor pudesse inseri-la, também, no plot derradeiro. É lógico, o longa fala também sobre conexões, além do senso de realidade e os dons individuais do ser humano. Mesmo assim, é muito pouco provável que alguém agisse da forma como ela agiu.

No fim, o longa possui um potencial enorme, e uma boa dose de ousadia, sendo inclusive o que muitos filmes de super-heróis tentam ser, mas nunca conseguem. Em especial os filmes da DC, que tentam abraçar uma temática mais séria, com discussões mais complexas. Mas, uma característica em especial chama atenção. Nenhum desses personagens é fruto de experiências de laboratório, semideuses ou são alienígenas. É um conceito único e uma abordagem muito interessante. Shyamalan consegue construir um universo que funciona nesse sentido, sem parecer ridículo ou pretensioso demais. Pena que o diretor sabote os próprios personagens, em prol de um estilo.

Quando a projeção termina, Vidro acaba esbarrando na ausência de uma história que pudesse dar um sentido real aos seus personagens, tão bem construídos anteriormente, e não apenas um jogo de motivações e reviravoltas para explicar sentido real de tudo. Afinal, o que se pretende é questionar a realidade sobrenatural por questionar, apenas?

Shyamalan, nos instantes finais, ainda consegue unir os três filmes e a tecnologia do mundo atual, deixando uma mensagem interessante nesse sentido. A coragem, aliás, também é digna de reconhecimento, ao levar uma história de super-heróis nada convencional e subverter totalmente o gênero. Mas, tal qual seu título, a narrativa é frágil em vários momentos.

VIDRO | GLASS
2.5

RESUMO:

As boas ideias e o rico universo criado em Corpo Fechado e Fragmentado não estão a altura do fechamento da trilogia de M. Night Shyamalan em Vidro.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...