Transtorno dissociativo de personalidade: realidade ou ficção?

Há alguns séculos a questão das múltiplas personalidades vêm assombrando a humanidade. Na literatura, desde o século XIX, esse tema foi desenvolvido por muitos autores, como Edgar Allan Poe, Robert Louis Stevenson, Fiódor Dostoievski, entre outros. No cinema e na televisão não foi diferente. Na realidade, esse assunto tem se mostrado bastante polêmico; atualmente a Psiquiatria classifica as múltiplas personalidades, como transtorno dissociativo de personalidade e admite a quantidade escassa desse casos.

Talvez esse seja um dos diagnósticos mais complexos, pois costuma-se associá-lo a outros transtornos. É preciso ter certo cuidado com o termo dissociação, utilizado para se referir a estados dissociativos, que envolvem memória e consciência, por exemplo, e não necessariamente se relacionam com o transtorno dissociativo de personalidade.

Para a Psicanálise, esse transtorno está relacionado à psicose, pode vir a se manifestar nos casos em que o sujeito tenha passado por algum trauma psicológico bastante significativo como um abuso sexual ou também devido a uma constituição do eu conturbada, gerado por uma desestruturação familiar na infância, por exemplo.

De forma geral, uma nova personalidade assume com a intenção inconsciente de resguardar o sujeito de alguma circunstância ou um fato inadmissível e assim protegê-lo de algum sofrimento insuportável. Essa segunda personalidade adquire uma função defensiva frente ao perigo do sujeito descobrir ou recordar uma lembrança desagradável.

Anthony Perkins como Norman Bates em “Psicose” (Alfred Hitchcock , 1960), filme que deu origem a série “Bates Motel”

A obra fictícia Psicose é um ótimo exemplo de um caso de transtorno dissociativo, principalmente a série televisiva Bates Motel, baseada no clássico filme de Alfred Hitchcock, que explora com uma profundidade ainda maior a estranha relação de Norman Bates e sua mãe, Norma Bates, além do desenvolvimento da sua dupla personalidade.

A série descreve com densidade a grande proximidade entre Norman e sua mãe, aos poucos percebe-se o excesso de zelo e de preocupação de Norma com o filho, agindo quase sempre de uma maneira invasiva e autoritária. Ela chega ao ponto de acreditar que sabe melhor do que o próprio filho o que ele sente ou como deveria agir. Quando Norman começa a se interessar pelas garotas, sua mãe sempre tende a podá-lo, nenhuma delas parece ser suficiente para ele. Inevitavelmente, no auge de sua juventude e início da vida sexual, Norman se envolve com algumas garotas.

Entretanto, pouco tempo depois, Norman fica em conflito, sente como se estivesse traindo a sua mãe ao desejar outras mulheres. Devido a isso, por sentir uma culpa insuportável, tende a assassinar as moças com quem se envolve. Mas o interessante é que ele não as mata consciente, para aliviar sua culpa, ele incorpora a sua mãe, desloca sua culpa para ela e, em seguida, entra em uma crise de ausência e esquece os crimes cometidos. Dessa forma, ele aplaca a sua traição e mantém a sua mãe como a única mulher de sua vida, conservando assim uma certa relação incestuosa entre eles.

É importante ressaltar a raridade desses casos. Em muitos casos de outras categorias de psicose é comum notar as mudanças significativas de humor, tom de voz e comportamento, entretanto, é incomum observar alterações de personalidades organizadas, como se de uma hora para outra o indivíduo deixasse de ser João para se tornar Pedro, com características totalmente contrastantes entre si. Existem os delirantes que acreditam ser Napoleão Bonaparte ou Jesus Cristo, mas essas são personalidades históricas da qual o sujeito as absorve de uma maneira estereotipada. Nesses casos, não há o requinte da construção de uma personalidade compensatória.

O caso de Elliot Alderson em Mr. Robot (USA Network) ainda é muito difícil de ser diagnosticado

Os pouquíssimos casos classificados com esse transtorno, em que o sujeito manifesta duas personalidades mais ou menos concomitantes já são raros, os com mais do que duas são ainda mais, pois teoricamente quanto maior o número de personalidades maior a quantidade de traumas e fragilidade do eu. Muitos profissionais da área da saúde mental chegam ao ponto de questionar a existência do transtorno dissociativo.

De certa forma há uma espécie de contradição, pois nos casos de psicose, os pacientes tendem a ter uma desorganização psíquica bem grande, principalmente em seus afetos, memórias e do seu próprio eu. Portanto, diante desse caos psicológico bastante limitador, como ter condições em “criar” uma segunda personalidade sem ao menos ter certo controle da primeira?

A literatura, ao criar os personagens com dupla personalidade, não tinha o interesse em explorar os casos de transtorno dissociativo. Buscava-se mostrar os aspectos ambíguos e contraditórios da personalidade.

Na obra O Duplo, de Dostoievski, o autor fala sobre a vida de um funcionário público infeliz e frustrado com a sua vida. Costumava ser tímido, muito introspectivo e pouco sociável. Um dia, um novo funcionário é contratado, um sujeito idêntico a ele fisicamente, como um irmão gêmeo. Porém, esse clone do protagonista tinha uma personalidade bem diferente da dele: era extrovertido, bem humorado e todos rapidamente simpatizaram com ele.

O protagonista não se conformava com a sua existência e passou a rivalizar com ele. No decorrer do livro acompanha-se lentamente a sua derrocada até a sua internação ocorrida no final da história. Esse é um bom exemplo não exatamente, de um transtorno dissociativo, mas de uma metáfora dos aspectos dúbios da personalidade. O protagonista materializou um outro eu com as características idealizadas por ele. Apesar do caráter compensatório, ele não se tornou um “outro eu”, o que é diferente do caso de Norman, por exemplo, que se transforma na mãe. Além disso, no caso do personagem principal de O Duplo, não há um trauma aparente do qual ele precise se defender.

O Homem Duplicado (Dennis Villeneuve, 2013) também aborda o tema

Para a Psicanálise, todos os sujeitos são, de uma certa forma, dissociados, devido a existência de aspectos inconscientes da personalidade. Freud revolucionou o conceito de indivíduo (indivisível). Desde Descartes, os filósofos racionalistas acreditavam que o homem era puramente racional, sendo o pensamento lógico como o único aspecto constituinte do psiquismo, com a velha máxima cartesiana: “Penso, logo existo”.

Durante toda a sua obra, Freud tratou dos desejos mais obscuros e estranhos da mente humana, mostrando que em inúmeras situações as pessoas se dividem entre a moral (racionalidade) e o desejo (impulsos irracionais, muitas vezes de cunho sexual), e como isso tende a gerar inevitavelmente os conflitos neuróticos e os seus sintomas. Lacan fez uma contribuição importante e inverteu a máxima cartesiana a partir do conceito de sujeito do inconsciente: “Sou onde não penso, penso onde não sou”.

O transtorno dissociativo de personalidade por ser extremante complicado e difícil de ser diagnosticado, pode-se levantar a hipótese da sua não existência. Talvez a psiquiatria o tenha inserido nos manuais diagnósticos por uma influência da literatura e do imaginário popular e não tanto por uma questão científica.

O personagem de James McAvoy em Fragmentado (M. Night Shyamalan, 2017) não seria plausível em nossa realidade

É irônico pensar que um dos transtornos mais chamativos para o senso comum, alimentados pela ficção, talvez não exista. Ainda mais se levarmos em consideração que grande parte dos profissionais da saúde mental, incluindo psiquiatras, o ignorem. Entretanto, não é possível afirmar com segurança a não existência desse transtorno: é preciso uma quantidade significativa de estudos científicos para chegar a essa conclusão. O mistério e a fascinação por essa desordem psíquica continuará por um longo tempo ainda.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.