Crítica | ‘O Peso do Passado’ possui uma poderosa performance de Nicole Kidman, mas não vai além disso

Aqui vemos mais um filme feito para abocanhar uma indicação ao Oscar para sua atriz principal. Nessa temporada de premiações, tivemos primeiro A Esposa, que grande parte do seu foco foi para enaltecer Glenn Close. Em O Peso do Passado, Nicole Kidman é a estrela da vez, e que nem Close, faz um excelente trabalho, definitivamente um dos melhores de sua carreira. Só que, diferente do filme citado anteriormente, o roteiro aqui não é um atrativo a mais além da estrondosa performance de sua musa.

Nicole Kidman é uma força da natureza. Não há dúvidas de que a Academia ama uma interpretação que exige uma difícil e forte mudança física dos atores, e que seu papel aqui foi visando isso. Porém, Kidman vai além e tira de sua interpretação algo tão grandioso quanto sua mudança física. Ela está feroz e, ao mesmo tempo, desolada e perdida no papel de uma policial com muitos traumas ainda vivos em sua cabeça.

A história gira em torno dessa policial que, ao investigar um assassinato que dá sinais de que um antigo inimigo está de volta, é obrigada a reviver traumas de quando estava infiltrada em uma gangue para uma investigação que, no fim, acabou dando completamente errado.


O roteiro intercala a investigação atual, com flashbacks de quando Erin (Kidman) estava infiltrada nessa gangue. O problema está em como o roteiro tenta fazer essa intercalação. É muito fácil se perder na história que o filme está tentando contar, o vai-e-vem no passado e presente é confuso e tenta parecer mais inteligente do que realmente é. A reviravolta final, por exemplo, é previsível e desinteressante após o expectador passar duas longas horas assistindo algo que demora a engatar no que realmente interessa.

Parece que faltou um pouco de amor aqui. A história é, no mínimo, instigante, porém o ar de filme noir não encaixa bem com a narrativa deixando o filme bastante desconexo. É como se estivéssemos assistindo algo que poderia ter sido realmente grande e surpreendente, mas que faltou amor e, até mesmo, dedicação para tentar fazer com que o roteiro saísse do previsível e confuso. O vilão, por exemplo, que é apresentado como alguém perigoso e amedrontador, tem pouquíssimo tempo de tela, tirando totalmente a chance de mostrar ao que veio.

As cenas de ação e roubo não são muitas, mas poderiam ter sido trabalhadas de um jeito diferente pela diretora Karyn Kusama. O auge do filme, onde é contado em que momento deu tudo errado para Erin, é anticlimático, e manipula a ação de forma que o público não veja exatamente o que está acontecendo. Parece uma tentativa não bem-sucedida de aumentar a tensão da situação.


Em contrapartida, todos os elogios vão para o trabalho de maquiagem e elenco. A maquiagem de Kidman conseguiu deixar toda a beleza da atriz esquecida, tornando-a com um rosto irreconhecível e assustador. Ao olhar para ela, é inegável dizer que a personagem passou por maus momentos na vida, e que eles a deixaram sem vontade de continuar e de se importar consigo mesma. É a mais pura demonstração de alguém que se rendeu a depressão.

Sebastian Stan interpreta o principal parceiro e par romântico de Kidman e, como sempre, se sai bem. O ator, apesar de não ter feito uma mudança drástica que nem a atriz, também possui uma boa mudança física, juntamente de outros nomes do elenco como Tatiana Maslany e Bradley Whitford.

O Peso do Passado poderia ser muito melhor do que é. Possui uma história instigante, mas que é mal estruturada, e que tenta ser muito mais inteligente do que é. Se o roteiro de Phil Ray e Matt Manfredi soubesse das limitações que a história possui, teria entregado algo muito acima do que foi visto. O forte está no seu elenco e, principalmente, na mudança e interpretação de Nicole. A atriz, com certeza, irá conseguir uma indicação ao Oscar ou, pelo menos, em algumas das principais premiações. É um trabalho digno de aplausos. Pena que o filme não chega no mesmo patamar.


O PESO DO PASSADO | DESTROYER
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RESUMO:

Visando uma indicação ao Oscar para Nicole Kidman, O Peso do Passado parece ter como foco apenas isso. Possui uma instigante história em mãos, mas que tenta ser algo maior e mais inteligente do que é, e acaba se atropelando no meio do caminho.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.