Crítica | ‘Você’ é uma excelente representação do que é um relacionamento abusivo

Transmitida pelo canal americano Freeform, e distribuída mundialmente pela Netflix, Você (You) é baseada em um livro de mesmo nome, escrito pela autora Caroline Kepnes. Durante sua exibição na televisão, a série não recebeu grande atenção do público.

Renovada para uma segunda temporada antes mesmo da estreia da primeira, Você era, claramente, uma grande aposta da emissora. Porém, durante sua distribuição mundial, a série vem ganhando um ótimo boca a boca entre as pessoas, e logo na sua primeira semana disponível no catálogo do serviço de streaming, virou um verdadeiro sucesso. Merecido, por sinal.

A série gira em torno de Joe (Penn Badgley), gerente de uma livraria que se vê apaixonado por Guinevere Beck (Elizabeth Lail) logo no primeiro momento em que ela surge na loja a procura de um livro. Sem nem ao menos conhecê-la, Joe passa a stalkear a garota tanto nas redes sociais, quanto pessoalmente, com a intenção de fazer suas vidas esbarrarem e ela, assim, se apaixonar por ele.


Logo no primeiro episódio, o público já é informado que Joe não é o mocinho da história, e sim, o vilão. Essa não é uma história sobre um relacionamento saudável, que surgiu espontaneamente, e etc. Muito pelo contrário, essa é uma história sobre um relacionamento abusivo, forçado, manipulativo e longe, muito longe, de ser saudável. Beck é a vítima da história. E Joe, o stalker.

A partir desse princípio, e de ter deixado claro o papel de cada personagem na trama, a série irá girar em torno do quão longe um stalker pode chegar para conseguir o que quer. Joe não entende que o que ele está fazendo é errado. Na cabeça dele, ele está fazendo o que é melhor para Beck. Nós acompanhamos a história a partir do ponto de vista do próprio stalker. Joe é o narrador da história. Sendo assim, o espectador é colocado dentro da cabeça do personagem, acompanhando cada pensamento e sentimento que ele possui. Joe ser o narrador da história deixa tudo ainda mais interessante e mais assustador por conseguir ver o quão absurdo são todos os pensamentos e atitudes que ele decide tomar.

Em contrapartida, apesar de tornar tudo mais desesperador e sufocante acompanhar a história pelo ponto de vista de Joe, o público acaba criando uma certa empatia pelo personagem. Carismático, engraçado, porém muito manipulativo, Joe consegue criar uma conexão muito rapidamente com o público. Os momentos em que ele para sua vida para ajudar a de Paco (Luca Padovan), seu vizinho, ou quando é mostrado um pouco de seu passado, é onde a série tenta amplificar ainda mais essa empatia. É muito fácil se ver tentando achar uma justificativa para o que ele está fazendo por causa dessa conexão criada. Porém, mais fácil ainda, é ver a gravidade de toda essa situação, e o quão louco e psicopata o personagem vai se tornando ao longo da trama.

O forte da série está nos personagens. Joe tem um desenvolvimento excepcional, se tornando, aos olhos do público, e até mesmo de alguns personagens, cada vez mais perigoso. Beck, mesmo sendo a vítima, não é isenta de erros. A personagem é desenvolvida sempre como imperfeita, e tendo seus momentos de altos e baixos tanto no seu relacionamento com Joe, quanto na sua vida pessoal. Isso se encaixa em todos os personagens. Todos eles são imperfeitos, o que deixa a série muito próxima da realidade, onde a perfeição não existe.

O interessante da história está na imprevisibilidade do roteiro. Nunca é possível saber ao certo até que ponto Joe irá chegar para fazer com que esse relacionamento dê certo. Por se mostrar um stalker, e até mesmo um psicopata, a série cria um peso muito grande em cima de cada acontecimento. Cada um deles mostra como Joe é perigoso, e como esse relacionamento está muito longe de ser algo bom para Beck. Em suas narrações em off, Joe fala que, ao estar com ele, Beck irá atingir seu potencial como escritora, e que, somente ele, pode protege-la de todo o mal que a cerca. Ele sempre tenta se mostrar como o inocente da história, mas nunca admite que o maior problema da vida dela é, na verdade, ele mesmo.

A série traz, além de toda a reflexão em cima de relacionamento abusivo, uma importante discussão sobre a nossa exposição nas redes sociais. Beck é uma garota que tem sua vida totalmente exposta em suas redes, o que acaba facilitando indiretamente a vida de Joe ao tentar saber mais sobre sua vida. Essa discussão é bastante relevante, principalmente nos dias atuais, pois vemos o quanto pode ser negativa essa exposição toda que, muitas vezes, nós não vemos problemas em fazer.

Ao final, a série finaliza sua primeira temporada com um bom gancho para a próxima, e uma boa (e revoltante, no bom sentido) conclusão da história criada para esses primeiros episódios. É uma série pesada, com um bom elenco e que traz importantes reflexões sobre relacionamento abusivo, tanto amoroso, quanto em relação a amizades. Penn Badgley é o centro das atenções, e consegue se desvirtuar totalmente da imagem que o público tinha anteriormente dele como Dan, de Gossip Girl. Isso também vale para Shay Mitchell (a Emily, de Pretty Little Liars), que interpreta Peach, melhor amiga de Beck.

Sim, Você vale o hype, e vale as horas investidas para uma maratona nesse começo de ano. E, mais uma vez, é importante ressaltar, agora usando uma frase que a própria Netflix vêm usando na divulgação da série, que esse relacionamento “não era amor, era cilada”.

VOCÊ (YOU) - 1ª TEMPORADA
4

RESUMO:

Você é um excelente exemplo para se discutir relacionamento abusivo. Sem romantizar o assunto, ela se destaca por discuti-lo de forma pesada, mas sempre consciente. Contém bons personagens, boas atuações e um bom desfecho. Com certeza, vale o hype que vem ganhando ao longo das últimas semanas.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.