A Miséria existencial em ‘O Show de Truman’

Análise do filme O Show de Truman (1998). Contém spoilers.

Truman (Jim Carrey) é um típico adulto jovem americano. Com uma vida bem pacata e previsível, trabalha em um escritório de venda de seguros. Confortável com a sua vida repetitiva, não costuma fazer questionamentos ou mudanças significativas. Seu casamento é morno, mas isto não parece incomodá-lo também. Em seu meio social, costuma ser amável e gentil, todos parecem gostar dele e assim caminha com certa perfeição seu cotidiano, na isolada ilha Seahaven (refúgio marítimo).

A palavra “haven” pode conter um trocadilho com “heaven”, devido a semelhança na pronúncia, que significa céu, permitindo também uma associação com paraíso. Por mais comum que pareça, a vida de Truman não tem nada de normal, desde o começo do filme sabemos que ele está sendo filmado 24 horas por dia. Desde o seu nascimento, Truman na verdade é o protagonista de um reality show transmitido em vários países do mundo, e mais de 1 bilhão de pessoas o assistem diariamente.

Ao completar 30 anos, Truman passa a querer algo a mais para a sua vida e se depara com a letargia do seu dia-a-dia. Um dia ao conversar com a sua esposa (Laura Linney), disse que tinha vontade de viajar, já que nunca havia saído daquele pacato paraíso, mas rapidamente Meryl tenta lhe convencer do contrário, pois já haviam assumido outras despesas.

No decorrer do filme, juntamente com ele, nos deparamos com a série de dificuldades encontradas para fazer uma simples viagem, desde um congestionamento a um vazamento radioativo. Truman não pode sair da ilha, caso contrário o show acaba. Por mais que o idealizador do programa Cristof (Ed Harris) afirme que o objetivo é fazer um programa puramente realista, sem roteiros ou ficção, ainda assim, é nítida a sua manipulação e artificialidade.

Aos poucos Truman nota como todos a sua volta agem de acordo com as suas atitudes, tudo gira ao seu redor. Muitos foram os mecanismos para prendê-lo na ilha, um dos mais baixos foi a instalação de um trauma de infância. Um dia estava velejando em alto-mar com seu pai e houve um acidente, seu pai caiu do barco e se afagou, seu corpo nunca mais foi encontrado, desde então passou a ter certa fobia do mar.

Conforme as dificuldades para sair da ilha foram aumentando, o protagonista se esforça em driblar os obstáculos. Talvez o mais trágico de sua história é pensar o quanto ela não passou de uma farsa, em parte planejada, em outras improvisada de acordo com as suas reações. Até mesmo o seu amigo de infância (Noah Emmerich) e a sua esposa não passam de atores controlados por Cristof.

No final do filme, Truman finge estar dormindo na sua casa, quando a produção do programa percebe que ele não está lá, todos saem desesperados a sua procura. Cristof chega ao ponto de “ligar” o Sol para facilitar a busca pelo inusitado protagonista. Seahaven na verdade é um enorme estúdio de gravação, com iluminação, atmosfera e chuva manuseáveis pela produção do reality show.

Truman, apesar de seus traumas, consegue roubar um barco e parte em alto-mar. A produção tenta derrubá-lo do barco criando uma onda gigante, apesar do choque, ele permanece praticamente ileso, pouco depois, o barco bate no “céu”. Então descobre que o “céu” é uma das grandes paredes da cúpula monumental que cerceia o estúdio. Enfim, a farsa foi totalmente desmascarada. Em seguida se depara com uma escada, rapidamente a sobe e tem um rápido diálogo com o seu “criador”.

Cristof se apresenta mas apenas como uma voz vinda do céu, justifica o seu espetáculo dizendo a Truman que do outro lado também há mentiras, mas ao menos em Seahaven não a nada a temer. Uma das falas mais interessantes de Cristof é: “Nem você se conhece tão bem quanto eu”, como se ele conhecesse Truman melhor do que ele mesmo, colocando-o na condição de objeto.

Entretanto Truman rebate a onisciência de seu “criador”: “Você nunca teve uma câmera na minha cabeça!”. Truman para diante da porta e Cristof diz que ele não pode sair, porque está com medo, por ter acompanhado toda a sua vida, acredita que poderia prever todas as suas reações. Surpreendentemente, ele contraria seu “grande pai”, se despede dos telespectadores e saí sem olhar pra trás.

Os telespectadores vibram como se estivessem vendo uma final de copa do mundo, como se a saída de Truman pudesse afetar as suas vidas. O diretor Peter Weir e o roteirista Andrew Niccol foram muito sagazes ao mostrar a reação ridícula dos telespectadores. Entretanto, instantes depois, eles já buscam um novo entretenimento: a programação não pode parar.

AS MULTIPLAS CAMADAS DE TRUMAN

O Show de Truman, dirigido por , é um daqueles filmes que permite ser analisado e interpretado por muitas perspectivas, do ponto de vista filosófico, teológico e psicológico. É possível fazer uma analogia com o mito da caverna de Platão, Truman ao velejar e esbarrar no “céu”, consegue deixar de se iludir pelas aparências da caverna do qual esteve preso por 30 anos, ao alcançar o “céu”, se depara com a verdade.

Sua relação com Cristof é uma ótima metáfora da relação do homem com Deus e representa uma das grandes questões que assombra a humanidade, será que todos nós somos bonecos manipulados por uma divindade sádica? O livre-arbítrio não passa de uma ilusão?

A saída de Truman do programa lembra também a expulsão de Adão e Eva do paraíso, ao provarem da maçã do conhecimento passam a saber mais do que podiam e a desejar o proibido, o sexo e a liberdade. Talvez o único grande ato de Truman tenha sido a fuga de sua redoma, pois desejou algo por si mesmo sem uma manipulação direta de Cristof. Ao buscar a saída do programa se tornou sujeito, sujeito do próprio desejo, ao cruzar a porta passou pela sua prova de fogo e assumiu os riscos da liberdade.

UMA MISÉRIA EXISTENCIAL

A realidade almejada nos reality shows é algo bem questionável, apesar de não haver roteiros para os participantes, com a intenção de ocorrer uma espontaneidade entre eles, há uma série de truques televisivos envolvidos. Começando pelos ângulos de filmagem, é possível dar destaque ou privilegiar um certo participante, criar dramaticidade ou transmitir uma certa emoção.

A partir da edição, pode-se também escolher as melhores cenas que propiciem uma audiência maior, além disso há também a trilha sonora, outro fator importante. O filme mostra bem a maneira como Cristof maneja as cenas e as valoriza com técnicas cinematográficas.

Por fim, há o simples fato dos participantes saberem que estão sendo filmados, isto por si só já causa mudanças importantes em seus comportamentos. No fundo, todo programa televisivo, filme ou documentário são fictícios, por mais que se preocupem com os fatos, em certos casos, há sempre um roteiro e a transmissão da perspectiva de um diretor e de sua equipe. Nesse sentido, é impossível contar a verdade nua e crua, sem alguma interferência.

Um outro fator interessante apresentado pelo filme é a necessidade do surgimento dos reality shows, com o intuito de suprir um certo vazio do qual a ficção dos filmes e das novelas já não estavam mais preenchendo. Como se os telespectadores precisassem se identificar com algo mais próximo da realidade. Nesse sentido Truman é perfeito, se encaixa impecavelmente no perfil do cidadão de “bem“ da classe média, com uma vida medíocre, um tanto comum e frustrada assim como seus bilhões de telespectadores. As pessoas acompanhavam a vida de Truman como um reflexo direto delas, se realizavam psicologicamente nas pequenas conquistas dele, quando ele saiu do programa é como se todos tivessem alcançado a mesma autonomia.


Há cerca de 10 anos, as redes sociais se expandiram por todo mundo e passaram a ocupar um lugar fundamental no cotidiano dos usuários. Talvez o surgimento das redes sociais tenha relação com o desenvolvimento dos reality shows. Nesse tipo de programa, há a possibilidade de pessoas comuns se tornarem famosas e aclamadas, não necessariamente por terem algum talento, mas simplesmente por estarem na televisão, no fundo o que mais causa a identificação é o ordinário, o vazio.

Nas redes sociais, uma pessoa não precisa se inscrever em um programa para ter alguma visibilidade, basta abrir uma conta e publicar algo com uma certa frequência, seja opiniões ou compartilhar memes. Atualmente existe um grande número de blogueiros e youtubers em ascensão. No final das contas, por maior que seja o crescimento da tecnologia, nossas demandas continuam as mesmas, sermos enxergados e amados por um outro, com a intenção inconsciente de reduzir a nossa miséria existencial.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.