Crítica | ‘Black Mirror: Bandersnatch’ traz inovação ao entretenimento sem perder a essência de Black Mirror

Um projeto inusitado que busca promover uma experiência diferente ao assistir um filme. O longa, que faz parte da franquia Black Mirror, mas que não se trata de um episódio da série, é realizado no formato de narrativa interativa, ou seja, permite ao expectador que interaja com o filme enquanto o mesmo está sendo exibido, fazendo com que assim o expectador possa se sentir literalmente dentro da história, como um personagem ativo na mesma. Partindo desse pressuposto, assim como a maioria das obras que buscam por inovar, Black Mirror: Bandersnatch joga os dados em uma aposta arriscada, mas com grandes chances de sucesso.

Não é de hoje que o público aprecia esse tipo de obra, afinal, basta considerar o sucesso exorbitante que existe nos jogos de videogame, onde o expectador é o protagonista da história. Essa proposta de história interativa é bastante antiga. Antes mesmo dos consoles avançados e de programas de TV que permitiam que o expectador decidisse o final da história (programas como “Você Decide”, sucesso da Rede Globo nos anos 1990), já haviam livros e contos (geralmente postados em revistas de jogos de interpretação de RPG) onde o leitor tinha a possibilidade de escolher quais rumos o protagonista da história deveria tomar, levando assim, o enredo para os mais variados rumos possíveis, bem como uma miríade de finais diferentes. O que o filme dirigido por David Slade faz é converter esse tipo de narrativa para o audiovisual, envolvendo atores ao invés de personagens digitais ou literários.

A história acontece em 1984, quando Stefan (Fionn Whitehead), um jovem programador adapta um romance interativo para desenvolver um jogo de videogame, porém, quanto mais ele avança na elaboração do console, eventos estranhos começam a acontecer e isto faz com que o protagonista passe a questionar a própria realidade.


A partir daí, como em um episódio de Black Mirror, a tecnologia se mostra uma faca de dois gumes, facilitando e proporcionando enormes benefícios à humanidade, mas que graças aos próprios defeitos humanos, passa a ser algo terrível e, não poucas vezes, até mortal. Desde os primeiros momentos do filme, ao expectador é permitido tomar as decisões do protagonista durante sua rotina. O expectador pode, até mesmo, escolher que tipo de música Stefan irá ouvir ou o que irá comer no café da manhã.

Quando o primeiro ponto de virada acontece, somos expostos a um cenário estranho e repleto de eventos inexplicáveis, onde a própria realidade se torna algo questionável e no meio disso tudo, está o expectador, que percebe que também faz parte, indireta e diretamente, da trama.

É preciso que se comente o quão genial é esse sistema interativo de entretenimento, capaz, inclusive, de transformar um filme medíocre em uma experiência interessante e prazerosa. Mesmo assim, o longa de Slade não é perfeito e alguns elementos, especialmente os ligados ao desenvolvimento do personagem principal, podiam ter sido melhor desenvolvidos. Alguns flashbacks também podiam ter sido reduzidos (algo que realmente poderia ter se tornado um desafio, uma vez que o filme não trilha apenas um caminho e sim, vários, bem como diversos finais diferentes), mas isso não chega a atrapalhar a experiência.


De uma forma interessante e inovadora, apesar de remeter à várias obras literárias e audiovisuais do passado, que já buscavam esse tipo de interação com o público, Black Mirror: Bandersnatch sabe aproveitar a tecnologia a seu favor e proporciona não apenas um filme, mas sim, uma experiência divertida e que traz grande potencial para obras futuras.

BLACK MIRROR: BANDERSNATCH
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RESUMO:

Black Mirror: Bandersnatch sabe aproveitar a tecnologia a seu favor e proporciona não apenas um filme, mas sim, uma experiência divertida e que traz grande potencial para obras futuras.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...