Crítica | ‘Bird Box’ tem muito suspense, mas falha na experiência sensorial

Distopias, histórias pós-apocalípticas e ficções-científicas, quando bem exploradas, permanecem no imaginário do público por tudo aquilo que poderiam representar em uma possível realidade. Imagine um mundo em que você não pode falar, como em Um Lugar Silencioso, ou outro em que, de um dia para o outro, zumbis silenciosos infestam uma cidade, como acontece em A Noite Devorou o Mundo. Nessa toada, Bird Box, ou Caixa de Pássaros, chega ao streaming pela Netflix, reunindo um grande elenco e uma premissa interessante.

Adaptação do livro homônimo de Josh Malerman, Bird Box acompanha Malorie (Sandra Bullock), uma mulher prestes a dar a luz que presencia uma onda global que inexplicavelmente leva pessoas a tirarem suas próprias vidas. Cinco anos depois dessa uma presença sinistra e invisível levar a maioria da sociedade ao suicídio, a mãe e seus dois filhos fazem uma tentativa desesperada de alcançar a segurança.

Conforme já fora dito no início, o argumento de Bird Box é curioso e engajante. Em um mundo dominado por uma misteriosa força invisível e monstruosa, onde olhar é quase uma passagem para a morte, a readaptação da espécie é algo obrigatório. As vendas nos olhos são dispositivos obrigatórios nesse mundo, onde os monstros não são vistos, apenas observamos seus movimentos através do vento, ou quando folhas voam pela floresta, evidenciando a chegada dos seres estranhos.

Porém, o filme dirigido por Susanne Bier acaba não explorando todas as possibilidades que o argumento possibilita. O fato de haver uma limitação de um dos sentidos, no caso a visão, é exposto através de câmeras subjetivas. Porém, a ausência da visão dos personagens poderia causar um maior impacto nas consequências das ações dos personagens, como por exemplo, nos acidentes que podem invariavelmente ser causados por esta adaptação. Um exemplo contrario a isso é o filme Ensaio Sobre a Cegueira (Fernando Meirelles, 2008), quando a direção explora bastante esse tipo de situação.

Isto posto, é hora de falar do filme. A trama é dividida em dois momentos distintos: o dia em que os suicídios começam a acontecer nos Estados Unidos, onde está a personagem de Sandra Bullock, presa em uma casa com alguns desconhecidos, e cinco anos depois, quando ela tenta cruzar um rio para salvar seus filhos. A direção não é muito cuidadosa ao retratar a passagem de tempo, em que os personagens se parecem exatamente como eram há cinco anos atrás, mas acerta ao levar os acontecimentos para locais mais afastados, como florestas e o rio, não precisando assim, situar uma cidade em meio ao caos.

Os acontecimentos são explorados de forma não-linear, alternando os dois momentos vividos por Malorie. Entretanto, há um fator incômodo nesse aspecto. No começo do filme, somos apresentados ao momento em que sua personagem dá algumas instruções de segurança às crianças, antes de fazer a travessia de barco. Então, obviamente, tudo o que se passa no passado perde o peso dos acontecimentos, pelo menos os trágicos. O roteiro acaba deixando tudo muito previsível, incluindo mortes que poderiam ser mais impactantes se o filme optasse por uma outra narrativa, já que o mistério central é o que são as criaturas, e não o que acontece.

Os monstros, a propósito, podem ser interpretados como metáforas para os medos individuais, uma vez que pessoas insanas acabam não sendo afetadas. No entanto, a melhor discussão que o filme aborda é a questão da maternidade, construindo uma jornada intensa de descoberta e aceitação entre Malorie e as crianças “menino” e “menina”, que é como ela chama os dois.

O elenco de Bird Box é muito bem escalado, porém, subaproveitado. Trevante RhodesJohn MalkovichSarah PaulsonJacki Weaver, Tom HollanderBD WongLil Rel Howery, Sarah PaulsonDanielle Macdonald entregam atuações que não comprometem, mas o roteiro de Eric Heisserer, roteirista de A Chegada, aprisiona muitos dos personagens com potencial  em situações previsíveis. Algumas mortes são facilmente antecipadas por um espectador médio de filmes de suspense/terror. Inclusive a chegada de um personagem que deveria ser um dos momentos mais apoteóticos do filme.

Há, no entanto, um destaque notável para a atuação de Sandra Bullock, a protagonista. Dona de um talento conhecido, a atriz que já ganhou um Oscar de Melhor Atriz em 2010 por Um Sonho Possível se entrega de forma plena ao projeto. Ela se mostra uma mãe que faz de tudo pelas suas crianças, conseguindo exibir as nuances e imperfeições da personagens através de gestos menores, como quando ela se vê em um momento crítico no barco com as crianças, ou nos momentos mais intensos de perseguição.

Mesmo com todos os fatores que jogam contra, Bird Box consegue criar um clima de suspense razoavelmente envolvente, dignos de um mundo pós-apocalíptico, conta com uma boa produção e o presente dos personagens é engajante o suficiente para despertar a atenção do público. A ausência de explicação para os monstros não incomoda, mas este poderia ser um longa mais grandioso, se a narrativa que abraçasse com força o mundo no escuro, dentro da caixa de pássaros que os personagens se encontram.

BIRD BOX | CAIXA DE PÁSSAROS
2.5

RESUMO:

Bird Box possui uma premissa interessante e apresenta um bom elenco, com destaque para Sandra Bullock. Porém, além de uma narrativa previsível, o filme acaba não atingindo todo o seu potencial temático.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...