The Handmaid´s Tale | 2ª temporada: quando a ficção aproxima-se da realidade

“Distopia: lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia”. Aos que acompanharam a primeira temporada de The Handmaid’s Tale a palavra Gilead pode ter vindo à mente.

A inquietação vem, no entanto, quando distopias aproximam-se assustadoramente da realidade. Não há dúvidas quanto à criticidade da série, que leva ao extremo situações ainda vividas atualmente pelas mulheres para ilustrar a sociedade machista que estamos inseridos.

The Handmaid’s Tale é uma obra que impacta. Porém, mais impactante ainda é nos depararmos, de repente, em um cenário preocupante e extremamente parecido com o ficcional. Em tempos onde a futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos exclama frases como “Não é a política que vai mudar esta nação, é a igreja” e “A mulher nasceu para ser mãe”, a série merece atenção.

A produção, lançada em 2017, foi inspirada no romance homônimo de Margaret Atwood publicado em 1985. Depois de uma brilhante e premiada primeira temporada, houve um receio de que a segunda talvez não tivesse mais o que dizer.

 

Para quem ainda não assistiu, a série passa-se em um futuro próximo onde a poluição causou infertilidade na maioria das mulheres. Diante desse cenário de caos, um governo totalitário consegue o controle do que foi os Estados Unidos. As novas leis são baseadas em preceitos religiosos e as mulheres são subjugadas. As poucas férteis — aias — são obrigadas a se submeterem a relações sexuais — estupro — com os chefes de estado em algo chamado de “cerimônia” a fim de que possam perpetuar a raça humana.

Desde o início, acompanhamos a rotina de Offred, interpretada de forma brilhante por Elisabeth Moss, que foi forçada a ser a aia de uma das famílias no poder. Presenciamos, então, sua vida após a guerra — presente — e flashbacks de como era antes.

Uma segunda temporada de altos e baixos

Na segunda temporada, muitos elementos, considerados positivos na primeira, permanecem. A fotografia, a arte e a direção continuam a ser trabalhadas de forma excepcional. Em contrapartida, alguns componentes, já introduzidos na primeira, são acentuados, o que pode ser visto de forma um pouco negativa por se equipararem a um cenário estereotipado.

Os assédios, estupros, intolerâncias são excessivos e pesados. A protagonista — June (Offred) — passa a se destacar entre as aias, recebendo um tratamento diferente do usual. Ela afasta-se da categoria de “apenas mais uma mulher comum em um sistema injusto e violento” e se aproxima da esfera de “heroína”.

Um ponto bastante positivo desta segunda temporada foi o desenvolvimento mais aprofundado de personagens como Janine (Madeline Brewer) e Serena Joy (Yvonne Strzechowski), principalmente desta última que interpreta a conjugue do comandante a quem June serve.

Na primeira temporada, somos levados a crer que as esposas dos comandantes têm privilégios em relação às outras mulheres. Já na segunda, essa ideia é desconstruída. Desenvolvemos certa empatia por Serena ao presenciarmos cenas de sua vida antes da revolução, que inclusive foi arquitetada com seu auxílio. Conclui-se que a execução do novo governo não saiu exatamente como ela idealizou.

Constatamos que nem mesmo as esposas dos comandantes são respeitadas. A verdade sobre o golpe vem à tona: não era sobre introduzir valores cristãos na sociedade e sim sobre fixar os homens no poder. Desde o lançamento da série, vemos a violência com que as aias são tratadas, mas é na segunda temporada que assistimos, pela primeira vez, uma mulher, que deveria estar no topo da hierarquia, sofrendo os mesmos tipos de agressões.


A partir daqui, haverá spoilers.

Já o final da temporada parece não ter agradado à maioria. June finalmente consegue escapar, depois de várias tentativas fracassadas, mas desiste. Ela volta à Guilead por livre e espontânea vontade. A maneira como as imagens nos foram apresentadas, compreende-se que o motivo por trás da decisão da protagonista foi a vontade de ver sua filha novamente e somente inserida naquele sistema poderia revê-la.

No entanto, tal explicação demonstrou-se insuficiente e uma possível motivação oculta emergiu. Se June obtivesse êxito ao fugir, qual seria o conteúdo da terceira temporada? Especulou-se, então, que o desfecho da temporada foi justificado apenas para que houvesse uma continuação maior da produção.

Reação e ação

The Handmaid’s Tale é uma obra de sucesso na atualidade e seu rumo não pode ser uma surpresa. Uma trama mais “comercial” era esperada, afinal, o lucro também sempre fez parte da equação. Contudo, cabe a nós, espectadores, não permitir o esvaziamento de sentido de uma obra que pode inspirar tantas reflexões.

Nossas reações não podem resumir-se a choque e espanto somente e sim em ações diárias que contribuam para uma mudança da realidade que vivemos. Se não, a série ficará apenas sintetizada em uma produção comercial que se baseia no sofrimento das mulheres para alcançar lucro.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"