Crítica | ‘Aquaman’: o Rei dos Mares chegou para ficar

Todo mundo sabe que DC e Warner Bros. oscilaram bastante nesses últimos anos, na tentativa de estabelecer um universo compartilhado de heróis – o DCEU. Ou, ao menos, dividiram opiniões. Se em 2017 os fãs tiveram um bom momento em Mulher-Maravilha, não faltaram controvérsias e longas discussões acerca de filmes como Batman vs Superman, Esquadrão Suicida e Liga da Justiça. Então, o que aproxima ou afasta Aquaman desses filmes?

O longa dirigido por James Wan chega aos cinemas brasileiros (e em mais algumas dezenas de países) na próxima quinta-feira (13), uma semana antes de estrear nos EUA. Duas semanas antes da estreia doméstica, o filme debutou na China e já é a maior bilheteria do estúdio naquele país, com apenas alguns dias em cartaz. Um bom sinal que expressa a confiança do estúdio e confirma o bom trabalho dos realizadores em criar uma aventura solo, com identidade e a marca pessoal de seu versátil autor, que conta uma história que é capaz de cativar o público, através de uma mitologia diferente e ousada.

A sinopse é simples: Arthur curry (Jason Momoa) descobre que é o herdeiro do lendário Reino Subaquático de Atlantis, e deve dar um passo à frente para liderar o seu povo e ser um herói para o mundo. Ajudado por Mera (Amber Heard), a jornada de 2 horas e 23 minutos nos leva a uma produção grandiosa, intensa e feita para os fãs.

Aquaman é uma aventura leve e despretensiosa, agradável ao gosto do público que vai comprar um combo de pipoca e vibrar com cenas impactantes de ação e se maravilhar com os belíssimos planos marinhos esverdeados, fotografados pelo diretor de fotografia indicado ao Oscar, Don Burgess. Algo que a DC resistiu por um tempo, mas parece ter encontrado nessa “fórmula” um caminho para continuar existindo no cinema.

Ao mesmo tempo, é necessário admitir que Aquaman não é o maior filme de super-heróis já feito, nem inova em termos de estrutura básica. Há elementos bem característicos do conceito da jornada do herói, ou monomito, de Joseph Campbel – em uma jornada cíclica, e digamos, previsível em certo ponto – que constantemente é repetida em filmes de aventura e super-heróis. O MacGuffin – elemento que nos filmes é perseguido pelo protagonista e que move a narrativa – também se faz presente aqui, na forma do tridente do Rei Atlan, que você já deve imaginar que o herói vai tomar para si, sendo merecedor. E esses aspectos não soam como demérito, apenas uma constatação da proposta adotada pela direção. Sim, James Wan abraçou a missão.

O diferencial aqui está na maneira como a história é contada. É ai que entra o dedo do versátil diretor, que acumula em seu currículo longas de gêneros diferentes como Jogos Mortais (2004), Invocação do Mal (2013) e Velozes & Furiosos (2015), que agradaram suas respectivas audiências, o que deve acontecer aqui. Em seu primeiro filme de super-heróis, Wan constrói um universo dotado de personalidade própria, majestoso e visualmente incrível em seu ambiente marinho, mesmo que concebido com muitas doses de CGI, poucas vezes claudicantes. Além das inúmeras camadas visuais, o filme é dinâmico, com grandes cenas de ação. Destaque para uma sequência alucinante em que que Arthur e Mera enfrentam diversas ameaças sob a câmera frenética e perspicaz do diretor. Não é algo inédito, mas funciona.

Já fomos apresentados ao personagem em Liga da Justiça, porém, Aquaman se encarrega de dar background ao personagem. No entanto, temos aqui uma história de origem, que não perde muito tempo para explicar coisas desnecessárias. Wan e os roteiristas David Leslie e Will Beall utilizam um prólogo para contar a origem do personagem, e assim, estabelecer o senso familiar que vai ditar as motivações do longa, e como sua mãe, Atlanna (Nicole Kidman), se relaciona com seu pai. No entanto, as demais informações referentes ao passado do personagem vão sendo fornecidas durante o filme, em uma decisão criativa que não faz com que o passado precise ser contado essencialmente antes dos eventos atuais. Mas não há excessos nesse sentido, como vimos por exemplo em O Homem de Aço (2013), de Zack Snyder.

A IDENTIDADE DO HERÓI

Um ponto interessante a se destacar é a construção do personagem central. Fruto das decisões do estúdio, Arthur Curry ainda não é um herói plenamente desenvolvido, mesmo que uma reunião de heróis para conter uma ameaça em tese muito maior já tenha ocorrido em Liga da Justiça. Esse filme, assim como os demais que irão contar histórias de origem dos personagens da DC, em condições normais de temperatura e pressão, não deveriam ter existido antes da Liga, pois aqui há um herói que se assemelha mais a um anti-herói no começo da jornada, e chega ao final totalmente diferente.

Jason Momoa é fundamental para dar senso de originalidade ao seu Aquaman, dando ao personagem uma versão super poderosa de si mesmo. Dono de um grande carisma e um humor quase que involuntário, é irresistível não gostar de vê-lo em tela, seja nos momentos de brutalidade em que ele arremessa adversários longe, ou nas pausas que o filme dá para desenvolver sua relação com outros personagens.

Amber Heard também possui um papel fundamental  aqui. O filme poderia facilmente relegar a personagem a um papel secundário, mas felizmente, Mera tem papel fundamental em todos os atos, agindo com inteligência, furtividade e força, e não apenas como alguém que ajuda o personagem principal, ou, uma muleta. A mão pesa na relação entre Arthur e Mera, beirando ao brega, mas esse desajeito não atrapalha o resultado final. Porém, a heroína possui um subtexto interessante sobre o papel da mulher em sua sociedade, e apesar de uma beleza e visual que poderia ser mal explorada com um viés mais sensual, não está sexualizada.

BONS PERSONAGENS

Um dos pontos que chamam atenção em Aquaman é o seu elenco. Willem Dafoe consegue dar a Vulko, o mentor do herói, uma credibilidade e firmeza que somente um ator de sua envergadura é capaz. Afinal de contas, Dafoe é aquele tipo de ator que você investe atenção, tanto em Projeto Flórida  (2017) como um simples zelador de um motel nos arredores de Miami, ou como Vincent  Van Gogh em o Portal da Eternidade, quanto na pele do Duende Verde em Homem-Aranha (2002).

Para Nicole Kidman, é indispensável qualquer elogio. Sua presença, embora não haja tanto tempo em tela, é sempre bem-vinda e acolhedora; a questão familiar do filme tem base em sua personagem, Atlanna. Isso vai permear o longa, como uma espécie de subtema adjacente à jornada de Arthur Curry.

Os antagonistas também não decepcionam. Patrick Wilson transmite imponência ao rei Orm, embora o roteiro não o desenvolva tanto como poderia, bem como outro rei, Nereus, vivido por Dolph Lundgren. Para o meio-irmão do Rei dos Mares, linhas de diálogo ou um breve prólogo poderiam situar melhor sua posição na história e dar mais pano de fundo ao mesmo, embora seus planos sejam bem mais claros e plausíveis que a maioria dos vilões genéricos existentes. Há sentido na ameaça e ele se estabelece o longo do filme como um imponente antagonista do mundo marinho.

A ameaça do nosso mundo também possui bastante potencial, mas acaba sendo deixada de lado, o que faz sentido apenas se você ficar para a cena pós-créditos. O impronunciável Yahya Abdul-Mateen II dá ao Arraia Negra a oportunidade de vermos um vilão mais pé no chão, motivado por sentimentos como vingança e ganância. E em certo ponto, é possível compreender certas atitudes. É um vilão com enorme potencial, mas que o enredo coerentemente precisa ignorar em grande parte.

Aquaman é uma aventura dotada de personalidade e estilo visual único. Não é o filme mais inventivo do gênero, estruturalmente falando, mas oferece um olhar diferente para os super-heróis do DCEU. Uma pena que filmes como esse não tenham feito parte do pontapé inicial do estúdio nos cinemas, mas, assim como essa aventura solo, os vindouros Shazam!, Mulher-Maravilha 1984 e Flash podem representar um recomeço para esses personagens, investindo em um tom mais equilibrado com ação, aventura e humor.

AQUAMAN
3.5

RESUMO:

Em seu primeiro filme solo, Aquaman traz uma aventura visualmente incrível, que conta com o carisma de Jason Momoa e a direção equilibrada de James Wan.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...