Duas dicas imperdíveis para quem é fã de ficção científica!

Quando idealizamos sobre as mais incríveis ficções científicas, é comum que nossas imaginações preencham-se com viagens realistas ao espaço, naves espaciais espetaculares, formas de vida complexas e efeitos visuais fascinantes.

A evolução da tecnologia contribui não apenas para que as imagens tornem-se mais reais mas também para que a inventividade do ser humano vá mais longe. O pensar de mundos possíveis tem, cada vez mais, abordado proposições que antes situavam-se na categoria do impossível. Nomes como A Origem (2010), Gravidade (2013). Interestelar (2014) e A Chegada (2016) são algumas das obras a integrarem brilhantemente a lista das melhores do gênero.

Reconhecida a genialidade de muitas produções contemporâneas, também é importante admitir que existem algumas que passam despercebidas pelos olhos do público. Os motivos disso podem ser variados. Um baixo orçamento, uma trama não tão intricada e cheia de efeitos exorbitantes, entre outros.

Diante disso, dois títulos valem à pena ser mencionados: Coerência (Coherence, 2013) e O Universo no Olhar ( I Origins, 2014). Apesar de tratarem de temas diferentes, um elemento em comum pode ser afirmado: tanto um quanto o outro são filmes não tão conhecidos e ainda permanecem fora do radar.

A coerência da multiplicidade

Coerência, dirigido por James Ward Byrkit, inicia-se com a confraternização entre oito amigos que se reúnem para um jantar. Tal encontro ocorre ao mesmo tempo em que um cometa passa pela órbita da Terra. Fato este que é inclusive comentado pelos convidados que compartilham histórias de que tal fenômeno, quando antes manifestado, interferiu diretamente no funcionamento de certos aparelhos ou no comportamento de pessoas.

A conversa é interrompida quando um apagão acontece na vizinhança, exceto por uma única casa, a dois quarteirões dali. Dois dos amigos resolvem ir até o local, mas quando voltam, situações estranhas começam a acontecer. O filme é baseado em duas teorias físicas, a teoria do Multiverso e a teoria do Gato de Schrödinger.

Além da destreza na abordagem de teorias científicas, é essencial destacar que um dos pontos altos da obra são as reações dos indivíduos envolvidos naquele ambiente e como cada um lida com um cenário caótico. Estimula-se um debate sobre relações humanas e existenciais e como cada ação, por mais ínfima que seja, pode impactar significativamente no futuro.

Estima-se que Coerência foi realizado com um pouco mais de 50 mil dólares, sendo filmado em pouquíssimos dias. As técnicas não tão rebuscadas da produção, devido ao baixo orçamento, apenas contribuem para criar uma atmosfera de suspense/terror mais verossímil. A oscilação da câmera, personagens falando ao mesmo tempo e os diálogos são exemplos que ajudam a conceber um cenário de caos e tensão.

Ciência X Espiritualidade

O Universo no Olhar, roteirizado e dirigido por Mike Cahill, apresenta-nos a um biólogo molecular — Ian (Michael Pitt) — que estuda a evolução do olho humano para entender a origem da vida, em outras palavras, se existiu um “criador”. Em sua pesquisa, o cientista está sempre em busca de olhos para fotografar, até que conhece o olhar que mudará sua vida — Sofi (Astrid Bergès-Frisbey).

O filme é dividido em duas partes, separadas por um grande e trágico acontecimento. Pode-se dizer que o esplendor do longa encontra-se na dicotomia ciência X espiritualidade, sendo Ian a materialização da razão e Sofi, da fé.

Muitos podem afirmar que tais manifestações — ciência e religião — não se misturam em razão de grandes divergências. Mas O Universo no Olhar consegue alcançar uma forma dessas duas expressões convergirem e coexistirem. Assuntos como a força do amor — tese também levantado em Interestelar — e vidas passadas constituem a trama.

Para a segunda parte da produção, pulam-se sete anos, em que vemos o filho de Ian, diagnosticado com autismo, reagir peculiarmente a algumas imagens específicas. Visto isso, questiona-se se a criança não estaria reconhecendo cenas da vida de outra pessoa, o que introduz a possibilidade de reencarnação.

O Universo no Olhar obtém êxito ao suscitar a seguinte consideração: razão e fé são opostos ou complementares? Esses dois conceitos, julgados antagônicos por séculos, não seriam necessários um ao outro? O progresso da tecnologia e ciência contribuíram para que a forma de pensar imperante seja arrogante. Como se a existência dos “reais” precisasse da inteligência humana para legitimá-la. Não é porque não temos conhecimento sobre alguns eventos que eles não existem.

Quem não ama um clássico filme de ficção científica? Utilizando aqueles elementos que já conhecemos bem, o gênero tem contado com produções louváveis nos últimos anos, dignas de aclamações. Mas é importante também reconhecermos que algumas obras não precisam de orçamentos bilionários ou viagens espaciais para nos transportarem para outros mundos e nos motivarem a cogitar o impossível.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"