Uma família perversa em ‘O Clã’

Análise do filme O Clã, dirigido por Pablo Trapero. Contem spoilers.

No final da ditadura civil-militar na Argentina, no início dos anos 80, uma família age de uma maneira peculiar. O patriarca Arquimedes (Guilhermo Francella) com a ajuda de seus dois filhos Daniel e Alejandro (Peter Lanzani) e de mais alguns amigos, sequestraram várias pessoas nessa época. A esposa de Arquimedes e suas filhas não participavam diretamente dos crimes, mas sabiam o que se passava, afinal as vítimas ficavam presas no banheiro da casa! Mesmo depois dos familiares das vítimas pagarem o resgate, os sequestrados eram mortos, talvez o comportamento ainda mais estranho dessa família nada tradicional.

Por outro lado, longe das atividades ilícitas, Arquimedes se mostra um bom pai, ajuda a filha a fazer a lição de casa e está sempre presente no cotidiano de sua família. Aos olhos dos outros, não há nada de errado no funcionamento dessa família, tudo ocorre na mais perfeita harmonia, aparentemente, talvez tenha sido justamente isso que tenha contribuído para que se mantivessem nessa rotina criminosa por tanto tempo. Por mais que a família soubesse vagamente das tramas escusas do patriarca, se alienavam em uma posição de distanciamento, no sentido daquele ser o “negócio de papai”, não convém saber exatamente o que ele faz com as suas vítimas.

Pra se livrar de um possível sentimento de culpa, em alguns momentos Arquimedes dizia que estava sequestrando os filhos da elite argentina, pois eles haviam prejudicado o país. Uma racionalização bem fraca diante de sua barbárie tão implacável, como se fosse possível se justificar a partir de uma vingança.

Com o passar do tempo, Alejandro é incluído a participar dos planos dos sequestros. Arquimedes passa a depositar cada vez mais confiança nele, como se fosse seu herdeiro direto. Um dia, Alejandro não quis participar de um sequestro, justificando que se casaria em breve. Seu pai não gostou da ideia, não queria perder o seu braço direito. Um dos sequestros não saiu conforme o planejado, uma das vítimas tentou reagir e foi morta precipitadamente, com um tiro na cabeça em plena luz do dia, além de toda falta de discrição no momento da fuga. Arquimedes ficou furioso pela forma como as coisas se sucederam e culpou Alejandro por não ter participado do ato.


Em uma noite, eles sequestraram uma mulher, mas dessa vez a família não pagou o resgate, após mais de duas semanas no cativeiro, a polícia finalmente conseguiu prender Arquimedes e sua gangue. Alejandro, apesar de negar o envolvimento nos crimes, não conseguiu escapar da prisão, assim como ele, toda a família foi detida e a refém, que estava presa no porão da casa deles, foi resgatada.

Chama atenção a calma do patriarca, em nenhum momento demonstra desespero mesmo ao ver toda a sua família presa. A polícia mostrou as provas contundentes dos crimes de Arquimedes e seu pessoal, o tempo todo ele negou a participação e afirmou que era vítima de uma armação.

Ainda que tenha sido pressionado a confessar e a fazer um trato com a polícia para salvar sua família da acusação de cumplicidade, ele se recusou a admitir. Pediu para Alejandro lhe bater na tentativa de acusar a polícia por tortura e ter lhe forçar a confessar os crimes. No princípio, o primogênito não quis lhe agredir, mas de uma forma bem baixa e inescrupulosa, Arquimedes conseguiu lhe provocar. Afirmou que tudo que Alejandro havia conquistado era mérito dele, se havia conseguido uma boa carreira como jogador de rúgbi era graças ao esforço do patriarca. Ainda o chamou de covarde por tentar lavar as mão e não querer ajudar, disse que se caísse, toda a família iria com ele, não assumiria a responsabilidade sozinho. Depois dessa conversa, Alejandro espancou o pai com vários socos no rosto.

Logo em seguida, pouco antes de irem para o tribunal, o primogênito conseguiu se jogar do quinto andar, mas sobreviveu e foi condenado a prisão perpétua. Na cadeia, tentou se suicidar várias vezes mas nunca obteve êxito e pediu para sua namorada não lhe visitar mais e dar prosseguimento em sua vida. Morreu em 2008, aos 49 anos. Arquimedes também foi condenado à prisão perpétua, ainda preso, estudou direito e trabalhou como advogado até o final da vida. Maguila foi condenado a 12 anos, mas depois de 2 anos conseguiu escapar e seu paradeiro é desconhecido. O restante dos seus filhos foi liberado, outros ficaram presos por alguns anos, assim como sua esposa, solta dois anos depois. Um final trágico, mas coerente, principalmente aos protagonistas, Arquimedes e Alejandro.


UMA FAMÍLIA DA PESADA

O eixo principal do filme é a relação entre pai e filho, principalmente no pacto perverso estabelecido entre eles. Para a Psicanálise, a figura paterna, não necessariamente exercida por um pai biológico, é a principal responsável em transmitir a Lei, o que não se restringe somente ao ponto de vista jurídico, mas também a moral, a ética e um limite.

Na relação entre eles, é muito claro essa função exercida por Arquimedes. O grande problema é quando há uma transmissão de uma lei distorcida e abusiva por parte da figura paterna, possibilitando a formação psíquica de uma estrutura perversa ou de uma confusão de valores e conflitos, como no caso de Alejandro. Embora Arquimedes tivesse a intenção de manipulá-lo na cadeia para ser intencionalmente espancado pelo filho, Alejandro tomou como verdade o discurso de seu pai, como se de fato ele fosse insignificante sem o seu apoio, o que talvez tenha contribuído para uma espécie de esvaziamento psicológico e nas suas várias tentativas de suicídio.

Apesar de uma ótima direção realizada por Pablo Trapero e um roteiro bem desenvolvido, o filme se mostra um tanto repetitivo, principalmente no que se refere às cenas dos sequestros. O desfecho é contundente e ágil, Arquimedes se revela ainda mais perverso, mesmo diante da possibilidade da prisão de sua família, mantém uma conduta fria e indiferente.

O crítico Rubens Ewald Filho aponta a semelhança do estilo do filme com o de Martin Scorsese, alá Os Bons Companheiros, um dos maiores clássicos do diretor. De forma geral, o filme se mostra eficiente e cativante, principalmente por ser inspirado em fatos reais. Nos surpreende como uma família aparentemente tão harmoniosa é capaz de esconder e banalizar grandes crueldades.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.