Crítica | ‘Tinta Bruta’: um retrato sensível da vida de um LGBT no Brasil

Em 2017, foi registrado o maior número de casos de morte por homofobia no Brasil, um aumento de 30% em relação ao ano anterior, reconhecendo o país como um dos que mais assassina homossexuais no mundo.  Constantemente, LGBTs são alvos de discriminação, sofrendo tanto agressões físicas como verbais. Retratando com muita sensibilidade a vida de um jovem gay que vive em Porto Alegre, Marcio Reolon e Filipe Matzembacher (Beira-mar, 2015) dão um passo gigante dentro do cinema queer com seu mais novo filme Tinta Bruta.

Interpretado pelo ótimo Shico Menegat, Pedro é mais um desses jovens. Alvo de perseguições, muitas vezes tem sua vida interferida pelo preconceito recorrente na sociedade brasileira. Tímido, solitário e um tanto antissocial, o garoto mora em um apartamento velho na cidade de Porto Alegre com até então a única pessoa próxima dele, sua irmã Luiza (Guega Peixoto).

Nos minutos iniciais, conhecemos o protagonista se preparando para entrar no tribunal. Recentemente expulso da faculdade de Química, Pedro enfrenta a possibilidade de ser preso após uma atitude que só descobrimos tardiamente, assim como aos poucos conhecemos a personalidade daquele garoto recluso que mal consegue se expressar, a não ser que esteja coberto de tinta, no quarto escuro, dançando para estranhos na frente de sua webcam.

Reolon e Matzembacher têm muito a dizer mesmo quando não há nada sendo dito em tela. Em uma direção lenta, porém extremamente adequada para o personagem do qual se trata, conhecemos toda a dor e angústia do protagonista. Estamos inseridos no Brasil como ele é, onde 70% dos casos de homofobia saem impunes, na Porto Alegre escura e deserta que todos parecem ter a possibilidade de fugir, menos Pedro.

Os diretores também tomam o cuidado ao retratar a crueldade decorrente da homofobia da forma mais sútil possível: a violência vem de todos os lados, não se limitando ao físico e ao verbal; ela também está em pequenos golpes, nos julgamentos incoerentes, nas injustiças e até nas silhuetas escuras que avistam tudo que acontece pela janela por pura curiosidade, mas sem nenhuma intenção de ajudar. Nisso, começamos a acompanhar o dia a dia do protagonista com uma tensão sempre presente, mesmo que não haja motivo aparente para preocupação.

Apesar das aparências iniciais, temos um personagem forte, cada vez mais seguro de si que dança músicas eletrizantes presentes na fantástica trilha sonora do filme. Toda a energia dentro do GarotoNeon – codinome usado para suas performances – está sempre visível por meio das cores estonteantes e sempre muito bem equilibradas por meio da ótima fotografia de Glauco Firpo. Progressivamente, a atmosfera presente no quarto do personagem começa a tomar conta dele aonde quer que esteja.

Pedro não é apenas a representação de como é ser gay vivendo no Brasil; ele é a solidão, o isolamento, o abandono. Quando a irmã se muda para Salvador por causa do emprego e o único garoto que fazia Pedro brilhar como a tinta também vai para longe, o GarotoNeon assume sua existência quase que em um grito de liberdade em um final ecoante.

Vencedor do festival do Rio deste ano e ganhador de diversos prêmios ao redor do mundo, Tinta Bruta é tristemente a realidade de uma parcela da população LGBT trazida ao cinema através de uma sensibilidade extraordinária.

TINTA BRUTA
4

RESUMO:

Por meio de um retrato sensível de um jovem gay que mora em Porto Alegre, Tinta Bruta também toca em assuntos como o abandono, a solidão, a pornografia e a violência.

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Rafaella Rosado

Jornalista em formação e apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível ver todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é uma forma de viajar e conhecer outras realidades sem sair do lugar.