Crítica | ‘O Beijo no Asfalto’ é uma homenagem encantadora

A peça O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, já teve duas versões cinematográficas; a primeira em 1964, e a segunda, em 1981. Mas nenhuma das duas conseguiu trazer a famosa obra para o cinema com o mesmo êxito que Murilo Benício, estreante na direção, obteve. Com Fernanda Montenegro, Débora Falabella, Lázaro Ramos e Otávio Muller no elenco, essa história adquire uma nova forma de ser contada de maneira excepcional.

Inspirada no acontecimento real de um rapaz atropelado por um ônibus antigo, que ao se tornar convicto de sua morte pede um beijo a uma jovem que tentava socorrê-lo, a obra de Nelson Rodrigues sofre algumas modificações. Escrita no ano de 1961, o dramaturgo troca a moça da história por Arandir (no filme, interpretado por Lázaro Ramos), um jovem recém-casado de coração puro e fiel.

Logo, pouco importa se o jovem morreu, as causas do acidente, ou qualquer outro fator em frente ao choque de ter dois homens se beijando às cinco da tarde, horário de pico, no meio da cidade. Um ato simples, mas que devido ao sensacionalismo do jornal repercute vastamente e atormenta a vida do rapaz e de sua família, trazendo uma análise da perversão humana que interioriza os personagens da obra.

Benício, ao escolher não adaptar a peça de maneira convencional para o cinema, transita o filme por três lugares: a mesa de leitura, um palco de teatro, e uma obra cinematográfica. Uma ideia excelente com uma execução ainda mais admirável. Dessa maneira, o espectador fica lado a lado dos atores durante o processo de produção do filme, enquanto em cortes ágeis mostra os atores já em cena, sempre nos lembrando do cenário de set de filmagens que, ao mesmo tempo, não nos deixa esquecer do palco.

Augusto Madeira, Luiza Tiso, Amir Haddad e Stênio Garcia também compõe o elenco de peso. Na mesa de leitura do roteiro, acompanhamos os atores (todos excelentes, por sinal) que conversam sobre seus personagens e discutem a obra. Enquanto isso, o diretor olha e acompanha de longe, os deixando totalmente à vontade. É incrível notar a rapidez que todo o elenco entra em seus papéis, assim como o engajamento entre eles à medida que trocam ideias e se ajudam, transformando uma mesa de trabalho em uma reunião de amigos que se conhecem há anos.

Já que qualquer mudança traria outro significado, nenhuma palavra do texto original de Rodrigues foi alterada, enaltecendo ainda mais a estrutura narrativa. Apesar de ser o primeiro trabalho na direção do também ator, Benício apresenta um resultado que transparece anos de experiência. Ainda, investir na fotografia em preto e branco de Walter Carvalho e na iluminação hábil que oferece um tom a mais de mistério nos personagens serviu como uma baita homenagem, nos remetendo ao cinema dos velhos tempos.

Mesmo quase 60 anos após a escrita da peça, O Beijo no Asfalto continua tão atual quanto antigamente, e trazê-la ao cinema de forma tão apaixonante foi a melhor escolha que o diretor poderia ter para seu primeiro longa-metragem. O elenco relembra que em 2015, o fato de ter duas velhinhas se beijando na novela era algo mais absurdo do que os inúmeros assassinatos, casos de adultério ou qualquer outra atrocidade; e por mais que hoje não seja nenhum choque, ainda há frentes que se importam muito mais com um ato de amor do que qualquer perversidade.

O BEIJO NO ASFALTO
4

RESUMO:

Em uma homenagem aos processos enfrentados antes do produto final, ao cinema e ao próprio Nelson Rodrigues, Murílio Benício traz um filme que reflete a dedicação e o carinho a essas duas formas de arte fazendo um belíssimo uso da metalinguagem.

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Rafaella Rosado

Jornalista em formação e apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível ver todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é uma forma de viajar e conhecer outras realidades sem sair do lugar.