Crítica | ‘Cam’: fetiche, violência, tecnologia e o vazio dos relacionamentos contemporâneos. 

Entrando para o catálogo de filmes da Netflix, temos em Cam, uma produção peculiar que entrega um misto de suspense com tons de terror e que aposta na abordagem de um assunto que divide opiniões e causa também bastante impacto em algumas camadas da Sociedade. Inclusive quebrando alguns tabus, gerando desconforto em algumas pessoas e animosidade em outras.

O longa dirigido por Daniel Golhaber, que também assina o roteiro, juntamente com Isa Mazzei e Isabelle Link-Levy, narra a história de Alice (Madeline Brewer), uma jovem que ganha a vida como camgirl, garotas que se exibem na web cam por dinheiro. Contudo, apesar do que pode parecer, fazendo uma rápida associação a este tipo de trabalho com o da prostituição, as camgirls não são necessariamente prostitutas, mas sim, meninas que realizam uma espécie de performance ao vivo por meio de vídeo para entreter seus clientes virtuais.

Logo no início do filme, conhecemos rapidamente a realidade da protagonista, bem como a natureza de seu trabalho. Graças ao mérito da direção atenciosa, já é possível compreender a essência que compõe a obra. Nas cenas inicias, Alice está atuando como seu alter ego Lola, uma personalidade da internet com uma quantidade significativa de fãs.

Na ânsia por aumentar seu número de seguidores e consequentemente, os valores de sua conta bancária, Lola, atendendo aos pedidos cada vez mais sádicos e exploratórios de seus clientes, Lola começa a realizar uma simulação de suicídio, mostrando, mesmo que de maneira metafórica, como esse consumismo virtual é doente, inumano e que vai gradualmente, consumindo seus usuários. Algo fácil de relacionar à cultura Youtuber que vemos hoje na internet, cada vez mais dispostos a realizar os feitos mais insanos em busca de seguidores.

Voltando a Cam, nesse mundo regado a fetiche, vemos a competição que existe na realidade das camgirls, sempre realizando feitos cada vez mais ousados para subir no ranking das performances e superar a concorrência. É neste contexto que o expectador é capaz de criar empatia com a personagem, pois mesmo conhecendo a maneira muitas vezes fútil que ela vive, acompanhamos sua trajetória de superação, quando se arrisca em uma perigosa brincadeira sexual (inclusive ameaçando sequelas permanentes em seu corpo) para finalmente subir os tão desejados pontos no site pornográfico, aproximando-se cada vez mais de suas rivais.

Assim que a empatia é estabelecida, acontece o primeiro ponto de virada na vida de Alice, quando ela, ao tentar se conectar em sua conta no site pornográfico, percebe que a mesma foi hackeada e outra pessoa, exatamente igual a ela, está realizando suas performances e, pior ainda, está fazendo mais sucesso do que ela, ganhando mais fãs, pontos e também obtendo para si seu precioso dinheiro.

A partir daí o filme adota uma narrativa bastante caótica, com uma protagonista que vai aos poucos perdendo o controle, uma vez que a parte mais significativa de sua vida não mais está sob seu poder.

Pode-se questionar onde está o fator de terror do filme e é aí que os conceitos provenientes deste gênero se tornam evidentes para os olhos mais atentos. Nesse filme, não veremos assassinos, fantasmas, monstros ou quaisquer entidades sobrenaturais, porém, ele conta com um dos mais poderosos elementos do Terror/Horror, que é a existência de algo que simplesmente não pode ser explicado.

O interessante sobre a temática do filme é a forma como ele conta essa história, abordando temas bastante relevantes, especialmente no que se toca a palavras como abuso, exploração sexual e até onde uma pessoa é capaz de ir em busca de status, sem mencionar a dificuldade que os indivíduos tem em desenvolver laços verdadeiros, o que resulta em relações superficiais e vazias.

Outros tema abordado é a dificuldade da vida de uma camgirl, uma vez que estas meninas são taxadas por uma parcela das pessoas como sendo mulheres fúteis, mimadas e de vida fácil. Contudo, fica claro que quando se penetra nessa superficialidade, vemos como essas meninas são, antes de tudo, pessoas normais, com defeitos, qualidades, anseios e medos. Dessa forma, novos questionamentos são levantados, especialmente no que se trata da objetivação sexual dessas meninas. Não é por que elas se exibem nuas ou em situações sexuais de frente para uma câmera, que não passam de objetos para satisfazer quem quer que as deseje.

O longa se mantém imparcial quanto a essa profissão. Não toma partidos, a profissão de camgirl apenas está ali e quando a protagonista é censurada por algo, não é pela profissão em si, mas sim, por atitudes negativas que ela desempenha em relação às pessoas que a amam fora do universo da internet. Outro elemento presente no enredo é o perigo que existe nesse cenário, uma vez que uma camgirl pode ser assistida por qualquer tipo de pessoa e muitas delas não necessariamente são indivíduos sensatos. Alguns são, inclusive, até obsessivos e não poucas vezes, perigosos.

É em filmes como este que se percebe o diferencial de projetos cuja direção é atenta e bastante inspirada. A narrativa transita de forma inteligente entre planos que acontecem nas telas de computador e entre os planos convencionais. A direção de fotografia é bastante colorida quando mostra a personificação de Lola executando suas performances no cenário construído para entreter os fãs, mas quando ela precisa viver no mundo real, as cenas contém poucas cores. A direção de arte também colabora e isso fica evidente ao vermos como a casa de Alice é desorganizada e com móveis e objetos dentro de caixas em aposentos mal iluminados.

Mas, o mais interessante é um plano sequência que acontece na festa de aniversário do irmão da protagonista. Esta é, sem dúvidas, uma das melhores cenas do filme, uma vez que sem nenhum corte transmite vários pontos de virada e sentimentos diversos. Graças à técnica, o expectador é capaz de sentir de forma quase palpável o constrangimento da personagem.

Outro fator de relevância de Cam é Madeline Brewer. Logo nos primeiros momentos do filme, vemos a personagem com dificuldades de expressão, o que poderia apontar uma falha na interpretação da atriz, porém, quando vemos a nova Lola em ação e fica nítido o contraste entre as duas versões de si mesma, percebemos o quanto Brewer é talentosa e o quanto ela estava se entregou para a personagem.

Por fim, chegamos ao desfecho do enredo e apesar de este ser bastante emocionante, ele não necessariamente responde a todos os mistérios levantados durante a história. O filme nos deixa com a pulga atrás da orelha, mas é concluído com originalidade e isso pode fazer com o público compreenda o que o realizador tinha em mente.

O final do filme também abre margem para interpretações por parte do expectador, ou seja, a este é permitido que entenda o filme como quiser ou, que o compreenda a partir de sua própria vivência, que lhe ajudará a estabelecer suas próprias teorias. Cam é um suspense psicológico que envolve fetiche, violência, tecnologia e o vazio que existe entre os relacionamentos contemporâneos.

CAM
4

RESUMO:

Cam conta com uma ótima atuação de Madeline Brewer e aborda múltiplos temas como  fetiche, violência, tecnologia e o vazio que existe entre os relacionamentos contemporâneos.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...