Crítica | O Grande Circo Místico

Baseado num poema de 47 versos de Jorge Lima, O Grande Circo Místico conta a história de cinco gerações (começando em 1910 até o século XXI) da família Knieps, que é dona do Grande Circo Místico. O longa é dirigido por Carlos Diegues (“Ganga Zumba”; “Xica da Silva”; “Orfeu”), que é um nome consagrado na história do cinema brasileiro. Bastante premiado tanto dentro quanto fora do país, foi um dos fundadores do Cinema Novo, já integrou o júri do Festival de Cannes, enfim, Cacá Diegues tem uma vasta carreira.

Nesse filme, ele faz muito uso da câmera lenta para ressaltar ou até mesmo apreciar certos momentos. Quando a cena representa os espetáculos do circo, ele a movimenta muito. Além disso, o diretor consegue trabalhar bem com a passagem de tempo. Vale a pena ressaltar um trecho da terceira geração, no qual ele mostra uma passagem de nove meses.

Cacá também tem uma ótima habilidade de mostrar que tem algo de errado ou algo estranho acontecendo sem que os personagens digam, às vezes, basta apenas um olhar. É um recurso muito bem utilizado até certo ponto. Um dos maiores problemas nesse trabalho é que parece que o diretor não sabia bem o momento para encerrar uma cena. Algumas sequências são extremamente longas. Isso incomoda bastante.

O roteiro, escrito por George Moura em parceria com Carlos Diegues, é a pior coisa do filme. Primeiro, ele é repetitivo, dividido pelas gerações e situações bem semelhantes vão acontecendo com o passar da história, o que é ruim, pois dá a sensação de que aquilo não está evoluindo.

Em segundo lugar, o roteiro é de uma tremenda falta de respeito com as personagens femininas. Elas são mal desenvolvidas; sofrem constantes abusos por parte dos personagens masculinos, o que não acrescenta em nada à história; passam por situações humilhantes; suas motivações não são bem apresentadas e algumas acabam sendo descartadas pelo próprio roteiro.

Em terceiro lugar, a história não investe tanto no mágico, na ilusão. A magia do circo desaparece rapidamente do filme sem nenhuma explicação. Até que os roteiristas tentam entregar esse aspecto na última cena, que é tão mal executada e tão sem sentido, que chega a ser engraçada. É uma cena ridícula. O único elemento místico do circo é o personagem Celaví, que será melhor discutido a seguir.

O único pedaço que consegue se salvar nesse roteiro é a primeira geração. Nela, bons personagens são apresentados com destaque para a Beatriz; há a presença do misticismo no circo; há também um certo lirismo ao longo de todo o segmento; e a figura do cometa, que é bem interessante e poderia ter sido melhor aproveitada.

O elenco é enorme. Rafael Lozano, Antônio Fagundes, Catherine Mouchet, Vincent Cassel, Flora Diegues, Juliano Cazarré, entre muitos outros. No entanto, alguns membros desse grupo chamam atenção. Começando pelo Jesuíta Barbosa, que interpreta o mestre de cerimônias Celaví. Como já foi dito, ele é a única figura mística do circo e por um simples motivo:, Celaví não envelhece ao longo de uma história de 100 anos. Os eventos, de certa forma, são apresentados a partir dos seus olhos. É um personagem muito importante, mas, ao fim do filme, fica a vontade de ter visto mais dele, não em tempo de duração, mas em suas ações. A atuação de Jesuíta é bem satisfatória. Ele consegue passar uma sensação de encantamento com o que ocorre no circo.

Outro ponto forte é a personagem Beatriz, interpretada por Bruna Linzmeyer (1ª geração). Além de ter um bom desenvolvimento, sua atuação é ótima. Até mesmo na maneira como ela fala é possível perceber um certo encantamento e a segurança na atriz para realizar aquele trabalho. Porém, a grande decepção fica por conta da personagem Margareth, vivida pela Mariana Ximenes. Não fica claro quais são as suas motivações ou o porquê de ela tomar certas atitudes. É uma personagem confusa, muito mal desenvolvida e é a que mais sofre com o roteiro machista. Não dá para entender o que levou a atriz a aceitar esse papel.

Se o filme apresenta sérios problemas em relação ao roteiro, visualmente falando, ele é muito bonito. A direção de arte é eficiente no que diz respeito a recriação de determinadas épocas. É interessante perceber a deterioração do circo com o passar do tempo. No entanto, o filme poderia ter se arriscado mais na sua estética.

Cinco gerações diferentes são apresentadas e, com exceção da primeira geração, parece que todas têm um único estilo. Teria sido positivo ver um tipo de estética específico para cada fase. Os figurinos são lindos e bem coloridos. Vale a pena ressaltar o figurino e o penteado do personagem Celaví, em quem fica melhor marcado as mudanças das gerações.

Representante do Brasil no Oscar 2019O Grande Circo Místico é uma decepção. Tem algumas boas atuações, mas sofre com um roteiro que não apresenta bons personagens, não tem uma história cativante e que perde a oportunidade de trabalhar com todo o misticismo do circo e a relação desse com a família proprietária.

O GRANDE CIRCO MÍSTICO
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RESUMO:

O Grande Circo Místico conta com o forte nome de Carlos Diegues e um grande elenco, mas não consegue entregar muito principalmente por causa do seu roteiro bastante problemático.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.