Crítica | ‘Mais Uma Chance’: uma bela dramédia da Netflix

Rachel (Kathryn Hahn) e Richard (Paul Giamatti) são um casal com mais de 40 anos de idade e ainda não têm um filho. Depois de inúmeras tentativas de adoção e fertilização in vitro, surge a jovem Sadie (Kayli Carter), a filha de um casal de amigos, que aceita ser doadora de óvulos, dando mais uma chance ao casal de protagonistas.

O filme é dirigido e escrito por Tamara Jenkins. Em relação à sua direção, ela consegue apresentar um trabalho simples, mas que consegue transmitir muito. Na maioria das cenas, não há muito movimento, muitos cortes ou mudanças de planos. Isso abre espaço para o desenvolvimento do trabalho dos próprios atores. Geralmente, a câmera também é posicionada um pouco distante dos atores e em locais estratégicos, passando a ideia de que estaríamos espionando a vida particular deles.

Principalmente nas cenas nas clínicas/consultórios, a diretora também começa filmando o casal principal de maneira bem fechada e, aos poucos, vai afastando a câmera, apresentando as pessoas ao redor. Esse recurso consegue abordar de maneira simples um dos temas do filme, a dificuldade de muitos casais para conseguirem ter um filho. Com a entrada da Sadie, a direção muda de estilo. A câmera passa a se movimentar mais e começam a ocorrer inserções com as gravações que a personagem fazia com o celular. Quando ela sai de cena, o filme retoma o estilo inicial. É um recurso interessante e muito bem utilizado.

Uma das coisas que mais chamam a atenção são os diálogos sinceros, que contribuem bastante para aproximar os personagens do público. O roteiro de Tamara Jenkins tem como base desde a decisão de fazer a fertilização in vitro, ou adotar, passando por todo o processo nos dois casos, até as consequências, porém, esses momentos podem ser um pouco repetitivos. Além disso, Jenkins consegue trabalhar muito bem a questão da crise no casamento, devido à pressão e a angústia que gira ao redor deles.

No que diz respeito aos temas do filme, Jenkins consegue acertar. O problema do roteiro é quando ele tenta apresentar outros aspectos da vida daqueles personagens, como a família de Sadie. Molly Shannon e o John Carroll Lynch, pais da jovem, são mal aproveitados. Ademais, esses aspectos externos acabam afetando o ritmo do filme e tornando-o maior do que deveria. No entanto, Rachel e Richard são bem desenvolvidos.

O roteiro consegue trabalhar de maneira satisfatória o relacionamento entre os dois e a entrada da Sadie agrega bastante às principais características do casal. A maneira como o filme transita entre a comédia e o drama não é forçada. Às vezes basta um curto comentário para gerar um certo desconforto e é nesses rápidos momentos que o filme adquire um tom cômico. Vale ressaltar a ótima atuação de Paul Giamatti, que foi essencial para essa transição.

As atuações nesse filme são ótimas. Kathryn Hahn é a que chama mais atenção. Sua personagem é ansiosa e, em alguns momentos, parece que vai surtar, pois se encontra diante de uma situação complicada que não parece dar certo. Ela consegue colocar para fora todos os seus sentimentos. É a sua melhor atuação.

Paul Giamatti, pelo contrário, interioriza todos os seus sentimentos e consegue se sair muito bem. Por mais que ele também fique atordoado por não conseguir ter um filho com a esposa, o personagem tenta se manter calmo, até mesmo, nas cenas de discussões ou brigas.

 

A química entre os dois funciona muito bem e é um dos pontos mais fortes do filme. Kayli Carter, como já foi dito, se encaixa bem no núcleo do casal, mas sua personagem de maneira individual não é tão bem desenvolvida.

Mais Uma Chance sofre com o seu ritmo que, em determinados momentos, parece ser bem lento e com o seu tempo de duração, que poderia ser menor. Porém , é outro ótimo filme distribuído pela Netflix e conta com um ótimo trabalho da diretora Tamara Jenkins, que consegue extrair o melhor do seu elenco. Com um bom roteiro, que trabalha com o tema do desafio de um casal para conseguir um filho, o longa transita de maneira suave pela comédia e pelo drama, além de contar com excelentes atuações de Kathryn Hahn e Paul Giamatti.

MAIS UMA CHANCE | PRIVATE LIFE
4

RESUMO:

Com excelentes atuações e uma boa direção, Mais Uma Chance surpreende pela maneira como a história é desenvolvida, passando suavemente pelos gêneros da comédia e do drama.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.