Dica de Terror | ‘Mandy’: um terror experimental insano e surpreendente

Nicolas Cage é um ator veterano, cuja carreira é uma das mais controversas em Hollywood. Se em alguns filmes como Cidade dos Anjos (1998), 60 Segundos (2000), entre outros, ele é extremamente aclamado por legiões fiéis de fãs, o mesmo não se pode dizer em relação a outros filmes. Na verdade, muitos dizem o contrário, definindo filmes como Motoqueiro Fantasma (2007), O Sacrifício (2006) e O Apocalipse (2014), entre outros, como verdadeiros e completos desastres. Mandy

Em meio à essa jornada caótica da carreira de Cage, fica difícil prever o que o ator irá entregar em suas obras mais recentes, se irá proporcionar momentos bregas e canastrões ou se irá presentear o público com verdadeiras obras de arte. Nesse quesito, Mandy é definitivamente a segunda opção.

Vez ou outra, assistimos a algum filme que nos surpreende por diversos tipos de fatores. Seja por seu roteiro bem escrito, com personagens bem desenvolvidos e um compilado inteligente de ferramentas narrativas que fazem arrancar suspiros dos expectadores, ou seja por uma direção inovadora, com técnicas de filmagem ousadas e experimentais ou mesmo por uma história que aborde temas relevantes para a sociedade de uma forma intensa e impactante. Pois Mandy, sem dúvida, é um desses filmes, pois se ele proporciona ao público algo, esse algo é surpreender.


Antes de abordar a execução da obra realizada pelo brilhante Panos Cosmatos, é preciso que se comente sobre o roteiro ousado desse filme. Mandy aposta em uma história que vai na contramão da maioria das tramas convencionais. O primeiro ato é extremamente lento, apostando em um estudo de personagem extremamente contemplativo e, como tudo o mais, extremamente esquisito, o que pode incomodar o público menos tolerante, acostumado aos intensos thrillers de ação contemporâneos. Até o título do filme não é exibido no início, surgindo inesperadamente já no ponto de virada do segundo ato. A partir daí, segue uma sucessão de eventos cada um mais insano do que o outro.

A premissa é bastante simples. Red Miller (Cage) é um lenhador que vive recluso em uma região montanhosa e repleta de mata, juntamente com sua namorada, Mandy (Andrea Riseborough), uma peculiar artista viciada em romances de fantasia. Os problemas do casal começam quando se esbarram com um peculiar grupo de pessoas membros de um sinistro culto. O excêntrico líder do bando, Jeremiah (Linus Roache) ao se deparar com Mandy, se interessa obsessivamente por ela. Para possuí-la, Jeremiah e seus asseclas realizam um ritual para invocar a “Tromba de Abrachas”, um estranho grupo de acólitos motoqueiros brutais, sinistros e sobrenaturais. A seguir, segue-se uma série de eventos que fazem a maior parte das pessoas ficarem de queixo caído.

Se Cage tem o hábito de imortalizar negativamente seus personagens com atuações extremamente exageradas e fora de tom, nesse filme, seus excessos caem como uma luva. Mesmo os momentos em que ele exagera, o contexto do enredo se encaixa perfeitamente. Uma viagem de LCD com muita violência, bizarrice, cores e locações esquisitas são algumas das caraterísticas de Mandy.


A direção de fotografia é um assunto a se tratar à parte. A paleta de cores é estranha e com cores intensas. Em alguns momentos, as cenas são amareladas e desbotadas e em outros, especialmente nos momentos onde há bastante ação, armas cromadas e muito sangue, vemos tons de rosa, do amarelo do fogo e, claro, do vermelho do sangue. Aquém disso, o filme possui uma aparência intencional aparência de filme independente. Principalmente nas cenas mais escuras, mas não exclusivamente nelas, existe muito granulado, dando a impressão de vídeo antigo. Toda a Mise en scène remete à filmes de terror dos anos 1970 e 1980, mas ao mesmo tempo faz referências à Mad Max, de George Miller e às obras de Dario Argento.

Falar que Mandy é um filme peculiar é chover no molhado. O longa trata-se de algo muito mais profundo. É um ensaio experimental de sensações brutais, sob um prisma estilístico, visceral e dotado de uma poética excêntrica e excepcional.
Quando ao elenco, Nicolas Cage não é o único ponto forte do longa, uma vez que todos os atores estão extremamente bem engajados no projeto. Percebe-se um trabalho minucioso de preparação de elenco. Os destaques obviamente vão para os personagens que tem mais tempo de tela, como já foi mencionado sobre o protagonista vivido por Cage, mas também por sua companheira, ao notar a forma sensível que Riseborough trata sua Mandy, com um olhar misterioso, mas ao mesmo tempo intenso, penetrante, chegando ao ponto de o expectador não conseguir desviar os olhos da tela quando ela está em foco.

Claro que, para que haja um bom protagonismo, é preciso que exista um antagonismo à altura e nisso, o Jeremiah de Roache não deixa a desejar, entregando cenas com uma interpretação precisa. O vilão, que parece sempre estar sob efeito de algum entorpecente, possui uma fala lenta na maioria das vezes, mas que repentinamente estoura em explosões de agressividade. Mais importante do que isso, é interessante ressaltar a presença que ele tem em cena. Sempre que surge, há uma aura de ameaça, de perigo iminente, mesmo quando ele não abre a boca, pois seu personagem é obviamente insano e não é regido pelas leis dos homens.


Seguidor assíduo das doutrinas sinistras de seu credo, vemos aqui um homem que é movido por seus próprios desejos e seu orgulho, sem qualquer pudor ou restrições sociais. Ele faz o que sente vontade, sem sentir empatia por outros seres humanos, como se as demais pessoas fossem meros objetos existentes para o seu bel prazer. E, quando esses insetos o desagradam, sua reação imediata é a ira sem precedentes, a ponto de realizar as fantasias mais cruéis possíveis, doa a quem doer. Essa falta de empatia e pudores é o que o torna tão perigoso, além, é claro, de seus recursos sinistros, uma vez que além de estar sempre cercado de pessoas completamente devotas às suas vontades — completamente mesmo, percebe-se inclusive, que esses cultistas mal demonstram apreço por suas vidas ou integridade física quando em relação às ordens de seu mestre — ele também pode convocar o bando diabólico da Tromba dos Abrachas.

O cenário de Mandy é rico de detalhes que compõem uma mitologia simples, mas sinistra, e isso, sem dúvidas, é um dos maiores trunfos da obra. Muitos dos filmes cults adquiriam esse status muitos anos após seu lançamento, sendo que a maioria foi extremamente criticada negativamente quando surgiram, mas que, conforme o tempo foi passando, o público foi capaz de digerir e compreender seu valor. Mandy, em contrapartida, é um filme cult desde sempre e com certeza ainda será cultuado no futuro.


Filme estiloso de terror, experimental, com ar de thriller de ação e contando com uma direção primorosa, produção extremamente bem acertada e atuações lindas de se ver, Mandy é sem dúvidas, uma obra a ser degustada e revisitada. Não é um longa para toda a família e faz muito marmanjo revirar o estômago, com cenas violentas e bastante gore para nenhum fã de terror pôr defeito.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...