É impossível ser feliz sozinho: a autodestruição em ‘Na Natureza Selvagem’

Análise do filme ‘Na Natureza Selvagem’ (Sean Penn, 2007). Contem spoilers.

Christopher McCandless (Emile Hirsch) acabou de se formar na faculdade, extremamente inteligente e bom aluno, foi aceito em Harvard para cursar uma segunda graduação. Apesar dos seus pais estarem dispostos a pagar os seus estudos e lhe darem um carro novo, o jovem rebelde recusa as oportunidades e questiona os valores burgueses do capitalismo.

Os pais ficam pasmos com a reação radical de Christopher e não o compreendem, para eles estavam cumprindo da melhor forma possível o papel de bons pais. O rapaz finge ir para a faculdade, mas pouco tempo depois se muda e decide viajar de carona pelos Estados Unidos a fora e começa a pôr em prática seu plano em viver na natureza, sem depender de dinheiro ou qualquer pessoa.

Durante o desenrolar de Na Natureza Selvagem, é mostrada a relação dos pais do protagonista e a respectiva carreira profissional deles. Seu pai é um engenheiro na Nasa, desenvolveu um sistema de radares via satélite. Posteriormente, junto com a esposa, abriram uma consultoria. Conforme prosperavam, se tornavam mais ambiciosos e obcecados pelo dinheiro. Passado algum tempo, cogitaram em se divorciar, mas isto nunca aconteceu, permaneceram juntos brigando e desgastando inclusive Christopher e sua irmã, expondo-os à várias cenas de violência doméstica.

Em sua viagem sem rumo, o protagonista se deparou com as mais belas paisagens naturais e diversas experiências, conheceu vários lugares, chegou até a aprender a dirigir um trator. Seu destino final seria o Alasca, um dos ambientes mais inóspitos e afastados da civilização.

No decorrer do filme, Chris conversa com as pessoas que passam pelo seu caminho e expõe seu ponto de vista incisivo a respeito do funcionamento da sociedade e sobre o individualismo. Vale notar o pseudônimo pelo qual passou a usar: Alexander Supertramp, este sobrenome pode ser traduzido como “super vagabundo”, coerente com o seu propósito em não ser produtivo, com um emprego banal e uma vida medíocre regulada pela grana.

Apesar dos momentos agradáveis, nem tudo foram flores para o “super vagabundo”, que na viagem visitou também amigos e conhecidos dos seus pais, e descobriu a verdadeira história de como se conheceram e se envolveram. Quando se conheceram, seu pai era casado com outra mulher, mesmo depois de seu nascimento, seu pai teve um outro filho com a sua primeira esposa, tornando ele e a irmã filhos bastardos, frutos de um caso extraconjugal. A mãe deles, diante da vergonha, foi conivente com as mentiras e se resignou.

A revelação desses fatos conspiraram ainda mais para o sentimento de revolta de Chris em relação a sua família, valores morais e sociais. Pouco a pouco, o “super vagabundo” se coloca em uma posição cada vez mais marginalizada, chega na fronteira dos Estados Unidos com o México sem qualquer identificação ou tostão furado, apenas com um caiaque e sua mochila. Sua família está ainda mais distante dele sem nenhuma notícia e colocaram o polícia atrás dele em busca de seu paradeiro.

Depois de ser barrado na fronteira por estar sem documento, ele faz uma nova carteira de identidade com o seu pseudônimo. Em uma de suas viagens clandestinas é pego por um dos seguranças que lhe dá uma surra e o joga no meio da ferrovia. Em seu objetivo incessante em alcançar o Alasca, contraditoriamente, o errante protagonista se submeteu a trabalhar em um Burger King!

Após chegar aonde queria, Chris se deparou com as dificuldades da sobrevivência. Caçar já não era fácil, mais complicado ainda era salvar a carcaça do alce do processo de decomposição, em pouco tempo o animal já estava tomado pelas larvas, o que se mostrou um enorme desperdício e uma culpa terrível nele. Mas, próximo do final do filme, ele foi percebendo as dificuldades em se viver em um lugar tão isolado e inóspito.


Um dia, Christopher estava com muita fome, não encontrava animais para caçar e decidiu se alimentar de plantas e raízes, confundiu uma planta comestível com uma venenosa o que se mostrou absolutamente fatal. Durante dias, ele agonizou com a intoxicação por estar longe do contato humano e morreu dentro de seu ônibus mágico. Foi encontrado duas semanas depois por um grupo de caçadores.

O caminho da autodestruição

Em um primeiro momento é fácil se encantar com a proposta de Christopher, em cuspir na sociedade, no capitalismo e nos valores burgueses. Não se pode omitir toda a dificuldade do rapaz em estabelecer vínculos com os personagens que ele conheceu no decorrer de sua jornada. Muitas vezes ele poderia ter voltado pra casa, mas fez questão de perseguir a sua obsessão em chegar sozinho ao Alasca.

No fundo o protagonista é um niilista, ao questionar todos os valores estabelecidos, caiu em uma condição de vazio absoluto, descrente até da capacidade de amar. Apesar de sua viagem em muitos momentos ter lhe mostrado o quanto estava errado, continuou com o seu plano. Se deparou muitas vezes com pessoas gentis e acolhedoras, inclusive com a possibilidade de ter um relacionamento amoroso, mas novamente desprezado.

Em seu niilismo, Christopher acreditou ser possível ser autossuficiente apenas com a natureza, sem qualquer contato humano. O rapaz sucumbe e ainda há um niilismo passivo, em que ao alcançar o nada, abandona Deus e a fé em um outro plano metafísico encontrado na morte, mas não há uma tentativa em transformar os valores estabelecidos em uma ética própria regida pela vida em si e pela sua finitude, diferentemente do niilismo ativo.

Apesar da crítica razoável de Chris, no fundo essa racionalização esconde uma espécie de melancolia em não conseguir investir afeto nas pessoas e em relações duradouras, talvez devido a desestruturação da relação de seus pais e da sua condição de filho bastardo. Essa série de traumas interferiram na sua capacidade de constituir laços afetivos. Nessa condição, só lhe restou investir, narcisisticamente, afeto nele mesmo e na natureza, já que as pessoas poderiam naturalmente lhe decepcionar.

Se nem os próprios pais foram capazes de lhe amar, segundo a sua provável fantasia, imagine os outros. Em Capitão Fantástico (2016), a família guiada por Ben, apesar de ter uma proposta semelhante a de Christopher, além de ter um conhecimento mais apurado de como sobreviver na floresta, estava embasada em uma ideologia socialista. O “super vagabundo”, além de solitário, não tinha uma crença em nada, queria sobreviver de uma forma primitiva, ou seja, seu plano de vida era ainda mais radical.

Além da sua audácia em pensar que conseguiria viver apenas com o seu parco conhecimento e com alguns manuais de sobrevivência, Christopher foi bastante arrogante e onipotente em achar que poderia viver isolado. O seu fim, talvez, não poderia ser outro a não ser a sua autodestruição, praticamente um suicídio. Infelizmente, somente nos seus momentos derradeiros tenha percebido que “só existe felicidade quando ela é compartilhada”.

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Dante Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.