Os bons selvagens em ‘Capitão Fantástico’

Nos primeiros minutos de Capitão Fantástico nota-se uma cena inusitada. Um grupo de seis garotos liderados pelo seu pai Ben (Viggo Mortensen) está caçando um cervo em uma desolada floresta dos Estados Unidos. Após o animal ser finalizado pelo filho mais velho Bodevan (George MacKay), Ben realiza um ritual de passagem com ele, pinta o rosto do primogênito com sangue e em seguida, Bodevan devora o coração do cervo.

Essa é apenas uma ilustração do modo de vida em que Ben e sua esposa escolheram criar os filhos. Isolados ao máximo das ameaças opressivas e consumistas do Capitalismo, essa família vive sem praticamente nenhum conforto material, por outro lado são bem cultos, inclusive os filhos mais novos. Boa parte do tempo discutem política, exaltam o comunismo e criticam os paradoxos do capitalismo.

Entretanto, essa condição paradisíaca desaba quando eles recebem a notícia do falecimento de Leslie (Trin Miller), esposa de Ben, que estava internada em um hospital. Os pais dela não querem que Ben sequer vá ao enterro, pois o culpam pela morte dela e pelo estilo de vida que ambos escolheram. Na verdade, Leslie se suicidou, noticia dada aos filhos de forma nua e crua, pois acredita que nada pode ser escondido deles por pior que seja. Com certa resistência, Ben decide ir com os filhos para o funeral da esposa, consciente dos riscos que a viagem envolveria.

O roteiro do filme se mostrou bastante criativo com situações cômicas e excêntricas pelas quais a família passou na sua epopeia fúnebre. Em muitas circunstâncias há um terrível choque de realidade, seja pelo conhecimento precoce das crianças em comparação as outras ou pela tentativa de Bodevan em ficar com uma garota. Aos poucos, os filhos de Ben sentem os incômodos por estarem desencaixados da sociedade que tanto criticam e passam a questionar o pai, seja pelo isolamento em que viveram ou pelos riscos aos quais foram expostos.

Os ensinamentos de Ben aos filhos sobre a podridão do capitalismo se mostram inteligentes e válidos, não se pode negar a desigualdade social em que vivemos ou a pobreza da supervalorização dada aos bens de consumo. Por outro lado, tentar escapar do contato com a sociedade propiciou uma outra alienação e uma contradição inevitável. Por pior que seja um sistema, não se pode fugir do olhar desse grande outro ou negar a sua existência.

Ben e sua esposa acreditaram na possibilidade de educar os filhos como “bons selvagens”, puros e apartados da corrupção do capitalismo. Não se pode esquecer que o ser humano é gregário e totalmente dependente de outras pessoas, é possível sobreviver com uma faca no meio da floresta, mas não sem a presença de um grupo ou de valores sociais. Mesmo porque, apesar de todo o esforço de Ben, eles não conseguiram viver plenamente como “bons selvagens”, no primeiro contato que tiveram com a “civilização”, já se sentiram discriminados e inadequados. Bodevan queria entrar em uma faculdade, apesar do pai achar totalmente desnecessário.

Em Mal Estar na Civilização (1930), Freud discutirá a respeito dos sofrimentos e adaptações aos quais os indivíduos são submetidos frente a sociedade. Em troca de proteção frente as ameaças da natureza, o homem sacrificou parte de sua liberdade, é obrigado a estar sempre limpo e apresentável, além de ter que controlar os seus impulsos sexuais, não se pode ter relações com várias pessoas, é preciso ser monogâmico, e consequentemente formar uma família. Além disso, precisa trabalhar para cooperar com a comunidade.

Para que esses preceitos sejam mantidos, é necessário o estabelecimento das leis, tabus e costumes, com o intuito de controlar o comportamento e a sexualidade das pessoas. Uma instituição fundamental que realiza esse controle é a religião. A partir de preceitos como: “Amarás ao próximo como a ti mesmo”, a religião tentará conter os nossos impulsos mais agressivos, criando assim uma espécie de fraternidade. Mesmo para o homem civilizado, dominar os seus impulsos violentos é uma tarefa árdua, talvez impossível. Na história há inúmeros exemplos de atrocidades, das invasões bárbaras ao holocausto.

Ben e sua família, conscientes das rigorosas cobranças e manipulações do sistema adotam uma conduta de contracultura a partir de uma ideologia comunista, entretanto, se esquecem da alienação que qualquer ideologia causa, seja ela de direita ou esquerda. Freud ainda afirma sobre a ilusão do comunismo em acreditar que a maldade dos homens se deve em grande parte devido a propriedade privada e aos bens materiais. Os impulsos humanos agressivos são anteriores a qualquer sistema social e constituem uma parcela grande do psiquismo.

Por fim, acredito que Capitão Fantástico é um grande filme, seja pelo seu roteiro inteligente, as ótimas atuações do elenco ou pelas críticas feitas pelos personagens. Penso que o filme merecia uma participação maior no Oscar, mas por tratar sobre questões tão polêmicas, foi colocado em uma posição marginalizada tal qual a família de Ben. O longa concorreu apenas na categoria de melhor ator com Viggo Mortensen, aliás, em uma de suas melhores atuações. Infelizmente, os questionadores tendem apenas a permanecer a margem do Sistema.

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Dante Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.