How I Met You Mother | Por que contar aos filhos como eu conheci sua mãe (pai)?

Ted: Crianças, vou lhes contar uma história incrível, a história sobre como eu conheci sua mãe!

Filhos: Está nos punindo por alguma coisa?

Ted: Não!

Estas são as primeiras frases que ouvimos ao iniciar um dos sitcoms mais famosos do século 21. How I Met Your Mother marcou época, seus momentos impactantes ainda rendem horas de conversa entre os milhares de fãs ao redor do mundo.

Quando descobri pela primeira vez tal Sitcom e sua proposta, confesso que percebi algo diferente em mim, algo muito sutil e difícil de se dar conta, um afeto profundo e meio abstrato que de certa forma me alegrava. “Um pai que conta aos filhos como conheceu e se apaixonou por sua mãe, que ideia genial e criativa!”, pensava eu.

How I Met Your Mother percebeu um vínculo forte e coletivo nos nossos afetos, quando eu conversava com meus amigos que também acompanhavam a série, via o mesmo encanto e carinho pela história e suas personagens, de certa forma, eu me via neles, com um certo vinculo amoroso pela vida que nunca tinha me dado conta.

A série de Carter Bays e Craig Thomas fez muita coisa igual ou similar a outros sitcoms que até hoje também são aclamados por milhares de fãs, mas sua história consegue descolar destes gigantes concorrentes, pois transcorre sobre um fio condutor completamente diferente. É sobre isso que este artigo se dedicará a partir de agora, tentar encontrar o que sentimos, mas não nos damos conta ao assistir How I Met Your Mother. Vamos deixar o roteiro e a direção de fotografia de lado dessa vez para focar com mais clareza em outros aspectos que uma singela crítica deixa escapar.

Como toda boa história, tudo está em equilíbrio até a chegada de uma grande força desestabilizadora. Ted Mosby (Josh Radnor) sobreviveu a infância, sobreviveu a adolescência, sobreviveu a faculdade, se estabilizou em um trabalho, tinha amigos e momentos de descontração e sua vida sexual de certa forma era bem resolvida. Ted era um agente clássico da sociedade e inconscientemente lutava para alcançar todos os troféus sociais que lhe fora imposto. Sua vida era o ideal de qualquer solteiro.

Os responsáveis pela perturbação da ordem de Ted são seus melhores amigos, Marshall Eriksen (Jason Segel) e Lilly Aldrin (Alyson Hannigan), que entram em noivado e pretendem se casar em breve. Ted então começa a profanar sua vida atual, teme ser visto socialmente como um solteirão sem graça e de hábitos estranhos – do tipo que faz a piada do pavê para dar um exemplo abrasileirado. Ele percebe que falta algo em sua vida, sente que falta uma plenitude, um sentir-se vivo mais intenso do que o normal e de certa forma conclui que encontrará isso em um amor verdadeiro. Ted é claramente um idealista.

Marshall e Lilly, por mais que sejam personas diferentes, em diversos momentos representam a mesma força para a trama. São os primeiros “aliados” de ocasião, dão apoio para que Ted entre nesta nova jornada e zelam para que ele não desista.

Na sequência encontramos o primeiro “antagonista” de ocasião, Barney Stinson (Neil Patrick Harris), idealizador da vida de solteiro e que sempre propõe para Ted a potencialização da mesma.

Por mais que eu tenha usado a palavra “antagonista”, Barney apenas “antagoniza” o discurso ideal de Ted, mas é ele quem abre portas para um mundo realista e empírico. Barney é um típico camaleão, personagem que muda de papel conforme as ocasiões.

Se Marshall e Lilly dão força moral é Barney que dá o segundo arranque para que Ted inicie sua jornada em um mundo concreto. Marshall e Lilly mostram a força que tiramos de uma crença e Barney mostra a força que precisamos ter enquanto vivemos no mundo da vida.

Outra contestação importante é que logo no início Ted é interrompido pelos seus filhos com a seguinte frase. “Pai, você poderia pular para a parte onde conheceu a mamãe? ” Ora, pode parecer uma frase simplória esta, mas sua pertinência é imensamente profunda! Quem de nós já perguntou ou ouviu histórias de nossos pais sobre como se conheceram, receberam a idealização do momento. E não só aí, quando vemos filmes de romance, quando conseguimos o que desejamos, quando alcançamos prestigio e aplauso social tendemos a esquecer e mascarar todas as causas materiais e instintivas que nos levaram a tal resultado, somos idealizadores e fetichistas de nós mesmos! É sempre melhor acreditar que triunfamos perante a vida.

Ted está mais preocupado com as causas materiais concretas que o levaram a achar o amor, se não fosse seu sentimento egoísta pelo noivado de seus amigos, talvez ele nunca teria aprendido a amar, por exemplo, talvez se casaria com qualquer uma apenas para que seja alcançado mais um troféu social. Ted tenta explicar a seus filhos que suas idealizações utópicas também são explicadas pelo mundo material que ele encontrou, unindo o racionalismo com o empirismo, e por consequência nada contra a maré social com genialidade.

O Marketing de How I Met Yout Mother nos dizia: uma história de amor ao inverso! E por que? Porque as histórias de amor são idealizadoras de um amor puro, um amor a priori e toda e qualquer causa material é vista como força antagonista, como por exemplo: o tempo é o vilão de Antes do Amanhecer (Richard Linklater, 1995), as diferenças socioeconômicas é a vilã de Romeo e Julieta (Franco Zeffirelli, 1968), o câncer é vilão de A Culpa é das Estrelas (Josh Boone, 2014) – se bem que neste caso também serviu como aliado – e os exemplos vão ao infinito. Em How I Met Your Mother Ted já ama sua esposa, a diferença é que ele não a tem, o ideal é um dos vilões, e é preciso viver na materialidade para encontrá-la, é preciso se reafirmar na vida, para encontrá-la na vida.

 

Ted não é nenhum gênio consciente, sua preocupação com as causas materiais que aponto são inconscientes, ele apenas vive e idealiza seus discursos como todos nós. No final da história, descobrimos que contar tal história aos filhos não vinha de uma vontade de retribuir o que a vida lhe ensinou, mas sim de mais um desejo inconsciente que era sentido e reprimido no qual não vou revelar aqui, vocês já sabem do que falo. No final, a história idealista e utópica de Ted é deslegitimada por mais um simples desejo material e isso ainda temos dificuldade de engolir, esperamos uma vida plena no que acreditamos como verdade – mas vamos voltar ao começo!

Ted se encontra com o próximo personagem que terá grande importância no decorrer de sua vida, Robin Scherbatsky (Cobie Smulders). Um sorri para o outro, concordam em sair juntos e ele deposita nela todas as suas idealizações e todo o seu desespero, simbolizado no famoso “Eu te amo” do primeiro encontro.

O que pode levar uma pessoa a dizer eu te amo para outra, sendo que praticamente uma não sabe nada sobre a outra? Uma primeira resposta é óbvia: é a piada da cena, podemos aprofundar um pouco mais, reflete uma ingenuidade da personagem em relação a esse tema. Mas essa resposta implica em outro problema: O que é o amor então? Ou melhor, o que é o amor maduro ou correto?

Muitos já definiram um significado para tão delicado tema e ainda lutam por uma resposta verdadeira. O significado de amor é objeto de disputa por parte daqueles que amam e me arrisco a dizer que nunca existira resposta certa ou verdadeira, mas as personagens de How I Met Your Mother de certa forma avançam no amor e nas suas relações e como a serie dá primazia a este tema em relação a outros temais secundários sobre a vida; farei o mesmo neste artigo. E para que fique mais bacana, solicitarei a ajuda da filosofia.

Um dos primeiros a definir amor foi Platão, e para o mesmo o amor se define em Eros. Este é o desejo, Eros é amor e amor é desejo. O que é preciso para que exista desejo? Platão nos dirá que desejo pressupõe a falta, então Eros é amor, que é desejo que pressupõe a falta! Então quando amamos? Quando não temos! E o que amamos? Aquilo que não temos! E o que acontece quando temos? Não amamos mais ou amamos outra coisa.

Platão é um dos pais do idealismo, era crente do mundo das ideias e das formas perfeitas, segundo ele o homem era desejam-te porque a alma estava aprisionada ao corpo, este carente das formas e das ideias perfeitas e imutáveis, por isso só podia amar o que lhe faltava, que é, em resumo as verdades absolutas.

Mas a definição de Platão é pertinente até hoje, Ted vive numa busca e uma busca só pode ser pelo que falta, Ted busca o amor ideal, o deseja, porque não o tem. Mas diz eu te amo no primeiro encontro, o que Platão diria desta atitude? Ainda não saiu da caverna, acredita em meras sombras como verdades absolutas.

Eu diria que o desespero nos leva a nos refugiar em qualquer ideal, Ted ainda está no início da jornada e era preciso tirar está ingenuidade da frente, para poder aprender.

E Marshall e Lilly, eles já têm o amor, então o que desejam? Lilly rompe com Marshall pois deseja ser pintora, deseja a vida fora do relacionamento, mas eles voltam a ficar juntos, e como fica a situação? Desejam o casamento, desejam uma casa nova, desejam filhos. Mas desejam um do outro? Eles já se tem, portanto só podem amar outras coisas.

Platão choca um pouco, não é possível que Marshall e Lilly não se amem, poderíamos dizer isso de Barney que deseja uma, depois outra, mas Marshall e Lilly parecem tão conservadores, como Platão pode estar certo? E é por isso que Aristóteles precisou entrar em cena.

Diferente de Platão, Aristóteles não via que a solução para o homem era uma transcendência transcendental, com o perdão do pleonasmo, mas uma transcendência na imanência, no mundo material ou cósmico. Vivemos em um cosmo finito e ordenado e somos dotados de virtudes. Assim como o vento temos um lugar natural que precisamos encontrar para que possamos nos encaixar no todo cósmico, isso acarretara em uma vida eudaimónica, que produzira philia, e o que é philia? Amor pelo mundo quando o mundo alegra. Perceba que para Platão, amor requer falta e para Aristóteles requer presença, amamos quando temos, mas não quando temos qualquer coisa, quando temos o certo para nós.

Agora o amor de Marshall e Lilly ficou mais compreensível, amam porque tem um ao outro, amam a presença um do outro, e quando se separam parece que existe um desencaixe com o todo cósmico.

Enquanto Ted busca a primeira temporada inteira todos os recursos possíveis para encontrar seu amor, característica de um ser desejante e desalinhado com o cosmo, o amor de Marshall e Lilly se mostra inabalável do início ao fim. Para Ted, foi preciso namorar com a Robin para que ambos percebessem que este não era o caminho. E cabe a ambos se reafirmar com a vida para encontrar o encaixe ideal. Ora, sabemos o que acontece no final na série, então talvez não exista ordem no cosmo, e muito menos encaixes ideais.

Por mais que falemos do amor na presença de Aristóteles, o filósofo nunca se preocupou diretamente com amor romântico e com seu encaixe, e os cientistas modernos acabaram com sua ideia de cosmo finito e ordenado, e consequentemente com suas virtudes. É preciso achar definição de amor em outro lugar então.

Na modernidade vai surgir um fulano chamado Espinoza, filósofo holandês que pode nos ajudar aqui. Para Espinoza, somos partes de um mundo, mundo que ele vai chamar de Deus. Este é o todo, e você é parte deste. Você é parte que se relaciona com partes assim compondo o todo que é Deus; e como nos relacionamos com as outras partes? Se afetando. O mundo nos afeta quando nos relacionamos com ele e por consequência afetamos ele de volta quase que como se estivemos em uma relação simbiôntica, não tem como fugir do mundo pois ele se impõe e sempre te leva em consideração.

A infinidade dos afetos é tão infinita quanto a infinidade de encontros com o mundo, mas ou tais encontros alavancam sua potência de agir, o que Espinoza vai chamar de alegria, ou reduzem sua potência de agir, o que ele vai chamar de tristeza ou morte.

Para Espinoza, primeiro vem o afeto, depois a razão. Primeiro o mundo te alegra e só depois você o acha belo. E onde o amor entra nisso tudo? O amor é a alegria quando identificamos o objeto de sua causa, amamos quando somos capazes de identificar no mundo aquilo que nos alegrou. Só amamos aquilo que nos alegra, aquilo que faz nos sentirmos maiores em nós mesmos.

Se você está se alegrando com o meu simplório texto e identificou nele a causa de sua alegria, você o ama.

Nesta perspectiva, Ted foi sincero ao dizer a Robin eu te amo no primeiro encontro, pois de fato ela o alegrou, mas, segundo Espinoza, faltou a consciência para dizer, te amo no estrito momento em que estamos juntos, amanhã, talvez não te ame mais, pois meus encontros com o mundo serão outros. Ted não tinha essa consciência, pois não era isso que ele pensava, diferente de Espinoza, um materialista, Ted é um Idealista, que acredita no amor verdadeiro e eterno.

O amor de Espinoza também só pode acontecer na presença. Ted amou todas as mulheres com que se relacionou enquanto elas o alegraram, até que encontrou uma que conseguiu alegrá-lo um número maior de vezes no decorrer da vida, e consequentemente ele fez o mesmo por ela, mesmo que em alguns momentos eles não se amassem, pois um entristeceu o outro, foram poucos esses momentos.

Agora Marshall e Lilly ficaram mais compreensíveis ainda: Se amam apenas porque se alegram, sem transcendência ou encaixe cósmico, coisas que a alegria dispensa.

Ted persiste em Robin em muitos momentos da série mesmo depois que sua idealização infantil projetada nela passa. Ted nunca deixou de idealizar o amor, e seus encontros com ela no mundo da vida sempre lhe produziram alegria.

Parceiro não oficial de Espinoza, no século XIX vai surgir um filosofo alemão chamado Nietzsche, que será muito pertinente para nós agora. Nietzsche vai dizer que o que passa pela nossa cabeça, que entendemos por consciência, é a parte mais pífia e menos importante do pensamento, pois não controlamos o que pensamos, a consciência é apenas a parte do pensamento que é iluminada por uma lanterna, e você não tem o controle da lanterna, pois você é a consciência, conclusão: Não é você quem pensa. Então quem pensa? Quem controla a lanterna? E Nietzsche vai responder: Os teus afetos.

Para Nietzsche, acreditar no eu, acreditar em verdades absolutas, acreditar que você controla a consciência é apenas gerar ídolos, viver em idealizações e a consequência disto é viver fora do mundo da vida, é viver na covardia, é ser fraco.

O que Nietzsche propõe é que o homem se desarme das idealizações e encare o mundo da vida como ele é, sem verdades absolutas, sem transcendências, sem paraíso após a morte, apenas afetos em movimento. E é aí que ele vai propor o conceito de “Amor Fati” que é amor pela vida, amor pelo real, amor pelo seu destino seja ele qual for, a vida é vontade de potência, busque NA VIDA a sua potência, em outras palavras, busque na vida a sua alegria.

Porque Nietzsche é tão pertinente aqui? Porque Amor Fati é amor pela tragédia e comédia é tragédia. E How I Met Your Mother é uma comédia.

Quando assistimos a uma comédia o que buscamos é uma reafirmação com a tragédia, mais do que ver Ted e seus amigos se dando bem, o que queremos realmente é ver eles se dando mal, pois na vida nós telespectadores nos damos muito mal e a comédia sempre ajudou o homem a reafirmar a vida, a despir-se de mascaras, a satirizar as relações sociais, a mostrar que a vida não se amarra em nada, mas mesmo assim, podemos amá-la.

Comédia não é em essência tragédia, mas tragédia reafirmada, é vida reafirmada, é limpeza para o homem. Queremos que os personagens se machuquem, mas nem tanto, pois a vida trágica e sem expectativas deve sempre ser reafirmada. Toda comédia é anacronicamente nietzschiana por excelência.

Ted passou por maus bocados, mas mesmo quando a tragédia parecia ser grande demais, sempre reafirmou sua vida na alegria, foi vivendo, como um mar de afetos, se alegrando e se entristecendo ao sabor de encontros. O alemão que dispensou Victoria (Ashley Williams) diz a Ted que a mesma era quase o que ele queria e que um dia ele acharia o que queria, só não saberia quando ou onde. Em palavras mais nietzschianas, o que o alemão ensinou a Ted foi: não vou fazer de Victoria um ídolo, vou vivendo ao sabor dos encontros, não posso ficar esperando a vida acontecer, ela está acontecendo e não vou me refugiar em ídolos.

Nietzsche satirizava o casamento enquanto proposta de amor verdadeiro, pois isso era ídolo, o casamento segundo ele só poderia ser uma moral de fracos, que tenta reduzir a potência daquele que consegue se relacionar bem com muitos – se é que me entende.

Mas, o que Nietzsche diria sobre Barney então? Muito bacana o jeito que você vive, mas você acreditou em sua consciência e fez de sua vida um ídolo e o real motivo de você viver a vida que leva é apenas para se blindar de qualquer tipo de afeto complexo, é uma fuga desesperada de comprometimentos e pendencias mal resolvidas com a mãe, com o pai e com desilusões amorosas do passado.

E por mais que a vida de casado não era mesmo para Barney, foi preciso resolver todas essas pendencias, se despir da vida idealizada de solteiro, para então retornar em paz.

Foi só depois de tanta desilusão, tanta tristeza, tantos ídolos caídos e com uma vida que Ted não permitiu tristeza; no acaso do mundo, ele encontrou a mãe.

Robin, por sua vez, também tinha medo de relacionamentos, idealizava sua vida independente, conservava distância entre as pessoas e similar a Barney também teve problemas mal resolvidos na infância devido a um pai que a “masculinizava”. Talvez por isso se relacionou com Barney, de certa forma ela se via nele. Também foi preciso uma queda de mascaras, uma aceitação mais profunda dos afetos alheios para que os seus próprios fossem compreendidos. Quem não se lembra do célebre dialogo, “Robin Scherbatsky você é menina! ”, “Você é menina! ”, “Isso já sabemos, a novidade aqui é que você é menina! ”.

Robin representa um retrato muito real e fiel da mulher contemporânea, senhora de si mesmo, focada no trabalho e lutadora por um relacionamento que seja igualitário e não submisso. Quando Nietzsche fala sobre liberdade no livro “Além do Bem e do Mal”, sua definição é o que citei acima, conservação perante os outros.

Com Nietzsche tiramos muitas interpretações pertinentes sobre a série e seus personagens; sua proposta que visa uma genealogia entre o que passa pela nossa cabeça e os afetos que revelam os reais motivos de pensarmos o que pensamos, ele já põe um pé dentro da psicanálise, onde Carl Jung vai nos contar sobre o inconsciente coletivo e os arquétipos que dividimos em nossa psique. Joseph Campbell vai explicar a mitologia com a ajuda da psicanálise e Christopher Vogler vai escrever “A Jornada do Escritor”, onde narra momentos e arquétipos que são necessários para uma boa história. De certa forma tudo se interliga.

Talvez tenha dado para perceber, Nietzsche não era bem um camarada do cristianismo, achava a crença uma moral de fracos, uma castração, uma hostilização e uma negação ao mundo da vida. Mas Ted nunca deixou de ser um idealista, seu romance com Tracy (Cristin Milioti) é idealizado até a quebra no episódio final, Marshall e Lilly de certa forma também vivem um amor um tanto inabalável – e o bacana, é que a definição de amor que deixei para o final, é o amor segundo Cristo.

As três virtudes teologais são fé, esperança e amor. Fé é a certeza em algo que não se deixa revelar, deus é irrevelável, toda e qualquer tentativa de provar sua existência, ou é idiotice ou é blasfêmia, a crença pressupõe a transcendência.

Esperança não é fé, mas é sempre confundida com a mesma. Esperança vem de esperar, e diferente da fé não é racional, mas afetiva. Esperança é alegria setorizada, alegria que provém da imaginação, alegria que temos em SENTIR que tudo vai ficar bem, alegria é sentir o paraíso na matéria. Percebeu que nas muitas vezes que você diz, eu tenho fé, na verdade você está querendo dizer, eu tenho esperança?!

E o amor, ou ágape? Das 3 virtudes o amor é a única que existe no paraíso, pois lá você não precisa ter certeza na transcendência, você é a transcendência, lá você não precisa mais esperar que tudo vai ficar bem, tudo já ficou bem, sendo assim, só nos resta amar.

Para os cristãos, a criação é um ato de amor, pois deus é a suma perfeição e tudo que é perfeito é Deus. Você não é perfeito, você atrapalha a perfeição, você piora Deus. Mas o ato de amor de Deus foi se afastar para que você possa existir, assim, imperfeito do jeito que é, Deus te ama do jeito que você é, a imperfeição é condição da existência.

Então quando Cristo diz, amai-vos uns aos outros, é isso mesmo, amamos como Cristo amou apenas quando nos afastamos perante a alegria do próximo, quando deixamos que ele exista do jeito que ele é. É se alegrar com a alegria do teu próximo.

De certa forma Ted percebeu isso, seu jeito dócil e fofo de ser provém da sua constante retirada EGOísta perante o mundo a sua volta. Ted mostra em suas amizades e em seus relacionamentos que a alegria do próximo é condição da sua própria. Tente ser feliz quando todos à sua volta estão tristes, e você verá sua alegria desmanchar como um castelo de areia construído muito perto do mar.

Na Grécia, os estoicos diziam: se você quer amor, ame! E também achavam que amizade não provinha da utilidade do amigo, mas sim o contrário. Amigo não é ter alguém que possa te ouvir na tristeza, mas é amparar aquele que está triste, não ter alguém que esteja disposto a morrer por você, mas ter alguém por quem você possa morrer. Amizade na utilidade morre quando a utilidade morre.

O amor de Ted a seus semelhantes, sem negar suas pulsões e paixões pessoais é a mola propulsora que difere How I Met Your Mother de qualquer outra história. Ted tinha uma relação socialmente mascarada com os pais, e foi só na tristeza do divórcio que teve uma conversa profunda e conectiva com eles, mas não é assim que devemos viver. “Quando eu me casar, quero contar aos meus filhos, como eu conheci sua mãe! ” Diz ele.

Para Ted, é melhor que nossas conexões aconteçam no amor do que na tristeza. Contar aos filhos a história de como eu conheci sua mãe é retirar as máscaras sociais e afetivas, criar vínculos de proximidade e educar para as tristezas e alegrias do mundo da vida. É não ficar esperando a vida acontecer, é fazer acontecer a cada pequeno instante. É perceber que o maior conto de fadas é a vida como ela é, cheia de tragédias e finais decepcionantes, mas mesmo assim, ainda dá para amar.

Nas palavras do Doutor Freud: “Como fica forte uma pessoa quando está segura de que é amada! ”.

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Matheus Amaral

21 anos, formado em Audiovisual, amante do cinema em todos os seus aspectos. Filósofo de bar. As vezes mistura as coisas...Desde pequeno assistia tudo o que via pela frente, cresceu lado a lado com o cinema e com as suas diversas vertentes.