Crítica | ‘Narcos: México’: guerra aos cartéis continua em uma ótima 1ª temporada

Quando a terceira temporada de Narcos estreou na Netflix, muitos duvidaram da capacidade da série manter o fôlego sem a presença de Pablo Escobar (Wagner Moura), personagem que atraiu todas as atenções nas duas temporadas anteriores. De certa forma, o mesmo aconteceu no terceiro ano da série, quando e Cartel de Cali conseguiu manter a história sob os olhares atentos do público. Narcos: México inicia um novo capítulo nessa história, muda de continente, volta no tempo e continua a saga em mais um capítulo sangrento e estarrecedor.

Em linhas gerais, histórias como essa precisam gerar empatia e ser atraentes para que possamos comprá-las. Isso porque sabemos exatamente como essas elas irão terminar. Invariavelmente, todos esses personagens acabam mortos ou presos. O que torna tanto Narcos: México quanto a série de origem produções que nos despertam curiosidade é o fato de nos perguntarmos a todo instante como isso aconteceu. Ou melhor, como tais coisas foram possíveis, como por exemplo, a existência de uma plantação gigantesca de maconha no meio do deserto.

Narcos: México reúne diversos desses elementos que perduram até os dias de hoje. Drogas, dinheiro, corrupção e a sede pelo poder fizeram com que, entre os anos 70 e meados dos anos 80, o México se consolidasse no mapa do tráfico internacional de drogas, produzindo e exportando produtos como maconha e cocaína. Um dos acertos da série, e que a deixa em posição de vantagem em relação a Narcos, é que mesmo que seja “inspirada em eventos reais”, muitas consequências e fatos são mais fiéis os acontecimentos históricos.


A narração em off, que é uma das marcas registradas da série, avisa logo no início que esta não é uma história com final feliz. Uma prova disso é o fato de Joaquín Guzmán, o El Chapo (que é mencionado na série), ainda possuir negócios em andamento no país, mesmo depois de ter sido preso e escapado duas vezes da cadeia. O narcotráfico mexicano é violento e histórias sobre isso são contadas de forma visceral no cinema, como em Sicário. Porém, a história é apresentada muito antes da ascensão dessas organizações, quando o grande barão das drogas atendia por outro nome.

Na década de 1970 o uso da maconha nunca esteve tão em alta. Em Narcos, logo na primeira temporada, vemos que um dos principais motivos para a exportação da cocaína era o consumo cada vez mais crescente da droga nos Estados Unidos. Aqui não é diferente. Essa conexão entre produtor e consumidor é, mais uma vez, o eixo central da série, que expõe as vísceras da corrupção dos países latino-americanos e conferem um certo ar de heroísmo aos agentes da DEA (Órgão para combate às drogas dos EUA). Porém, a incapacidade de outras agências americanas, o envolvimento entre os governos agindo por conveniência e a burocracia ajudam a balancear a história nesse ponto.

Logo no início, conhecemos o abastecimento que vem do México, através de fazendeiros em uma estrutura mais rudimentar. A história acompanha Miguel Angel Félix Gallardo (Diego Luna), um ex-policial que deseja transformar a maconha em um império, tornando o negócio altamente organizado, com controle total de transporte, venda e comércio do produto. Seu plano é estabelecer o que seria o primeiro cartel de drogas do México: o Cartel de Guadalaraja.


Félix é mais uma mente visionária, tal qual o irmãos Orejuela e Pablo Escobar. Mas, em contraponto, há novamente agentes dispostos a frear esse reinado. Narcos: México nos mostra mais uma vez o ciclo do combate as drogas, com seus atores principais: o barão de drogas e os mocinhos, enquanto forças ocultas operam para permitir que isso seja possível e apenas a ponta do iceberg seja exposta na opinião pública. É ai que conhecemos Enrique “Kiki” Camarena (Michael Peña), um agente transferido a contragosto para Guadalaraja, que vem a se tornar o grande catalisador da explosão dessa guerra no México.

A série mostra o DEA atuando com menos estrutura que em Narcos. Eram os dias iniciais do único órgão encarregado de realizar investigações de narcotráfico no exterior. A série também mostra esse trabalho como um desafio constante, com o envolvimento do governos e forças policiais, além das relações diplomáticas que são meio turvas. Tudo representa um entrave para as investigações dos agentes americanos em solo mexicano.

A estrutura narrativa da série não possui nada diferente do que vimos em Narcos. Conhecemos a ascensão do traficante, que vem a ser tornar o “chefe dos chefes”, e o trabalho dos agentes da DEA, até que em um dado momento, eles de chocam. No entanto, Narcos: México possui um ritmo deliberadamente mais lento em seus primeiro cinco episódios. E isso é bom, pois permite que possamos conhecer um por um, até chegarmos ao quinto capítulo, que é um deleite para os fãs das duas séries. A partir dai, a série assume contornos mais urgentes, com ótimas cenas de ação e perseguição, mas sem perder o status de thriller policial.


As atuações não deixam a desejar. O Félix Gallardo de Diego Luna se estabelece como um grande personagem. A construção do Chefe dos Chefes é gradual e ele chega ao final do décimo episódio bem diferente do policial que acompanhamos nos primeiros minutos. É uma atuação em muitas vezes mais contida, beirando o minimalismo, fruto da introspecção de frieza que o personagem exige. O que permite, em momentos mais explosivos, vermos um outro lado do vilão.

Em um pouco usual papel sério, Michael Peña não decepciona. Ele não é tão carismático quanto o agente Javier Peña (Pedro Pascal), mas digamos que esteja um passo a frente de Murphy (Boyd Holbrook). Peña entrega aquilo que o personagem exige, não indo muito além, mas em linhas gerais, Kiki é alguém com quem podemos criar empatia gradualmente, assim como os agentes James Kuykendal (Matt Letscher), Butch Sears (Aaron Stater) e Roger Knapp (Lenny Jacobson).

Outros personagens ganham destaque ao longo da trama, como os sócios de Gallardo, Don Neto (Joaquín Cosio) e Rafa Quintero (Tenoch Huerta). Ambos são bastante diferentes em seu modo de agir. Enquanto o experiente Don Neto é discreto, Rafa é impulsivo e vai se tornando cada vez mais insano ao longo dos dez episódios, o que permita a série retratar dois eventos que realmente aconteceram e envolveram a figura de Quintero: um assassinato de dois americanos e uma fuga surreal com a conivência do governo. Há subtramas envolvendo os dois, e tentativas de humanizar os personagens são criadas, mas na maioria dos casos, o lado gângster é o melhor de se ser acompanhado.


Porém, há um ponto em que Narcos: México deixa a desejar. Embora essa seja uma história de personagens essencialmente masculinos, as mulheres presentes se sentem apenas como muletas ou uma espécie de complemento na narrativa, sem ter muito o que fazer a não ser acompanhar os maridos. As esposas de Kiki e Félix Gallardo, Mika Camarena (Alyssa Diaz) e Maria Elvira (Fernanda Urejola) tinham potencial para serem retratadas de maneira mais importante, dado o que aprendemos sobre suas opiniões acerca do trabalho dos dois. A traficante Isabella (Teresa Ruiz) é quem mais se aproxima de um possível destaque, mas acaba sendo subjugada pelas ações dos homens.

Para apresentar ao público sua proposta, Narcos: México é eficiente. A série estabelece sua primeira temporada como uma história de origem muito bem amarrada para o Cartel de Guadalaraja, utilizando Félix Gallardo como eixo central e estabelecendo conexões diretas mas pontuais e muito precisas com Narcos, através de pequenas e ótimas participações especiais de personagens já conhecidos, como a inclusão de rostos apresentados em Narcos, como Amado Carillo Fuentes (José María Yazpik).

Tanto em Narcos quanto em Narcos: México, os homens estão longe de serem os verdadeiros protagonistas dessas histórias. As organizações são os reais atores de um sistema que é cíclico, com produtos, comandantes e comandados sendo apenas substituídos por outros. É disso que se trata o combate às drogas, afinal.

NARCOS: MÉXICO - 1ª TEMPORADA
4

RESUMO:

Agora em outro continente, a guerra às drogas continua violenta, tensa e com um pé na realidade em Narcos: México, que estreia com uma ótima temporada.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...