Crítica | ‘As Viúvas’ funcionaria melhor como uma minissérie

O diretor de Shame e 12 anos de escravidão Steve McQueen teve a estreia de seu novo filme no festival de Londres deste ano. Diferindo muito de seus trabalhos anteriores, As Viúvas pode ser considerada sua obra mais acessível ao público, mas passa longe de ser seu melhor filme. A adaptação do livro de Lynda La Plante traz as mulheres que geralmente ficariam em casa enquanto os maridos sairiam para realizar crimes, agora responsáveis por toda a ação.

Veronica (Viola Davis) esteve sempre passiva em relação ao outro lado da vida do marido, não sabendo ao certo seu envolvimento com o mundo do crime; Alice (Elizabeth Debicki) foi maltratada durante toda a sua vida, principalmente pelo ex-parceiro, que sempre a agredia fisicamente; e Linda (Michelle Rodriguez), mãe de duas crianças que possuía uma loja, mas a perdeu devido o dinheiro do aluguel ser gasto pelo marido com seus vícios. Mais tarde, Belle (Cynthia Erivo) se junta a elas como uma motorista de fuga, e então, elas começam a bolar um plano para roubar uma grande quantidade de dinheiro e pagar a dívida de 2 milhões que os cônjuges deixaram para Jamal Manning (Brian Tree Henry).

Nos minutos iniciais, cortes bruscos trazem Veronica deitada na cama com o marido Harry Rawlings (Liam Nesson), enquanto alterna para cenas do crime que acarretou sua morte. Em uma tentativa desnecessária de tentar gerar surpresa, de repente, Veronica aparece sozinha na cama. E assim, o filme segue mostrando a vida das outras viúvas, uma corrida presidencial entre Jamal Manning e Jack Mulligan (Colin Farrell), e a agressividade de Jatemme Manning (Daniel Kaluuya), criando um contexto sem muitas explicações.

Apesar de McQueen conseguir criar tensão muito bem em algumas cenas, nem sempre o diretor faz sua melhor escolha. Um exemplo seria a cena em que a câmera permanece na diagonal por fora de um carro, deixando a impressão que o diretor tentou fazer algo autêntico, mas que não funcionou. Ao não conseguir ver os personagens em uma sequência de três minutos, aparenta que o diretor deixou a câmera em cima de um carro e posteriormente solicitou que os atores gravassem o diálogo para colocar por cima.

A proposta de colocar mulheres com traços de vítima como as heroínas, usando também o fato de que ninguém acha que elas são capazes de realizar tal roubo ao seu favor é, com certeza, interessante. Era possível abrir uma discussão maior do que Oito Mulheres e um Segredo, mas sua execução não apresenta ser muito melhor. A quantidade de assuntos em excesso não deixa o foco para as questões feministas e não dá tempo o suficiente para problemas raciais e outros problemas de gênero (como Alice, que apanhava do marido, mas repentinamente “desenvolve” sua autonomia e aprende a não ser abusada por ninguém.)

De fato, o filme aborda assuntos importantes, mas, infelizmente, o roteiro assinado por Gillian Flynn (Garota Exemplar) e pelo próprio McQueen não se aprofunda em nenhum deles. Seu começo entrega uma grande confusão de tópicos jogados, há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e nenhuma é desenvolvida propriamente ao longo do filme, enquanto há cenas que nada contribuem para a trama. Ainda, a montagem joga flashbacks de repente, que nem sempre podem ser entendidas pelo espectador de primeira.

Os melhores aspectos do filme pertencem à trilha sonora do grandioso Hans Zimmer, que cria suspense e impacto na medida certa; e às atuações, mas principalmente a de Viola Davis e a de Daniel Kaluuya. Enquanto Davis não é nenhuma surpresa, Kaluuya se mostra novamente um ótimo ator com potencial para ganhar cada vez mais espaço nas telonas.

Baseado também na minissérie homônima de 1983, o novo longa de Steve McQueen demonstra que As Viúvas deveria continuar sendo uma série de TV. Mesmo possuindo bons momentos, o filme não apresenta o desenvolvimento necessário para a quantidade de assuntos abordados em apenas 128 minutos.

Visto durante a Mostra Cinema Negro em 12 de novembro, em São Paulo.

AS VIÚVAS | WIDOWS
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RESUMO:

As Viúvas está longe de ser o melhor filme de Steve McQueen, mas encontra força nas boas atuações e na elogiável trilha sonora de Hans Zimmer.

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.