Crítica | ‘American Horror Story: Apocalypse’ é uma das melhores temporadas da série

American Horror Story surgiu em outubro de 2011 com uma premissa bastante curiosa. A primeira temporada, Murder House, criada por Ryan Murphy, tinha como missão desenvolver uma história de suspense em um clima bastante clichê de títulos de terror, a famigerada casa mal-assombrada, contudo, apostando em um estilo ímpar. Com personagens cativantes e elenco extremamente carismático e talentoso, a série surpreendeu e arrebatou uma legião de fãs.

A segunda temporada, Asylum, que narrava eventos em um sinistro hospital psiquiátrico, conseguiu superar sua antecessora com aquela que seria, na opinião de muitos, a melhor temporada de American Horror Story. A partir daí, houveram muitas controversas, pois quando a terceira temporada, Coven, com uma novela envolvendo bruxas e um estilo que muitos consideraram como sendo teen demais, começou a decair em qualidade, o público, que até então era fiel, começou a se dividir.

As temporadas seguintes melhoraram tanto em crítica quanto em público. Vieram Freak Show, que de uma maneira bastante sanguinolenta, acompanhava uma trupe de aberrações de circo; Hotel, que nos apresentava um maléfico hotel povoado por vampiros e que inclusive, contava com a belíssima participação da Lady Gaga (ganhadora do prêmio Globo de Ouro nesse ano pela série), além de fantasmas e outros conceitos sobrenaturais; Roanoke, que falava sob um ponto de vista quase que de publicidade, sobre o desaparecimento da colônia de Roanoke; E por fim, mas não menos importante, Cult, uma temporada realizada em uma época bastante pertinente, quando mostrava os resultados provocados em uma população após a eleição de um político controverso, cujos sintomas seriam responsáveis pelo estabelecimento de uma histeria coletiva.

Agora, com Apocalypse, como o nome já diz, a temporada tenta abordar o fim dos tempos, fazendo várias referências à vários títulos da cultura pop, especialmente no que diz respeito aos conceitos estabelecidos em A Profecia (The Omen, 2006).  Mas, antes de começar a de fato falar sobre essa fase da criação de Murphy, é lícito analisar algumas das características da série num todo. O denominador comum que se repete em todas as temporadas.

Como histórias de terror, American Horror Story se assemelha ao rock’in roll raiz, que tinha como objetivo não criar obras necessariamente dentro do que a sociedade considera como bonito, mas sim, promover criações com o potencial de impactar as pessoas. Esse é o real objetivo dos filmes de terror. Criar emoção e por meio do medo, do drama, do mistério e do suspense, causar impacto nos expectadores, emoções fortes que surgem após cenas de violência gráfica, situações extraordinárias e, claro, situações que envolvem aquilo que não se pode explicar. Essas são as ferramentas que todo bom terror deve possuir (ou pelo menos algumas delas).

Partindo desse pressuposto, a série, em todas as temporadas, busca se utilizar dessas ferramentas para transmitir sua mensagem. Os eventos ocorrem sempre em blocos temporais, explicando o contexto dos eventos principais, mas sempre envolvendo momentos impactantes. Seja a morte cruel de algum personagem, mutilações, ações de personagens extremamente cruéis.

Por meio desses artifícios, Ryan Murphy estabelece uma narrativa pessimista na maioria das vezes, com personagens sarcásticos, pouco dotados de empatia (os vilões principalmente) e pesando a mão em grande parte das situações, deixando de lado a sutileza na hora de contar suas histórias.

E é no grande acerto da série que também mora seu principal ponto fraco. Com cenas fortes em todos os episódios, chega uma hora em que elas começam a perder a potência. O oposto também acontece, pois quando as cenas impactantes dão lugar a um lento desenvolvimento de personagens, estes em algumas vezes, se arriscam a se tornarem banais e enfadonhos de se acompanhar.


Isso não significa que a série é enfadonha de assistir, muito pelo contrário, trata-se apenas de um apontamento que pode ser visualizado em momentos pontuais de cada temporada, algumas delas, inclusive, um pouco mais acentuadas do que outras. Seria mais um problema de ritmo, algo que poderia ser corrigido em uma revisão mais atenta ao roteiro e uma direção mais atenta em alguns momentos. Embora essas falhas não sejam assim tão frequentes, elas estão ali.

Outro fator negativo que pode-se apontar em praticamente todas as temporadas, é o fato de algumas vezes o roteiro fica um pouco confuso, dando a impressão de que não sabe para onde seguir e, na ânsia por gerar momentos fortes, acaba por pesar a mão e sacrificar personagens que ainda poderiam render bons momentos ou criar elementos que destoam do restante do que foi mostrado no demais episódios, como é o exemplo do surgimento de alienígenas na segunda temporada, misturando psicopatas, demônios e seres de outros planetas em um mesmo cenário. Apesar de ser considerada uma das melhores temporadas (se não a melhor), há de se concordar de que os últimos episódios são realmente estranhos em relação à tudo que se havia sido mostrado.

Essa ‘salada de frutas’ pode desagradar alguns expectadores em alguns momentos. Porém, para aqueles que compreendem o tom cínico que se está sendo proposto, e que sabem ‘deixar passar’ algumas coisinhas, American Horror Story é, sem dúvidas, uma ótima experiência para os amantes do terror e também para quem apenas gosta de acompanhar histórias bastante dramáticas, com boas doses de suspense, violência e, claro, um pouco do bom e velho gore.

Tendo estabelecido esses conceitos, podemos finalmente seguir adiante para falar sobre Apocalypse.


Em todas as temporadas, o roteiro sempre apresentou algo diferente e dessa vez, não faz feio, pois, logo no primeiro episódio, já nos deparamos com a humanidade à beira da extinção, diante de uma iminente destruição por meio de uma guerra nuclear de proporções globais.

Após a erradicação de toda a sociedade como conhecemos hoje e o mundo ter se transformado em um deserto radioativo, um pequeno grupo de sobreviventes é reunido em um bunker subterrâneo para perpetuar a espécie. Ou pelo menos, é isso que lhes é exposto. Mas a verdade é bem mais complexa e sombria também.

Quando o grupo composto pela digital influencer Coco (Leslie Grossman), sua assistente Mallory (Billie Lourd), seu cabeleireiro Gallant (Evan Peters), a avó dele, Evie (Joan Collins), a apresentadora Dinah (Adina Porter) e um casal que foi escolhido por possuírem DNA perfeito para a perpetuação da espécie, Timothy Campbell (Kyle Allen) e Emily (Ashley Santos) é obrigado a viver uma rotina difícil por causa das torturas psicológicas e físicas proporcionadas pela uma dupla de regentes sádicas, a líder Wilhemina Venable (Sarah Paulson) e sua assistente e braço direito, Miriam Mead (Kathy Bates), surge Michael Langdon (Cody Fern), um personagem icônico e misterioso e que será responsável por decidir quem irá permanecer vivo e quem será sacrificado.

E é quando descobrimos isso que a série muda completamente seu rumo. O primeiro crossover é realizado nesse momento, com o retorno das bruxas da terceira temporada. Os episódios seguintes abandonam completamente os personagens responsáveis por mover a trama no bunker subterrâneo do apocalipse e começa acompanhar as bruxas lideradas por Cordelia (novamente vivida por Sarah Paulson) na linha temporal do passado, com a finalidade de explicar os reais motivos causadores da guerra nuclear, bem como contextualizar a participação das bruxas durante esses eventos.


Sob a iminente ameaça causada pelo surgimento do Anticristo, o clã se reúne para organizar uma resistência em prol da sobrevivência da raça humana.  Uma adição ao cenário estabelecido em Coven, que englobava os membros do clã de bruxas e também os membros da organização das bruxas do vodu. surgem agora os feiticeiros, uma repartição masculina das bruxas que até então eram compostas apenas por mulheres.

Sentindo-se finalmente representados por um homem — nesse cenário, as mulheres, mais sensíveis a magia e, portanto, mais poderosas, são as únicas capazes de se tornarem Supremas, líderes inquestionáveis dos bruxos — os feiticeiros apoiam Michael como seu líder e o auxiliam em sua ascensão.

Segue-se então uma intricada trama que envolve personagens e locais apresentados em temporadas anteriores e esse é um dos grandes trunfos da série, pois, além de servirem como ótimos fã service, auxiliam em fechar pontas que haviam sido deixadas soltas no passado e que agora se completam de maneira bastante interessante. Além de nos fazer revisitar lugares que tanto emocionaram aos fãs e também rever personagens e até mesmo atores bastante queridos que não fazem mais parte ao elenco principal de American Horror Story, a tão aclamada participação da antiga musa da série, Jessica Lange, é sublime.


Um dos mistérios não revelados na primeira temporada se dizia a respeito do filho nascido de Vivien Harmon (Connie Britton) com o Rubber Man, a criança que no episódio final de Murder House, é responsável pela morte da sua babá. O mistério é revelado quando se descobre que a que a criança fora gerada por algo muito mais sombrio, uma cria direta do próprio Satã, e que se tratava do destruidor da raça humana, o próprio Anticristo em pessoa.

A partir daí, revemos mais personagens de Murder House, nos deparamos com outros conceitos e mais personagens estabelecidos em Coven e temos a oportunidade de revisitar o hotel amaldiçoado de Hotel. Apesar de não amarrar todas as temporadas, é interessante sentir a sensação de que tudo está conectado, apesar de personagens diferentes serem interpretados pelos mesmos atores (Sarah Paulson chega a interpretar três papéis diferentes na oitava temporada), essa realmente foi uma carta na manga.

Os recursos cinematográficos permanecem e, apesar de nem sempre funcionarem, servem como uma identidade de American Horror Story. A trilha sonora de Coven está de volta e se manifesta sempre que as bruxas precisam realizar algum fato, mas isso às vezes se apresenta como um problema, quando fica cansativo ver as bruxas caminhando em slow motion sob uma trilha especifica, e os movimentos de câmera, inclusive com seus plongées e contra plongées exagerados, planos sequência e planos holandeses. Uma vez que os conceitos de várias temporadas, cada uma com seus próprios estilos visuais, são interligadas, Apocalypse não possui uma única identidade visual e segue transitando conforme o enredo leva a história.


Com o típico final em formato de clifhanger, Apocalypse finaliza não com um adeus, mas sim, com um até logo. Basta saber se o elenco principal composto por Evan Peters (presente em todas as temporadas e uma marca carimbada da série) e Sarah Paulson, continuará no nono ano, o que pode decidir a prolongação da série, uma vez que os atores sempre foram o fator mais importante na obra. Percebemos isso na alegria ao rever Jessica Lange, cuja ausência é sentida até hoje.

AMERICAN HORROR STORY: APOCALYPSE
4.5

RESUMO:

Amarrando eventos de temporadas anteriores, American Horror Story: Apocalypse se estabelece como umas das melhores fases da série.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...