Por que ‘Thelma’, ‘A Bruxa’ e ‘Hereditário’ se afastam do clichê contemporâneo do terror?

Exageros de jump scares, trilha sonora para criar tensão, casas mal assombradas, viagens a cabanas no meio do nada, espíritos vingativos. Estes são alguns dos elementos mais vistos em filmes de terror contemporâneos. A maioria dos lançamentos não surpreende ao apostar em tramas simples com estruturas parecidas ao já existente.

Tem sido raro testemunhar, nos últimos anos, produções que fogem à regra, que inovam em sua composição. O que atestamos na realidade são muitas obras superficiais cujas histórias têm motivações fracas. Os fundamentos e critérios para os conflitos apresentados parecem não existir. O sobrenatural aparenta não ser mais suficiente para elucidar os acontecimentos que nos são expostos.

O óbvio tornou-se maçante. Como telespectadores, buscamos um quê a mais. Produções que possuem subtexto, ou seja, convidam-nos a perceber suas entrelinhas, destacam-se. Principalmente em um gênero que tem abrigado incontáveis clichês. Felizmente, pode-se citar algumas exceções que têm chamado atenção ao incorporarem temas mais profundos às suas narrativas.

Visto isso, três recentes nomes merecem notoriedade: A Bruxa (2015), Thelma (2017) e o recente Hereditário (2018). Nesses longas, sempre há um duplo sentido. O sobrenatural manifesta-se, mas o modo como é apresentado abre margem para outras interpretações. Instiga-se o telespectador com o seguinte questionamento: O inexplicável — o absurdo — realmente assume forma ou é apenas uma representação de sentimentos do personagem levados ao extremo?

Thelma (2017)

O medo como alegoria

Thelma, de Joachim Trier, conta a história de uma jovem (Thelma)que, ao se mudar para cursar faculdade, precisa se habituar a morar sozinha. Durante essa experiência, a garota descobre uma espécie de super poder que pode impactar tanto no ambiente quanto nas pessoas ao seu redor.

Distante da vigilância da família extremamente religiosa, Thelma começa a se descobrir (personalidade e sexualidade) e as sensações que experimenta a colocam em choque direto com o comportamento exigido por seus pais. Os desejos são representados por seus poderes que passam a ser temidos por ela. Principalmente ao sinal de um possível relacionamento homoafetivo com uma colega de classe.

Em uma das cenas, Thelma tem alucinações com uma serpente que a espreita. A imagem remete à clássica interpretação bíblica de Adão e Eva, ou seja, era como se o pecado estivesse sempre perto dela, que tinha um parâmetro religioso seguido durante toda sua vida até a adolescência. Thelma é sobre descobrimento e aceitação, o que é substancializado em suas habilidades peculiares.

Thelma (2017)

O segundo título, A Bruxa, de Robert Eggers, mostra uma família cristã que é expulsa de sua comunidade por sua fé divergir da permitida. Com isso, o casal com seus cinco filhos muda-se para um lugar próximo a um bosque. Um dia, o bebê recêm-nascido desaparece e a filha mais velha é acusada de bruxaria e responsável pela tragédia.

À época de seu lançamento, muitas pessoas demonstraram incômodo ao assistirem ao longa. Muito em razão do ataque direto à uma fé exagerada da família, que acredita que todos os males que a afeta são causados pelo demônio ou pela vontade de Deus. Essa crença, por sua vez, tira a responsabilidade deles próprios na tentativa de sobreviver naquele local. Neste ponto, o filme faz uma crítica à religião e ao mal que esta causou a indivíduos da época.

No entanto, a questão principal gira em torno da figura da bruxa. Aqui, bruxaria simboliza o desprendimento, a liberdade, iniciativa, valores completamente opostos aos pregados pelo casal. O terror é usado para tratar temas como ignorância e preconceito à mulher. Diante disso, a filha mais velha, Thomasin, revela-se de fato uma bruxa, mas por se desvencilhar dos julgamentos e preceitos religiosos de sua família e aceitar suas próprias vontades e verdades. Isto é exprimido pela cena final em que a garota junta-se a outras bruxas e consegue flutuar, uma alegoria ao, enfim, alcance de sua autonomia.

A Bruxa (2015)

Do mesmo produtor do longa anterior, Hereditário começa após a morte da matriarca de uma família. Depois do ocorrido, alguns acontecimentos estranhos tomam espaço na casa como se a vida de seus moradores fugisse de seu próprio controle (o que explicitado de forma belíssima pelos cenários, como se estes fossem maquetes e os membros fantoches manipuláveis).

Quanto mais acontecimentos bizarros acometem a família, mais nos perguntamos se de fato há algo sobrenatural ali ou se o luto e o trauma experimentado por ela estão materializados na entidade Paimon. O título “Hereditário” conecta-se, metaforicamente, com o histórico de doenças mentais passadas de geração para geração, com o temor da insanidade.

O verdadeiro tema do longa aborda cicatrizes familiares, tragédias e como cada personagem lida com esses traumas. O terror de “Hereditário” reside nos imprevistos da vida o sofrimento consequente disso.

Hereditário (2018)

A adrenalina e emoção características positivas do gênero continuam presentes em tramas como essas. No entanto, adicionadas a elementos extras que contribuem excepcionalmente para a construção de sentido da narrativa, envolvendo muito mais o público com o enredo.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"