Crítica | House of Cards: Robin Wright brilha, mas 6ª temporada é confusa e desastrada

Em março de 2011, a Netflix anunciou a produção de sua primeira série original para o streaming, o drama político House of Cards, que estreou em fevereiro de 2013. O prestígio adquirido com a produção de David Fincher, e o protagonismo de Kevin Spacey e Robin Wright, deram ao programa um status inovador e reconhecimento. Além da ousadia ao trazer astros do cinema diretamente para a TV, o streaming inaugurou uma nova era no modo como assistimos séries.

As duas primeiras temporadas foram responsáveis por moldar as principais características da série. Diálogos afiados, personagens atraentes, maquinações políticas, suspense e um ritmo lento mas nunca desinteressante fizeram com que cada um dos episódios se tornassem horas mais do que agradáveis, começando pela majestosa e imponente abertura. As temporadas que vieram a seguir foram mais irregulares, em especial a quinta, mas nunca indesejáveis. De uma forma ou de outra, estaríamos dispostos a conferir o fim da saga dos Underwoods na Netflix. Se você está aqui, é porque compartilhou comigo esse sentimento.

A essa altura, não é preciso falar sobre o escândalo sexual envolvendo Kevin Spacey. Sua má conduta, revelada à luz do dia, o tirou do Oscar, da série que ajudou a produzir e o colocou no ostracismo. Antes de mais nada, a culpa é exclusivamente dele, é bom que se diga. Porém, em que pese o imenso esforço que os roteiristas tiveram em recriar todo o cenário projetado para o desfecho de House of Cards, quem saiu perdendo foi o público, com uma história capenga, apressada e fora do eixo.


Analisando em perspectiva, a quinta temporada, entre erros e acertos, proporcionou um final que poderia ter servido como o fim da própria série. Claire ascendendo ao poder e mais uma tacada de mestre de Frank não poderia ser o melhor dos cenários para o fim, mas ao menos compreensível pelas circunstâncias. E seria melhor do que o desfecho apresentado nessa sexta temporada, que em oito episódios, teve apenas um lampejo dos bons dias da série no quinto capítulo.

Porém, já que a intenção era dar ao público um fim palpável, não há sentido algum em fazer com que uma temporada gire em torno da figura de alguém que sequer pode aparecer em flashbacks ou fotografias. Frank Underwood e o mistério em torno de sua morte se torna um dos temas centrais da temporada, que também foca nos dias da presidência de Claire Hale, agora com nome de solteira. Como se livrar do algo cuja intenção foi descartar, se a cada dez minutos, seu nome é citado? Isso apenas tornou maior o vácuo de sua ausência.

Tematicamente, a sexta temporada coloca a força feminina em foco, e isso é algo positivo. Claire está constantemente na mira dos críticos, a não faltam pessoas que queiram lhe manipular ou dizer o que fazer. O problema está em colocar Claire o tempo todo contra o sistema, mesmo que, curiosamente, esteja no topo da cadeia do mesmo. As situações são muito inorgânicas e os limites da conspiração são atravessados em diversos momentos. A maquinação política se torna um fiapo na história, que se concentra no suspense “que matou Frank Underwood” e se Claire vai sofrer ou não um impeachment (ou algo pior).

Chegamos então a figura dos Sheeperds, família poderosa que possui conexões antigas com os Underwwoods. O tema para a sua entrada não poderia ser mais atual. Um aplicativo cujo controle de dados dos usuários serve para manipular pessoas não chega a ser algo impensável. Porém, onde estava essa família o tempo todo nas cinco temporadas anteriores? Sabe-se que, por décadas, a família dos personagens de Greg Kinnear e Diane Lane manipulam a cadeira presidencial e se beneficiam. E onde eles estavam esse tempo todo? Aliás, onde foi para Raymond Tusk, esse sim, um civil bem mais interessante.

Se alguns personagens são ignorados, outros ganham espaço. Uns para o bem, outros, nem tanto. Patricia Clarkson e Boris McGiver tornam Jane Davis e Tom Hammerschmidt ótimos personagens em tela, mas a maneira como eles saem de cena é simplesmente ridícula. O mesmo pode se dizer da ótima Constance Zimmer, que acaba subaproveitada com a trama de Janine Skorsky.

Aparentemente sem ter muito o que fazer, Seth Grayson (Derek Cecil) sai diretamente da assessoria de imprensa de Frank para o núcleo dos Sheeperds. Embora este não fosse o personagem mais confiável, é sério que isso aconteceu? Ainda nesse núcleo do jogo duplo, Mark Usher (Campbell Scott) é tratado como uma espécie de Michel Temer versão sexy. A conspiração final, da qual ele participa, é praticamente uma metáfora de assassinato dos melhores dias da série. É uma vergonha alheia, para ser sincero.

Se há algo de bom, no entanto, é Robin Wright. A maneira como ela se dirige para a câmera, embora o recurso no início da temporada seja excessivo, é tão pungente como o jeito que Kevin Spacey se conectava com o público. Embora o roteiro, apressado em muitos momento, não jogue a favor da personagem, Wright, que foi uma das responsáveis por fazer essa temporada acontecer, carrega o que há de bom nas costas.

Porém, Doug Stamper é um desperdício total. Do início ao fim, o personagem de Michael Kelly parece perdido e seu propósito, que é proteger o legado de Frank (nem que para isso precise tomar as mais estúpidas decisões), sequer chega a ser justificado plenamente. Embora exista uma explicação para o “mistério” da temporada, e Doug esteja no meio dos principais temas da temporada o tempo todo, nada disso consegue ser satisfatório.

Pelo menos é possível ver novamente o presidente russo, Petrov. Honestamente, seria mais interessante ver um diálogo de uma hora entre Claire e o personagem de Lars Mikkelsen, ao assistir grande parte dos episódios dessa temporada.

No fim, a sexta e última temporada de House of Cards não chega a ser um desastre completo por conta das atuações, pelo design de produção sempre imersivo em recriar o ambiente da Casa Branca e por dar os fãs um desfecho menos aberto. Não é o que o público, e os criadores da série queriam. Mas é o que tem. Merecíamos mais, mas, pelo menos, como diria Claire Hale, “a dor acabou”.

HOUSE OF CARDS - 6ª TEMPORADA
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RESUMO

A sexta e última temporada de House of Cards sofre com a ausência de Frank Underwood justamente por não conseguir escondê-lo, enquanto se apressa para resolver outras tramas de forma inorgânica, embora Robin Wright dê conta do recado, sendo o que há de melhor no desfecho da série.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...