Crítica | ‘Millenium: A Garota na Teia de Aranha’: menos mistério e mais ação

Eis que surge mais uma adaptação dos livros da série Millenium, escritos por Stieg Larsson. As adaptações anteriores contavam com uma série de filmes suecos, além da versão hollywoodiana produzida por David Fincher.

É imprescindível que se mencione que tanto as versões suecas, quanto a versão de Fincher (que produziu apenas um dos títulos, Os Homens que Não Amavam as Mulheres) partiam de uma premissa de investigação, realizando thrillers complexos, com momentos reflexivos enquanto os personagens montavam minuciosos quebra-cabeças a fim de solucionar crimes. Porém, a nova versão, dirigida por Fede Alvarez, que vem de um ótimo histórico com o excelente O Homem das Trevas, entrega uma proposta completamente diferente com Millenium: A Garota na Teia de Aranha.

A Garota na Teia de Aranha acompanha Lisbeth Salander (Claire Foy), uma hacker com sérios problemas de socialização, que mantém uma vida de vigilante, atacando homens que agridem mulheres e protegendo-as como uma espécie de heroína, o que atrai a atenção da mídia como uma criminosa. É então que ela se vê envolvida com uma situação diferente de tudo que já viveu e é obrigada a se aliar ao seu antigo companheiro, o escritor Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason) para tentar evitar uma guerra nuclear (pasmem! Essa é realmente a premissa do filme).


Lisbeth precisa correr contra o tempo para enfrentar uma organização secreta chamada de “Os Aranhas”, composta por indivíduos marcados com tatuagens de aracnídeos e que portam seringas com diversos tipos de venenos. Os problemas aumentam quando Os Aranhas conseguem obter um firewall capaz de lançar mísseis nucleares em qualquer ponto do planeta com apenas uma espécie de laptop, ameaçando o nascimento da Terceira Guerra Mundial.

Se nos filmes anteriores, o ritmo era lento e o expectador precisava acompanhar as pistas coletadas pelos protagonistas, nesse capítulo, o mistério dá lugar a ação e Salander se mostra algo totalmente diferente do que já foi visto na personagem em todos os filmes anteriores. É incrível ver como ela está preparada e equipada para lidar com a organização secreta. Mas é aí onde está o problema do longa. Remetendo aos filmes de ação da década de 1990, ela se torna uma espécie de personagem de videogame (bastante semelhante ao recente “Watch Dogs”) quando é capaz de controlar qualquer dispositivo a partir de seu celular ou laptop.

Contrapondo-se completamente ao filme de Fincher, A Garota na Teia de Aranha se assemelha mais aos filmes de heróis da Marvel ou aos recentes capítulos da franquia 007 (impossível não fazer essa associação). Apesar de as cenas de ação não serem perfeitas, elas entregam momentos bastante divertidos. Inverossímeis muitas vezes, mas mesmo assim, bastante divertidos.


Interessante é quando o roteiro de David Lagercrantz nos mostra um pouco sobre o passado de Lisbeth, nos fazendo compreender as razões de ela ser a pessoa difícil que é. Outro fator bastante elogiável do filme é a vilã (Sylvia Hoeks) que possui um visual muito interessante com belos figurinos e uma atuação misteriosa, mas que também gera códigos significativos. Não é difícil criar empatia com essa personagem, mesmo ela cometendo atos tão cruéis. É possível entende-la, mesmo sem compactuar com seus atos.

Já quem deixa a desejar é o escritor Mikael, que não mais convence como o brilhante investigador do passado, apresentando dificuldades para chegar a conclusões extremamente óbvias da trama. Deixa de ser protagonista para dar lugar a mais um coadjuvante pouco expressivo e facilmente esquecível.

Mas o brilho do filme realmente está em sua protagonista. Apesar de suas habilidades de investigadora terem sido deixadas de lado, em contraponto aos seus atributos físicos, Salander está sempre em movimento, fazendo a trama agir. Seu pensamento rápido só surge quando está em momentos de ação, o que ela faz muito bem.  O problema é que a suspensão da descrença começa a ser ameaçada nesse ponto. O público que procura um thriller amarrado será perdido nesse momento, pois, para apreciar essa obra, é preciso deixar a verossimilhança de lado e abraçar o galhofa.


Outro fator que pende a balança a favor do filme é a atuação de Claire Foy, que com uma calma e uma certeza bastante pontuais, convence de que é uma heroína, mas também uma pessoa autêntica. Os eventos podem até ser ridículos e sem explicação, mas ela acredita neles e faz com que soem naturais, ou o mais próximo disso que elas possam parecer.

Millenium: A Garota na Teia de Aranha não possui o clima de mistério tão presente nos livros e nas adaptações anteriores, mas nem por isso é um filme ruim. Com cenas de ação interessantes e uma disputa entre Lisbeth e seu passado, trata-se de um entretenimento escapista e que dialoga bastante com os filmes de super-heróis que superabundam o cinema nos dias atuais.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...