Crítica | ‘O Mundo Sombrio de Sabrina’ é um reboot muito bem-vindo (Parte 1)

Trazer séries/filmes antigos de volta e dar a eles novas temporadas ou uma nova roupagem vêm se tornando cada mais recorrente. Tivemos diversos retornos, bons e ruins, de séries e filmes que causaram um fervor muito grande no passado, e muitos deles conseguiram conquistar seu espaço novamente nos dias atuais. “Sabrina, Aprendiz de Feiticeira” é a tentativa da vez e, felizmente, podemos dizer que a ideia de trazer algo tão icônico e popular dos anos 90 de volta foi certeira e mais do que bem-vinda. O Mundo Sombrio de Sabrina

Diferente da série dos anos 90, O Mundo Sombrio de Sabrina resolveu seguir uma abordagem mais próxima a das HQs, publicadas pela Archie Comics (mesma editora que deu vida à Riverdale). Nas HQs, a história possui uma forte influência do terror, enquanto a antiga série focava em dar uma abordagem mais leve à personagem e sua história.

Para quem não conhece, a trama irá girar em torno de Sabrina Spellman (Kierman Shipka), jovem meia bruxa e meia humana que, próxima ao seu aniversário de 16 anos, se vê obrigada a decidir se irá manter sua vida normal em convivência com os humanos, ou se irá seguir pelo lado das trevas, focando-se totalmente à sua parte bruxa. A atriz encarna perfeitamente a personalidade forte e justiceira que a personagem possui. Sabrina toma muitas decisões precipitadas para ajudar a quem ama, e são essas decisões que movem a trama.

É interessante notar a forma como a série discute a dúvida da personagem em relação à escolha que deve tomar. Ao mostrar o lado bruxo de Sabrina, o terror entra em cena, e quando foca em seu lado humano, o tom dado é mais leve e descontraído. Há muito o que perder independente da decisão que ela escolher tomar, e a série mostra muito bem o peso que essa escolha possui.

Porém, não é de se surpreender que os melhores momentos são reservados para quando o foco é colocado na magia e no mundo bruxo. São nessas horas que o terror se destaca, e mostra que a série não é um produto bobinho feito somente para adolescentes. Sim, é notável que o público alvo seja de uma faixa etária menor, mas ao inserir o terror na trama, a série ganha um peso a mais. Ela não dispensa cenas de exorcismo, rituais, sangue e imagens bizarras em tela. O terror ajuda a contar a história e é usado para desenvolver os personagens, como é o caso do tão discutido episódio 5, que é inteiramente passado dentro dos sonhos de alguns personagens nos mostrando um pouco mais de seus maiores medos. Vale ressaltar as diversas referências à filmes do gênero que vão desde “A Morte do Demônio” até “A Bruxa”.

É mais nítido ainda a alta qualidade que a série possui ao focar no mundo bruxo, quando notamos os personagens inseridos neste mundo. As tias de Sabrina, Hilda (Lucy Davis) e Zelda (Miranda Otto) possuem uma dualidade e até mesmo rivalidade incrível e se destacam toda vez que entram em tela. É divertido acompanhar a personalidade completamente diferente de cada uma delas, e o que cada uma representa na vida de Sabrina. Enquanto uma é mais pé no chão e defende a base de unhas e dentes a escolha de sua sobrinha em escolher o lado bruxo, a outra é mais “liberal” e dá mais liberdade à Sabrina a ser quem ela realmente quer ser.

Isso se assemelha bastante à Ambrose (Chance Perdomo), primo de Sabrina, que possui um pouco dos pensamentos de cada uma das tias e a ajuda em muitos momentos de sua trajetória. O personagem traz uma discussão sobre homossexualidade pouco vista em séries ou filmes ultimamente, em que ser gay não é algo mostrado desde os princípios da aceitação até o momento em que já se é uma pessoa resolvida consigo mesma. Aqui, Ambrose é abertamente gay desde o início da série sem passar pelo processo de aceitação comum em produtos audiovisuais.

Trazendo o gancho de Ambrose é que podemos discutir a presença do icônico gato Salem. Ele não fala, diferente da antiga série, o que pode causar um desapontamento em parte do público. O gato está presente em muitos momentos da vida de Sabrina, mas o papel que ele tinha e o apoio que ele dava à personagem é visto, muitas vezes, por parte de Ambrose. Parece uma troca de papéis que funciona muito bem.

Ao se tratar dos vilões, a Sra. Wardwell (Michelle Gomez)é um show à parte. Todo seu charme, elegância e presença em tela é enorme. A atriz rouba a cena para si todas as vezes em que está presente, e é uma tarefa (quase) impossível desgostar da personagem. Há um mal maior que ronda a história e é o que coordena todos os atos da vilã, mas, ao mesmo tempo, a presença de Michelle Gomez com toda sua elegância não nos faz sentir falta e ansiar pelo mal maior que está por vir.

Ao mesmo tempo em que os arcos e personagens do mundo bruxo funcionam muito bem, o mesmo não pode ser dito dos que estão presentes no mundo dos humanos. Os amigos de escola de Sabrina não possuem a mesma força, e quando a série dá atenção a eles o texto fica cansativo e arrastado por mais que alguns assuntos discutidos sejam relevantes. O único que se sobressai é Harvey (Ross Lynch), namorado de Sabrina. O relacionamento entre os dois possui uma grande importância ao longo dos 10 episódios, além de sua história paralela com sua família ser uma das poucas do mundo humano que se destaca.

Quando se chega ao final dessa primeira parte de O Mundo Sombrio de Sabrina, o saldo recebido é extremamente positivo. Os ganchos deixados para a segunda parte, que já está gravada, atiçam a curiosidade do público. É um bom início para uma versão de Sabrina mais atual e empoderada que, com certeza, vai te assustar e fazer rir da melhor forma possível. E, quem sabe, por se passarem no mesmo universo, temos um crossover entre Sabrina e Riverdale vindo por aí. Seja muito bem-vinda, Sabrina Spellman!

O MUNDO SOMBRIO DE SABRINA
4

RESUMO:

Com uma excelente protagonista e uma forte influência do cinema de terror, O Mundo Sombrio de Sabrina funciona ao focar na magia e mundo bruxo, e derrapa ao mostrar o mundo dos humanos.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.