Crítica | ‘A Maldição da Residência Hill’ é uma obra de arte assustadora da Netflix

Uma das séries mais recentes lançadas pela Netflix, A Maldição da Residência Hill chegou bastante tímida, daquelas séries que ninguém conhece ou sabe qualquer coisa sobre. Contudo, ela se tornou uma das mais comentadas e elogiadas em um período extremamente curto de tempo, fato este que por si só, já é algo digno de nota, uma vez que a premissa da minissérie é baseada em um assunto bastante clichê.

Não há um expectador que acompanhe o gênero de filmes ou séries de terror, que nunca tenha assistido obra que se passe na velha mansão mal-assombrada e A Maldição da Residência Hill trata exatamente disso. Nada mais justo, aliás, uma vez que o próprio nome da série seja composto pelo tema. De fato, os primeiros momentos da série se mostram como mais uma história sendo estabelecida com recursos visuais e narrativos que se encontram extremamente saturados pelo mercado. Contudo, é aí que está o trunfo da minissérie, pois quando se mostra além do clichê, ela surpreende. E surpreende muito.

O primeiro fator a ser apontado é que A Maldição da Residência Hill não tem como foco principal a mansão que dá o nome da série. Não que ela não seja importante. De fato, ela o é, a ponto inclusive, de poder ser considerada como um personagem da série em si. Contudo, a mansão não faz parte dos personagens principais. O protagonismo da obra está na família Crain. Não existe uma exclusividade sob o ponto de vista de um personagem específico, mas sim, os eventos são narrados sob os pontos de vista de todos os membros da família e, arrisco a dizer, mais especificamente, sob o ponto de vista das crianças.

É interessante lembrar que a série aborda duas linhas temporais distintas, uma que acontece na década de 1980, acompanhando um casal e seus filhos cujas idades variam de crianças à adolescentes e cerca de trinta anos depois, com os irmãos já adultos.

Na maioria dos filmes e séries de terror, o foco principal da narrativa está no evento assustador em si. Contudo, essa série aposta no ‘depois’. Ou seja, nas consequências dos eventos aterrorizantes. E todas as crianças, os filhos, se tornaram adultos que carregam, cada um à sua maneira, as consequências dos eventos na residência Hill.

Na década de 1980, conhecemos uma família bastante distinta da que acompanhamos na linha temporal do presente. Somos apresentados à Hugh (Henry Thomas), o pai de família, um empreiteiro de obras que tem a tendência a ‘consertar’ coisas, sejam reformas a serem realizadas na casa ou os próprios problemas que a família sofre e precisam ser consertados; sua esposa Olivia (Carla Gugino), uma design bastante talentosa, mas que sofre com problemas de depressão e alucinações; Steven (Paxton Singleton), o filho mais velho e sempre prestativo na ânsia de se tornar um adulto forte e esperto como o pai; Theo (Mckenna Grace), uma menina com a estranha habilidade de sentir os sentimentos das outras pessoas por meio do toque físico, algo que faz com que ela tenha que usar luvas o tempo todo e desenvolva sérios problemas para interagir com as pessoas; Shirley (Lulu Wilson), uma garota forte por fora, mas sensível por dentro; e os gêmeos, Luke (Juliand Hilliard) e Nell (Violet McGraw), que dividem seus sentimentos e são sem dúvida, os mais sensíveis da família.

Na linha do tempo do presente, vemos um Hugh (Timothy Hutton) mais velho, com sérios problemas para lidar com a paternidade e que conversa sozinho, depressivo e sem esperança, que tenta de todas as formas que encontra, unir novamente os resquícios de sua família; Steven (Michiel Huisman), já um homem de meia idade, que mantém a carreira de escritor que conseguiu após publicar (a contragosto dos irmãos) um livro baseando-se nos eventos traumáticos sofridos durante a infância. É interessante mencionar que Steven não acredita em fantasmas e tenta explicar de maneira científica todos os problemas que sua família enfrentou no passado.

Theo (Kate Siegel) cresceu como uma mulher fechada a contatos sociais e vemos isso refletido em seus relacionamentos, os quais ela literalmente usa suas parceiras apenas para o sexo. Ela ainda calça luvas e evita tocar as pessoas para não ser obrigada a ler seus pensamentos e sentimentos; Shirley (Elizabeth Reaser) talvez tenha sido a pessoa que mais se endureceu durante os anos. Com um muro metafórico em volta de si, ela é capaz, inclusive, de preparar o cadáver de sua irmã para o velório; Já os gêmeos, permanecem como os mais abalados pelos eventos traumáticos na residência Hill. Nell (Victoria Pedretti) se encontra em avançado estado de depressão e isso – bem como outros fatores a serem explorados ao longo dos episódios – acaba por levá-la a cometer suicídio (logo no primeiro episódio), já Luke (Oliver Jackson-Cohen) é dependente de drogas e não consegue se manter sóbrio.

Conexão com os personagens

É muito fácil se importar com esses personagens, tamanho é so carisma de cada um deles, e isso se deve a duas coisas. Primeiro, a incrível sensibilidade do roteiro, que proporciona momentos bastante pontuais para que o público possa conhecer intimamente esses personagens e a complexidade que cada um possui, não há personagens rasos. E o segundo fator, se deve às brilhantes performances que os atores entregam. Há um incrível trabalho de preparação e direção de atores e isso não fica apenas com os profissionais veteranos, mas também se estende ao núcleo infantil. Os atores mirins entregam tudo que seus personagens pedem, sem apresentar crianças chatas – algo muito comum quando não se acerta no tom ao trabalhar com personagens infantis – e sim, crianças reais, que choram, riem, brincam, sentem medo, ficam tristes.

Apesar de todo esse desenvolvimento de personagens, é imprescindível que também se mencione os fatores sobrenaturais que a série apresenta. A residência Hill é extremamente misteriosa e em seus cantos escuros, coisas surgem para observar seus moradores. A aparição dos fantasmas é sempre bonita de se ver, com efeitos práticos e digitais sempre bem empregados, especialmente em se tratando de uma série para a TV e não um longa-metragem de Hollywood.

As maquiagens artísticas são outro trunfo que a minissérie tem na manga e são absurdamente lindas (pelo menos no que se pode chamar de bonito em se tratando de maquiagens retratando mortos vivos e fantasmas). Ainda nos aspectos técnicos, é importante ressaltar o nível de produção de A Maldição da Residência Hill. Sem dúvida, não é uma série barata. As cenas são sempre bem iluminadas e a direção de arte é fantástica, aspectos esses que, quem entende de cinema, sabe que são bem caros.

A direção de fotografia é impressionante e entrega uma paleta de cores diferente para cada linha temporal, para separar quando está acontecendo o quê. Nas cenas do passado, as imagens são mais quentes e coloridas, mas na linha temporal do presente, tudo é mais frio e com menos cores, com exceção do azul, que predomina em quase tudo. Isso é interessante, pois ressalta o sentimento dos personagens. No passado, tanto os pais quanto as crianças eram inocentes, ainda não haviam conhecido o mal e permaneciam cheios de esperança e otimismo. Já no presente, a esperança se foi e quem reina é o pessimismo. Na infância, os irmãos eram bastante unidos, mas na fase adulta, apesar de ainda nutrirem sentimentos fortes em relação a uns aos outros, o orgulho e as mágoas os tornaram duros e distantes.

Uma série que trabalha com duas linhas temporais e que funciona, precisa de uma montagem bem planejada e bem executada e nisso, a série não deixa a desejar. A edição é fluída, bem acertada e bastante orgânica. Apesar de sempre sabermos em que linha temporal nos encontramos, os cortes são suaves e não tiram o expectador da história.

No episódio 6, somos presenteados com um incrível plano sequência que dura vários minutos e é simplesmente lindo de se ver. A cena começa em um velório e a câmera vai passando de personagem para personagem, com os atores falando diálogos extremamente complexos e com cargas dramáticas bastante significativas. E a câmera não para. Ainda nesse plano sequência, vemos fantasmas nos cantos da tela, temos sustos ao estilo de jumpscare, mudança de cenário, mudança nos tons das cores, saltos temporais e tudo isso sem cortes aparentes. É importante mencionar que nesse plano sequência, os atores mirins também aparecem, o que por si só, já potencializa (e muito) o desafio de realizar uma cena sem cortes.

Com uma história bastante poética, em que passado e presente dialogam o tempo todo, inclusive com um aspecto espaço-tempo que faz com que fatos do passado se repitam no presente, A Maldição da Residência Hill nos proporciona uma linda experiência que fará com que o expectador sofra, se emocione, mas também que possa rir juntamente com os personagens e finalize o último episódio com um sorriso no rosto e ótimas lembranças da família Crain.

5

RESUMO:

Com uma história assustadora e sombria, mas que ao mesmo tempo flerta sobre a importância da família, A Maldição da Residência Hill é sem dúvidas, uma obra de arte.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...