Crítica | ‘Bohemian Rhapsody’: Rami Malek brilha em tributo ao Queen e Freddie Mercury

Do início ao fim, Bohemian Rhapsody estabelece uma conexão visceral com o rock do Queen e a extravagância de Freddie Mercury. Sem se aprofundar em questões pessoais mais complexas, o longa chega aos cinemas para reverenciar uma lenda do rock e celebrar uma das maiores bandas de todos os tempos, sem ter muito o que inovar em termos estéticos ou narrativos.

O filme traça a ascensão meteórica do Queen através de suas canções icônicas e som revolucionário, o estilo de vida fora de controle de de Mercury, e sua reunião triunfante na véspera do Live Aid, onde o cantor, enfrentando uma doença fatal, levou a banda em uma das maiores performances da história do rock.

O título do filme se refere a canção homônima, considerada um dos maiores clássicos do rock. Para os fãs da música e do rock n´roll, o longa é um deleite. O surgimento de vários sucessos da banda, em suas primeiras notas musicais e linhas de baixo e guitarra são mostrados, em uma espécie de fã service que agrada em cheio qualquer amante da voz única e explosiva do cantor e da lendária banda. É como se estivéssemos vendo números musicais, e eles são muitos, por vezes, até repetitivos.

Responsável por protagonizar a cinebiografia, Rami Malek transcende no papel principal da produção. Incialmente, a composição visual causa uma certa estranheza, principalmente por causa dos seus dentes. No entanto, a medida em que o filme avança, vemos o ator cada vez mais a vontade no papel, com trejeitos e performances incríveis. Se o filme possui algo memorável e marcante, com certeza é esta atuação. Nem mesmo o fato de grande parte das músicas serem dubladas tiram o brilho da interpretação, beneficiada por uma boa edição.

A sinopse do filme define Freddie Mercury como um artista que desafiou os estereótipos e quebrou as convenções para se tornar um dos artistas mais amados do planeta. De fato, Bohemian Rhapsody se trata muito mais do Freddie artista do que do Freddie homem, pois tudo o que é mostrado no campo pessoal do cantor possui uma consequência direta no território artístico. A relação familiar é brevemente explorada e os romances são desbalanceados. Quando a banda, o filme parece se preocupar mais em celebrar a carreira da banda e do artista, indo pouco a fundo em questões verdadeiramente conflituosas.

Há, portanto, uma preocupação constante em defender o legado artístico do cantor, mas ele é eficiente nesse quesito. Porém, em alguns momentos, outros personagens se tornam mais uma muleta, além dos integrantes da banda, que se parecem mais com uma réplica dos músicos do que realmente personagens com desenvolvimento. Joseph Mazzello, Ben Hardy e Gwilym Lee interpretam os integrantes da banda: o baixista John Deacon, o bateirista Roger Taylor e o guitarrista Brian May – perfeitamente caracterizado -, respectivamente.

A polêmica em torno da direção do filme fez com que Bryan Singer fosse substituído por Dexter Fletcher. Felizmente, o filme não possui visões distintas de dois diretores. Não há diferença no que diz respeito ao estilo e a projeção possui coesão. O longa possui uma fotografia que passeia pelas décadas em que o Queen atuou, indo do alaranjado dos anos 70 a um azulado mais oitentista. Nos momentos em que Freddie se encontra só, tons mais escuros e sombras remetem aos momentos de conflito interno do protagonista.

Porém, o roteiro de Anthony McCarten (A Teoria de Tudo) segue a fórmula convencional de cinebiografias, sobretudo as musicais. A fluidez na passagem de tempo nem sempre é sentida, a não ser pela mudança de visual dos personagens. A preocupação se dá mais em mostrar, sequencialmente, a trajetória da banda e de Freddie, no que se refere ao surgimentos dos sucessos do grupo, o estilo de vida do cantor e sua reunião mais marcante. Há um clima leve durante o filme, com boas sacadas de humor inclusive. O drama é suficiente para arrancar algumas lágrimas, e se a produção fosse um pouco mais além, haveriam soluços. Contudo, um fã mais ávido da banda poderá se emocionar do início ao fim.

O romance entre Freddie Mercury e Mary Austin (Lucy Boynton) é bastante presente no filme. O longa deixa claro que esse relacionamento amoroso é muito importante para ele, baseando-se mais no companheirismo e confiança, evidenciando constantemente a inclinação sexual do cantor ao bissexualismo. E isso não é nenhuma novidade para quem conhece a fundo a carreira do cantor. Porém, quando vai tratar de seus parceiros, como Jim Hutton, com quem Freddie viveu até o fim de sua vida, o filme se torna tímido e apenas insinuante, oferecendo poucos vislumbres de uma verdadeira intimidade.

Rami Malek na primeira imagem divulgada como Freddie Mercury

Por uma escolha narrativa, o que seria o ponto mais dramático na vida de Freddie não é algo que entra na projeção. O Live Aid é o ápice do filme e não há caracterização dos últimos anos de vida do cantor, já bastante debilitado por conta do vírus HIV. O longa toma, também, algumas liberdades criativas para compor a narrativa, e o fã mais atento do Queen pode perceber alguns problemas em relação a cronologia, mas que não comprometem o intuito principal do filme, que é defender o legal artístico do cantor, e da banda.

Enquanto filme, Bohemian Rhapsody se ressente da falta de um enredo mais ousado. No entanto, como tributo, o longa é capaz de emocionar fãs do Queen, de Freddie Mercury e amantes de rock. A emoção é garantida e o cinema, de tempos em tempos, proporciona essa viagem ao encontro de ídolos que marcaram época.

BOHEMIAN RHAPSODY
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RESUMO

Feito para celebrar uma das maiores bandas da história e seu incomparável vocalista, Bohemian Rhapsody é uma celebração ao Queen e a lenda Freddie Mercury.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...