Crítica | ‘Em Chamas’: drama e mistério em mais um bom filme de Lee Chang-Dong

Após 8 anos de espera, Lee Chang-Dong chega com seu novo projeto, que é dado como o representante da Coréia do Sul no Oscar 2019. Em Chamas entrega as melhores características do diretor, que sempre nos presenteia com filmes de longa duração, mas, dessa vez, a duração é um problema a ser colocado em pauta. Dividido em duas partes, o diretor tenta trazer dois filmes em um só, que poderiam facilmente funcionar melhor se fossem cortados trinta minutos das duas horas e trinta minutos de duração.

Ao reencontrar e se relacionar com uma antiga vizinha de infância, Jong-soo (Yoo Ah In) fica encarregado de cuidar de seu gato enquanto ela faz uma viagem à África do Sul. Ao retornar, Hae-mi (Jong-seo Jeon) volta acompanhada de Ben (Steven Yeun, o Glenn de The Walking Dead), um misterioso homem que irá virar a vida de Jong-soo de ponta cabeça e inseri-lo em um triângulo – quase – amoroso.

Com apenas 3 personagens em tela, o diretor cria um clima de suspense e mistério que é facilmente desvendado pelo espectador. Não há muito o que esconder, tudo é facilmente descoberto pelos mais atentos, mas, ainda assim, não quer dizer que o previsível seja ruim. Lee Chang-dong sabe da restrição de atores em tela e trabalha muito bem o desenvolvimento do mistério mesmo com a revelação final já esperada. O clima de tensão perdura a toda a segunda metade do longa.

Porém, se a segunda metade é repleta de tensão, a primeira foca na monotonia. Vemos o relacionamento de Jong-soo e Hae-mi crescer, mas sempre com uma pulga atrás da orelha pois o clima deixado é de desconforto, e de que algo muito ruim está para acontecer. Parece que o diretor queria cumprir com sua tradição de filmes longos, e colocou diversas cenas vazias para complementar na longa duração. Poderiam ser facilmente cortados trinta minutos do que foi mostrado que a mensagem e a tensão passada na segunda metade seriam as mesmas.

Mesmo exagerando na duração, o filme consegue trazer uma fotografia excepcional, e uma das cenas mais bonitas vistas em 2018. A sequência em que Hae-mi dança em frente ao pôr do sol, e ao muro de divisão da Coréia do Sul com a Coréia do Norte é poderosa e marcante. O diretor insere diversos aspectos sociopolíticos e tenta abordar vários assuntos que não se tornam rasos e nem desnecessários.

O protagonista, entretanto, é o que menos causa empatia. Sempre parecendo perdido, ou avoado, ele demora para acordar e mostrar ao que veio. Diferente de Ben, por exemplo. O personagem, do minuto que entra em tela, até o minuto em que sai, esbanja mistério e desconforto com o carisma sempre presente. Hae-mi também se sobressai bastante conquistando o espectador desde o início.

Ao fim, Em Chamas é um ótimo filme, repleto de suspense em sua segunda metade, mas que demora a engatar. Poderia se beneficiar com uma duração mais curta, mas ainda assim, é um grande filme, previsível em alguns momentos, mas nunca deixando a complexidade de lado.

EM CHAMAS | BEONING
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RESUMO:

Em Chamas entrega as melhores características de Lee Chang-Dong, que sempre nos presenteia com filmes de longa duração.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.