Crítica | ‘Roma’: Alfonso Cuarón apresenta um filme intimista, devastador e apaixonante

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, Roma é o primeiro filme de Alfonso Cuarón a ser lançado diretamente na Netflix. Muito foi discutido sobre essa decisão do diretor. Houve polêmicas em relação a prêmios, pois ainda há conversas sobre filmes originais Netflix merecerem espaço em premiações. Porém, uma coisa é certa: o filme conseguiu superar todo esse burburinho em volta de seu lançamento na plataforma de streaming, e conquistou a crítica em todo os festivais em que foi exibido. Muito merecidamente, inclusive.

Cuarón entrega seu melhor e mais intimista trabalho até então. Ele contará a história de Cleo (Yalitza Aparicio), mulher indígena que trabalha como empregada doméstica e babá em uma casa de família de classe média de Roma, bairro da Cidade do México. Ela divide seu tempo entre cuidar das várias crianças de diferentes idades, da limpeza, e de sua vida pessoal. O filme não tenta correr em nenhum momento com a narrativa, sempre mantendo o ritmo lento e contemplativo.

A câmera do diretor é excelente ao trazer uma visão panorâmica do ambiente. Quase nunca vista parada, ela circula da direta para a esquerda, vice-versa e em círculos. Essa técnica traz uma imersão muito maior ao nos colocar dentro daquele cenário e nos mostra todos os mínimos detalhes presentes em cena.

A fotografia em preto e branco complementa e aumenta a já excelente qualidade técnica do filme. É impressionante notar o talento do diretor de não só dirigir, como também fotografar, escrever e produzir o filme. Tudo veio de sua mente e esforço, e o resultado não poderia ter sido melhor. Ele se projeta na história que é dita, por ele mesmo, como uma homenagem à sua infância. Por esse motivo, Cuarón deixa o filme poético, bonito, e até mesmo épico. Tudo está ali por um significado maior, até uma pequena cena, que por mais insignificante que pareça ser, possui algo a dizer. É uma verdadeira obra-prima que o cinema pouco vê ultimamente.

Acompanhar a história de Cleo se torna instigante e doloroso conforme vemos ela se encontrar uma situação que, infelizmente, é muito comum. A personagem é tratada com delicadeza, mesmo em seus momentos mais fortes. A cena que ilustra o cartaz do filme com ela e as crianças abraçadas em uma praia é de partir o coração. Mas é interessante notar os pequenos detalhes que Cuarón coloca em tela para exemplificar a relação próxima, mas ainda assim, afastada que Cleo possui com a família. Por exemplo: ela limpa o telefone com o avental após atende-lo antes de passa-lo para sua patroa. São pequenos detalhes que mostram o distanciamento que ela possui com seus patrões mesmo sendo dito várias vezes que ela faz parte da família.

Ao final, Roma é uma experiência cinematográfica imersiva, surpreendente, tocante e avassaladora. Não espere explicações fáceis, ou um ritmo acelerado. A intenção não é essa. A experiência se dá pelo ritmo contemplativo, e a lentidão que a história é contada de forma que você se sinta imerso naquele mundo, para depois sentir o baque que a vida real consegue ter. Ao mesmo tempo que é uma escolha duvidosa lançar este filme diretamente na Netflix, ela tem pontos positivos, que assim mais pessoas poderão ter contato com a história de Cleo, e talvez, quem sabe, serem tocadas pela sua história. Afinal, difícil mesmo é sair desse filme sem se sentir impactado por algo mostrado.

ROMA
5

RESUMO:

Intimista, devastador e apaixonante, “Roma” é o melhor e mais pessoal trabalho de Alfonso Cuáron.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.