Crítica | ‘O Primeiro Homem’: Neil Armstrong vai à lua, mas sem muita empolgação

Após os grandes sucessos de Whiplash e La La Land, Damien Chazelle resolve deixar um pouco da temática de jazz, sonhos e música de lado para assumir a direção de O Primeiro Homem – a história do famigerado Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na lua. Diferentemente de seus trabalhos anteriores, não apenas por conta da temática, o diretor nos traz uma história sem a paixão que seus antecessores possuem.

Enquanto uma grande parcela de filmes de ficção científica foca na missão de estar no espaço, Chazelle nos traz uma abordagem mais pessoal de seu protagonista. Neil Armstrong não é unicamente um astronauta da Nasa, ele também é um marido, um pai e um amigo querido. Esse fator poderia facilmente se tornar um ponto positivo na história, se não fosse jogado de uma maneira tão rasa. Há uma construção eficaz de dramaticidade em questão da perda da filha de Armstrong nos primeiros minutos de projeção, mas não vai além.

O roteiro assinado por Josh Singer (Spotlight, The Post) e pelo estreante James R. Hansen, que além da falha tentativa de nos aproximar de Armstrong, torna a grande história da corrida espacial em duas horas e 20 minutos maçantes que consegue ser qualquer coisa, menos estimulante. Apesar de já sabermos o que vai acontecer no final, o filme parece totalmente sem um direcionamento definido, e pior; não consegue envolver em nenhum dos acontecimentos que ele abre.

Tentando convencer como Neil Armstrong, esse definitivamente não é o melhor papel de Ryan Gosling. Mesmo que o roteiro não ajude, tampouco o ator inexpressivo consegue nos transmitir seus sentimentos. Ao começo do filme, sabemos que sua filha morreu de câncer e que Armstrong está em dor, mas isso basicamente tem que servir de justificativa pelos restante de suas ações ao longo do filme. Não há motivo para o desprezo que ele trata seus filhos e sua esposa, por exemplo, os quais ainda se mostram completamente passivos. Por mais que Claire Foy esteja excelente, ela acaba sendo desperdiçada por estar ali apenas assumindo o papel de “esposa do Neil Armstrong” que o roteiro propôs.

Ainda, o estilo de câmera na mão é muito interessante quando bem utilizado, o que não é sempre o caso aqui. Há cenas em que essa estratégia serve de forma eficiente, como quando Armstrong está dentro de uma espaçonave; porém, falha durante uma cena de funeral. Cenas na sede da Nasa são filmadas dentre vários zooms no rosto dos personagens sem expressão alguma, no estilo do seriado de comédia The Office. Por vez, a impressão é que o diretor está confuso sobre seu próprio estilo.

O único aspecto realmente bom do filme é resultante da ótima trilha sonora composta por Justin Hurwitz, que também participou dos trabalhos anteriores do diretor. O som é o principal componente que dá o ar de grandiosidade ao filme, e provavelmente, já tem sua indicação no Oscar do próximo ano garantida.

Ao fim, o filme ainda tenta convencer com imagens marcantes de Neil Armstrong finalmente chegando à lua, usando estratégias de som e silêncio na tentativa de causar impacto. Claramente, são imagens bonitas em combinação com uma técnica de som que alcança um bom resultado, porém, em uma história em que falha na falta de um tom mais instigante, não chega a causar a imensidade que poderia ter tido, assim como a mensagem que o filme tenta passar.

Em uma biografia, tendemos a conhecer o personagem, seu trabalho, e temos mínimo de conhecimento em relação à personagens secundários. Em O Primeiro Homem, no entanto, não temos nem a síntese nem a profundidade necessária. O simples trajeto de Andrew para chegar na apresentação final em Whiplash acaba sendo muito mais empolgante do que o grande percurso de Neil Armstrong até a lua.

O PRIMEIRO HOMEM | FIRST MAN
3

RESUMO:

Sem o brilho de seus projetos anteriores, Damien Chazelle traz em O Primeiro Homem uma história que não impressiona tanto quanto deveria.

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Rafaella Rosado

Jornalista em formação e apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível ver todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é uma forma de viajar e conhecer outras realidades sem sair do lugar.