A epopeia do fracasso em ‘Os Últimos Jedi’

Análise do filme Star Wars: Os Últimos Jedi. Contém spoilers.

Lançado no final do ano passado, Os Últimos Jedi, dirigido por Rian Johnson, foi um filme polêmico, dividindo o fã clube da saga de Star Wars. Muitas pessoas discordaram do rumo em que a história tomou e alguns grupos de fãs chegaram a exigir que o filme fosse refeito, segundo os próprios caprichos.

De fato, Johnson foi corajoso, fugindo de uma narrativa óbvia e previsível, como a do Despertar da Força (2015). Os personagens escaparam da clássica abordagem maniqueísta e adquiriram uma complexidade mais ampla. Desde o início do filme há uma narrativa trágica, com inúmeros sacrifícios da nova Aliança Rebelde, liderados por Leia (Carrie Fisher). Durante toda saga nunca se viu o grupo rebelde em uma situação tão crítica, caindo implacavelmente em uma armadilha da Primeira Ordem.

Logo no começo do filme temos uma grande surpresa: a transformação radical de Luke Skywalker (Mark Hamill) é, talvez, o ponto mais criticado do filme por parte dos admiradores da saga, porém a sua melhor atuação é o ponto chave do filme. O próprio ator recriminou bastante a mudança brusca na personalidade do velho mestre Jedi. Entre o final de O Retorno de Jedi e a nova trilogia, se passaram mais de 30 anos. Mark Hamill em teve dificuldade caracterizar o personagem, pois teve que imaginar o que poderia ter ocorrido com o Luke para que algo o tivesse modificado tanto.

Depois de Rey (Daisy Ridley) entregar o sabre de luz de Luke, ele o arremessa para longe. A moça confusa não se conforma com a atitude inexplicável do velho mestre e o pede para ajudar a rebelião como nos velhos tempos. Novamente, Luke nega ajuda e diz que não irá combater a Primeira Ordem com o seu sabre. Ao questionar a moça sobre o real motivo de sua busca, ela revela que quer ser treinada, mais uma vez o mestre Jedi recusa ajuda-la.

Depois de reencontrar seu antigo dróide R2-D2 na Millenium Falcon, este convence Luke a treinar Rey, após mostrar para ele o antigo holograma em que Leia pedia ajuda a Obi-Wan Kenobi, clássica cena de Uma Nova Esperança (1977). O errante mestre propõe à aspirante a Jedi um treino de 3 lições e o motivo pelo qual a Ordem Jedi deveria sumir do Universo.

Diferente de Obi-Wan, o gentil mestre que o iniciou na Força, Luke é amargo e sarcástico, debocha da ignorância de Rey, apesar de seu enorme poder. O mestre se tornou outra pessoa, decepcionado com a Ordem Jedi, ele a crítica duramente e defende a sua extinção. Luke relembra brevemente a derrocada dos Jedi, segundo ele, estes cavaleiros se perderam na própria arrogância e no poder conquistado e assim permitiram o aparecimento de Darth Sidious, Palpatine, que após massacrar quase todos os Jedi, intitula-se imperador da galáxia, por cerca de 20 anos. Essa história é melhor narrada na Vingança dos Siths (2005), episódio III.

Enquanto isso, o esquadrão rebelde se esforça em sobreviver aos ataques maciços da Primeira Ordem que consegue persegui-los graças a uma tecnologia nova de rastreador. Mesmo os rebeldes viajando na velocidade da luz, a Primeira Ordem se mantém próxima e dizimando ao poucos os rebeldes.

Em um momento, Kylo Ren (Adam Driver) e alguns de seus pilotos atacam a frota inimiga .Kylo sente sua mãe dentro da nave, apesar de hesitar em atirar, seus homens destroem o compartimento em que ela estava. Leia com a suas últimas forças consegue utilizar um poder Jedi para sobreviver e consegue flutuar em pleno espaço de volta ao que restou de sua nave.

Ao tentar fugir de todo o caos, Finn (John Boyega) conhece acidentalmente Rose (Kelly Marie Tran) e partem rumo a missão de tentarem desativar o rastreador. Vão para Canto Bight para tentar encontrar o mestre decodificador e posteriormente invadir a nave de Snoke. Depois de algumas trapalhadas são presos e na cadeia conhecem DJ (Benicio Del Toro), que se diz apto para decodificar o rastreador. O arco de Finn é a parte mais entediante do filme, com perseguições desnecessárias e um tanto previsível.

Enquanto não completa o seu treinamento, Rey procura compreender a nebulosa relação de Luke com o seu sobrinho. O perturbado mestre contou para ela que Kylo foi seduzido pelo lado negro e quase o matou em um duelo rápido. Um pouco antes disso, Rey e Kylo estabelecem uma ligação telepática, os dois se aproximam e desenvolvem uma certa empatia com um leve toque sexualizado.

Em suas conversas Kylo revela que um dia estava dormindo e conseguiu acordar a tempo antes que Luke o golpeasse com seu sabre de luz. Após Rey pressioná-lo o velho mestre admite o erro e justifica o seu momento de fraqueza, ele diz que sentiu o poder do lado negro no antigo discípulo e pensou em mata-lo antes que o estrago fosse pior. Rey se revolta e chega a lutar com Luke e em seguida ela vai embora com a intenção de converter Kylo para o lado iluminado da Força.

Pouco depois da partida de Rey, Luke estabelece um ótimo diálogo com o seu mestre, Yoda. Luke estava decidido em destruir as escrituras sagradas dos Jedi, mas logo desiste, entretanto Yoda convoca um raio e causa um incêndio na caverna, concordando que os Jedi deveriam sumir do Universo. Luke ainda se culpa por ter contribuído para seu sobrinho ter ido para o lado negro, Yoda o conforta e o lembra que ainda pode ajudar Rey se ensinar sobre os caminhos da força e sobre o fracasso, o melhor de todos os professores.

Rey vai ao encontro de Kylo e ele a entrega a Snoke (Andy Serkis), em um dos momentos mais surpreendentes do filme, Kylo trai seu mestre maligno e o mata, graças a sua arrogância e onipotência. A guarda de Snoke ataca os dois e rapidamente se tornam aliados e sobrevivem. Kylo propõe uma aliança com Rey, quer que juntamente com ele, dominem e governem a Galáxia. Em último gesto a vice-almirante Holdo (Laura Dern), depois de esvaziar a nave, faz um ataque Kamikaze no encouraçado de Snoke e contribui para a fuga dos rebeldes, uma bela cena sem qualquer tipo de som.

Em seguida Kylo desmaia com a explosão e Rey foge. Finn e Rose estavam na nave, apesar de terem chegado perto em cumprir a missão foram pegos pela Primeira Ordem e traídos pelo ambíguo DJ. Para ele não existe um lado certo, negocia com os dois de acordo com os seus interesses. Depois da destruição parcial do encouraçado, Finn tem um duelo final com a capitã Phasma. Finn leva a melhor e escapa com Rose. Os rebeldes escapam para a sua última fortaleza no planeta Crait, lá será travada a batalha final.

A aliança rebelde está completamente destroçada com poucos soldados e um armamento fraco, mas ainda resiste na tentativa de destruir o gerador de energia do canhão aríete. Finn tentou jogar a sua nave em direção ao canhão, mas foi salvo por Rose, que fica gravemente ferida. Quando o fim da aliança parecia inevitável surge Luke no horizonte. Kylo tomado pelo ódio manda que todo o exército fuzile seu tio, mas ele permaneceu intacto.

O vilão ainda mais transtornado parte para cima de Luke e duela com seu sabre de luz. O velho mestre astutamente soube aproveitar a raiva de seu antigo aprendiz e o distrai, permitindo que os rebeldes fujam. Seu ato final pode não ter sido glorioso como a destruição da primeira Estrela da Morte, no fundo, foi pacífico, como o chinês que parou um tanque se colocando na frente dele. Demonstrou uma grande prova de poder com a sua projeção astral, similar a um holograma, mas de uma forma sem violência, esclarecida e serena. Dessa forma, Luke obteve a sua redenção, fez jus a sua lenda e salvou a rebelião, possibilitando uma fagulha de esperança.

Derrota e esperança

Poucos filmes da franquia foram tão dramáticos quanto Star Wars: Os Últimos Jedi, com exceção de A Vingança dos Sith. A reação tão negativa de parte dos apreciadores de Star Wars chama a atenção. Pode-se pensar que não é uma simples questão de achar o filme bom ou ruim, mesmo porque ele foi bem avaliado pela crítica. Talvez o mais incômodo seja ter que assistir a terrível perdição da Aliança Rebelde, sobrando apenas um pequeno punhado comportado somente pela Millenium Falcon.

Todas as tentativas de luta foram sabotadas, os rebeldes passaram o filme todo fugindo e se sacrificando, sua única conquista foi apenas a da sobrevivência. Muitas expectativas foram criadas em cima de Luke, que ele fosse um mestre sábio e bondoso, esperava-se um duelo entre ele e Snoke. Mas nos deparamos com um homem calejado pela vida, derrotado por suas próprias vitórias e pela sua lenda, além da decepção em ter falhado enquanto mestre.

Luke não poderia ser diferente disso. Ao menos Rey, ao tentar lhe convocar para a missão e pedir o treinamento, lhe possibilitou uma última oportunidade para se redimir. Aguardou-se para descobrir quem seriam os pais dela: ninguém relevante. Queriam saber a origem de Snoke e este foi descartado como um coadjuvante qualquer, permitindo a ascenção de Kylo.

Muitas pessoas talvez não tenham entendido, o principal valor dos Últimos Jedi não está no sucesso ou na glória, mas simplesmente em sobreviver quando se está encurralado e destroçado pelas perdas, em encontrar forças na exaustão e razão para se viver quando a morte é certa. É com Yoda onde está a melhor das lições: enfrentar o fracasso e aprender com ele.

No Brasil e no restante do mundo vivemos uma situação semelhante em alguns aspectos. Assistimos o levante de um tsunami fascista de governos e candidatos com discursos totalitários e preconceituosos, pelo qual alguns atores sofreram discriminação por parte dos fãs, como Daisy Ridler e Kelly Marie Tran, a tal ponto que cancelaram suas contas nas redes sociais.

Não podemos detê-los nesse momento, seja por meio de uma guerra civil ou com mais ódio, mas também não se pode abaixar a cabeça: precisamos aprender a sobreviver a barbárie imposta. “A esperança é como o Sol. Se você acredita apenas quando vê, você nunca vai sobreviver à noite”.

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Dante Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.