Crítica | ‘O Doutrinador’ critica o sistema político de forma reflexiva e impactante

Divertido, reflexivo e socialmente impactante: O Doutrinador traz ao espectador brasileiro um sinistro e importante espelho sobre os nossos ódios pessoais, nossos problemas sociais e nossa demonização, não sem motivos, ao campo político.

Miguel (kiko Pissolato), um policial de operações especiais envolvido em uma operação contra um governador (Eduardo Moscovis) supostamente envolvido em desvio de verba da saúde pública, tem sua filha acidentalmente ferida por uma bala perdida e morta por falta de leito e médicos. Quando o governador é solto por falta de provas e se candidata à presidência, manifestações e revoltas dão vida ao Doutrinador.

Para começar, é bom esclarecer o que o Doutrinador não é. O Doutrinador não é em essência um defensor, um idealista, um utópico e tão pouco um herói. É um cavaleiro da sociedade brasileira, aquele que finalmente descolou da mesma, mas sua filosofia é a de cortar o mal pela raiz, purificar o país, e, com isso, revelando a sujeira que existe em todos nós.

O roteiro carrega a grande preocupação para que lados ideológicos não tenham sido selecionados, as vezes escorrega em um, as vezes esbarra no outro, deixando o filme passível à infinitas interpretações.

 

Amarrando tudo no mesmo balaio, a história visa nos mostrar um grande problema social, que não é necessariamente político, mas sim uma estrutura social que passa por todos nós e encontra na política um dos elos mais fortes e mais passiveis de desmascaramentos.

É mais fácil odiar do que amar. Antes estávamos juntos porque odiávamos a política, hoje estamos polarizados. O Doutrinador nos reúne outra vez (Até que subam os créditos), pois no fundo, o filme fala sobre nossos próprios afetos, nossa satisfação do ID enterrada pelo Ego em ver os problemas serem resolvidos de uma maneira mais repressora, agressiva e demonizada – eles são o mal e merecem ser expurgados. Isso é certo? É errado? Não é sobre isso que o filme faz alusão!

Kiko Pissolato interpreta um personagem bem real e brasileiro, que se torna psicótico, mas nunca parece perder a razão. Tainá Medina o complementa bem e todo o resto do elenco compõe bem seus personagens. Apenas alguns que dão um tom levemente satírico a seus personagens, destoando um pouco das cenas do filme.

A edição e mixagem de som estão muito bem-feitas aqui, ouvimos uma São Paulo atormentada e angustiada que parece a todo momento querer gritar de sofrimento. Junto a isso temos a trilha sonora composta por Rock, e, dos bons, na maior parte do tempo em perfeita sincronia com a emoção das cenas, porem, em algumas um tanto destoante.

A direção criativa e real de Gustavo Bonafé  nos deixa ver as cenas com calma e leveza nos brinda com ótimas cenas de ação, que utilizam o mínimo possível de câmera tremida e enquadramentos que se assemelham a uma história em quadrinhos com aquele “Q” de Noir.

Junto a direção não podemos deixar de mencionar a criativa fotografia, que compõe com perfeição o clima frio, real, mas ao mesmo tempo “quadrinhesco” e poético.

O Doutrinador é escatológico, sério, levemente sarcástico, divertido e gruda na mente dos brasileiros como a unha está grudada na carne. Principalmente no difícil momento em que estamos vivendo, encerra de maneira tragicômica, aponta a corrupção que existe em todos nós e levemente critica as burocracias e o terreno fértil que o Brasil se tornou para a proliferação da canalhice.

 

O Doutrinador estreia dia 1º de novembro nos cinemas.

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Resumo

Divertido, reflexivo e socialmente impactante: O Doutrinador traz ao espectador brasileiro um sinistro e importante espelho sobre os nossos ódios pessoais.

 

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Matheus Amaral

Formado em Audiovisual, amante do cinema em todos os seus aspectos. Filósofo de bar. As vezes mistura as coisas...Desde pequeno assistia tudo o que via pela frente, cresceu lado a lado com o cinema e com as suas diversas vertentes.