Crítica | ‘Infiltrado na Klan’ é um filme poderoso sobre racismo

Vivemos em tempos difíceis em que grandes erros históricos continuam a se repetir atualmente, com um desses episódios sendo a grande onda de perversidade devido à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016. Quando alguém chega ao poder realizando majoritariamente discursos de ódio, consequentemente, temos um reflexo da sociedade na qual convivemos. Aproveitando a representação por meio de um presidente que destila preconceitos, pessoas racistas, homofóbicas e xenofóbicas perdem o medo de demonstrar seu desprezo às minorias abertamente.

É nesse cenário que o grandioso Spike Lee utiliza as memórias reais de um policial negro que investigou a Ku Klux Klan de perto no fim dos anos 70. Co-Produzido por Jordan Peele (Corra!), Infiltrado na Klan traz acontecimentos verdadeiros, relatados pelo próprio Ron Stallworth em seu livro Black Klansman, lançado em 2014.

Ron Stallworth (John David Washington) é o primeiro e único negro a integrar a força policial de Colorado Springs na década de 70. Pouco depois de sua admissão, ele revela seu desejo de se tornar um agente disfarçado. Começando pelos narcóticos e posteriormente atuando no setor de inteligência, Ron vê um anúncio no jornal sobre a Ku Klux Klan, que o impulsiona a fazer uma ligação. Junto com Flip Zimmerman (Adam Driver), um policial judeu, os dois se tornam infiltrados no grupo sob a mesma identidade com o intuito de coletar mais informações acerca da organização. Enquanto Ron realiza os telefonemas, Flip encontra os membros pessoalmente.

Durante todo o tempo de projeção, o diretor mescla sátiras e críticas que funcionam de forma inteligente e engraçada. Por razão de muitas das falas dos supremacistas brancos serem iguais ou bastante parecidas com frases ditas na vida real, Lee consegue transmitir o quão ridículo e incoerente os preconceitos dos membros da KKK são, assim como pessoas que tem ideias parecidas.

Em uma tentativa de enfatizar ainda mais o absurdo, também temos cenas de discursos e manifestações da comunidade negra. Enquanto esses lutam por seus direitos, o outro grupo faz reuniões onde planejam matá-los e destruir qualquer possibilidade de igualdade e justiça. Essa troca de cenas entre os negros e os membros da Klan permite a quebra de seja qual for a comparação geralmente feita por conservadores sobre os dois grupos terem o mesmo objetivo, porém diferente alvos. Assim, ressalta-se mais uma vez que a reação do oprimido jamais pode ser confundida com a violência do opressor.

A direção de Lee acompanha o excelente roteiro, que em combinação com as atuações extraordinárias consegue sustentar o longa do começo ao fim. O filme não perde seu ritmo nem por um minuto e mesmo com sua extensa duração, somos cada vez mais envolvidos numa trama que antes era predominantemente engraçada, mas que gradualmente se torna preocupante, nunca deixando o verdadeiro impacto de lado.

Então, Spike Lee aproveita para nos dar um último soco no estômago. Como se já não fosse suficiente, o diretor coloca vídeos documentados de manifestações e ataques de grupos neonazistas nos Estados Unidos para lembrar ao público que toda a história abordada no filme já aconteceu no passado, aconteceu na década de 70 com Ron Stallworth e continua acontecendo hoje em dia. Baseado em acontecimentos reais, Infiltrado na Klan é tão atual quanto 40 anos atrás, e a sensação que ele nos deixa é, principalmente, de desespero.

INFILTRADO NA KLAN | BLACKKKLANSMAN
4.5

RESUMO

Com sátiras e críticas inteligentes, Spike Lee traz um filme impactante que nos faz refletir sobre o ódio incoerente presente tanto 40 anos atrás como atualmente.


INFILTRADO NA KLAN | BLACKKKLANSMAN
Estados Unidos, 2018. 135 min.
Direção: Spike Lee
Roteiro: Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott, Spike Lee
Elenco: John David Washington, Adam Driver, Topher Grace, Corey Hwakins, Laura Harrier, Ryan EggoldJ


Onde e quanto assistir:

Dia 22/10
21:00 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA POMPÉIA 1

Dia 26/10
18:40 – CINESALA

Dia 29/1014:00 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA SALA 1

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.