A vingança judia em ‘Bastardos Inglórios’

Análise do filme Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino. Contém spoilers.

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi um dos eventos mais marcantes do século XX. O movimento do Nazismo, comandando por Adolf Hitler, se mostrou um dos mais bárbaros da História. Com uma política extremista, embasada nos pressupostos da eugenia e da purificação da raça, muitas minorias foram perseguidas e aniquiladas, principalmente os judeus, estima-se que cerca de 6 milhões foram mortos durante o governo de Hitler.

Uma questão bastante debatida ainda é a da aparente aceitação do judeus em relação a dominação dos nazistas sobre eles. Houve poucos movimentos de resistência dos judeus, praticamente todos foram incipientes e rapidamente contidos. Partindo desse pressuposto, Quentin Tarantino inverte a História e cria um grupo brutal e revolucionário de judeus e antinazistas: os Bastardos Inglórios. Mais do que uma legítima defesa, esse grupo se propõe a torturar e matar nazistas. Por uma via perversa, o diretor cria várias cenas com um humor ácido e situações humilhantes com os soldados do Fuhrer .

A narrativa é dividida em 5 capítulos. A história começa em 1941, no meio da segunda grande guerra.. No primeiro capítulo, o coronel Landa (Christoph Waltz), também conhecido como o caçador de judeus, faz uma verificação na casa de um fazendeiro no interior da França. O coronel, com um estilo aparentemente elegante e gentil, interroga o fazendeiro com uma leve pressão psicológica. Segundo os registros, existe uma família desaparecida, aos poucos o fazendeiro solta as informações e por fim, denuncia a família judia escondida debaixo do assoalho da casa.


Em seguida, Landa ordena para que seus soldados fuzilem o chão, todos foram mortos com exceção de Shosanna (Mélanie Laurent). Curiosamente, o coronel não tentou impedir a fuga da jovem judia, que terá um papel importante no decorrer do filme.

No segundo capítulo, os Bastardos Inglórios são apresentados, começando pelo seu líder o tenente Aldo (Brad Pitt), o Apache. Um pelotão de nazistas foi capturado pelos bastardos. Nesse momento temos a oportunidade de conhecer as suas práticas brutais, os soldados que se recusam a dar informações são espancados com um taco de baseball e em seguida escalpelados. Um deles é deixado vivo para espalhar a fama cruel do grupo inglório, até chegar nos ouvidos do próprio Fuhrer.

No terceiro capítulo, passados 4 anos da chacina ocorrida com a sua família, Shosanna agora é dona de um cinema em Paris. Enquanto está trocando o letreiro do cinema, um jovem soldado alemão, Frederick Zoller (Daniel Brühl), começa a flertar com ela e passa a segui-la no decorrer dos dias. Pouco tempo depois, Shosanna descobre que esse soldado é um herói de guerra que sozinho, dentro de um campanário, consegui matar centenas de soldados inimigos.

Depois de muita insistência do soldado, ele convence a conversar com ninguém menos que Joseph Goebbels (Sylvester Groth), homem de confiança de Hitler e diretor do filme estrelado pelo próprio Frederick, “O Orgulho da Nação”, narrando a gloriosa batalha do soldado. Goebbels, influenciado por Frederick, decide fazer a estreia do filme no cinema da jovem judia. No final do capítulo o Capitão Landa ressurge e interroga Shosanna. Com muita luta a moça consegue manter o seu disfarce. Por fim, ela decide planejar um incêndio no dia da estreia, matando assim vários nazistas importantes.

No quarto capítulo, os bastardos marcam um encontro com uma informante em um bar para planejarem melhor o plano da chacina no cinema. A informante, a atriz Bridget Von Hammersmark (Bridget von Hammersmark), acreditava que esse bar era um lugar seguro para a reunião por costumar ser pacato. Entretanto, na hora do encontro, havia soldados nazistas também, jogando com a informante “Quem sou eu?”, jogo em que todos os participantes estão com cartas na testa e cada um tem que acertar quem é o personagem da sua própria carta.

Tarantino inverteu esse jogo em relação ao disfarce dos Bastardos, eles sabiam quem eram, mas não podiam ser descobertos pelos nazistas. Entretanto, alguns detalhes os denunciaram, seja pelo sotaque britânico de um dos membros, gestual, ou por terem identificado um desertor. Tragédia anunciada, em uma longa cena de suspense com alguns movimentos de câmera em torno da mesa, criando um clima de tensão, finalmente as máscaras caem e rapidamente quase todos se mataram em um breve tiroteio. Ao menos a informante sobreviveu, peça chave para a estratégia funcionar.


No último capítulo, o plano estava engatilhado. Todo o alto escalão nazista, desde os oficiais do exército como os mentores intelectuais estavam lá, inclusive o Fuhrer. Porém, havia uma pedra no caminho, o astuto poliglota coronel Landa, no final do capítulo anterior ele encontrou um bilhete autografado por Bridget e os seus sapatos jogados no meio do banho de sangue do bar. Ao ver a atriz com seus amigos, já sabia que se tratavam dos Bastardos.

Landa chama Bridget para conversar em uma sala e faz a atriz vestir o próprio sapato. Mais uma vez há uma inversão, a glamorosa atriz sai da condição de Cinderela para gata borralheira e assim revelada como traidora após o sapato se encaixar perfeitamente no seu pé. Instantes depois, o coronel salta em cima dela e a enforca até a morte. Com seu péssimo disfarce de dublê italiano, Aldo é capturado, entretanto seus outros dois companheiros conseguem entrar.

Surpreendentemente, Landa não quer estragar o plano dos Bastardos, pelo contrário, propõe um acordo com eles e quer ser lembrado na História como um agente duplo que colaborou com a derrota final dos nazistas. Mais uma vez, outra inversão, o implacável vilão torna-se o herói por simplesmente permitir a explosão do cinema. Enfim, o grupo judeu venceu graças ao narcisismo do imprevisível coronel.

Shosanna concretizou o plano, trancou todos os alemães no cinema e deixou uma gravação final revelando a sua vingança. Entretanto não sobreviveu, após uma briga com Frederick, ambos foram baleados um pelo outro, enquanto todos morreram queimados como os Gremlins, no final do clássico de Joe Dante.

  A inversão dos papéis

Muitas vezes, os nazistas são lembrados como pessoas perversas e cruéis destituídas de humanidade, e o filme também não escapa deste estereótipo. Hanna Arendt em seu clássico Eichmann em Jerusalém, acompanha o julgamento desse oficial nazista em Israel. A plateia esperava por um homem frio e brutal, mas após escutar atentamente o relato dele, percebe que Eichmann está longe de ser um perverso. Pelo contrário, no fundo é um homenzinho patético de mente fraca, capaz de se atrapalhar na própria linha de raciocínio.

A partir desse julgamento, a filósofa cria o conceito da banalidade do mal, concluindo que muitas pessoas se deixaram levar por um regime autoritário não exatamente por uma escolha calculista e bárbara, e simplesmente por uma alienação e um cumprimento de ordens. Assim como Eichmann, muitas pessoas agiram como meras burocratas, sequer pararam para julgar a atrocidade dos mandos superiores.

Por outro lado, os judeus talvez tenham manifestado certa passividade ao nazismo devido a dois mecanismos inconscientes: a identificação com o agressor e a culpa do sobrevivente. No caso desse tipo de identificação, a vítima assume para si a responsabilidade dos atos do agressor e aceita as péssimas condições as quais está sendo submetida como uma forma de suportar este desgaste psicológico, para se preservar psiquicamente e evitar o enlouquecimento.


Ocorre assim uma conversão da angústia sentida no abuso por um sentimento de segurança. Na síndrome de Estocolmo esse mecanismo ocorre de uma maneira bem semelhante. A culpa do sobrevivente envolve uma culpabilidade do sujeito por ter sobrevivido a alguma catástrofe, enquanto seus conhecidos foram mortos. O sobrevivente passa a questionar se ele de fato é digno de ter escapado da morte, enquanto outras pessoas talvez mereciam viver mais do que ele. Esse tipo de sentimento é facilmente observável nos relatos dos sobreviventes de guerra.

Bastardos Inglórios, apesar de contrariar os mecanismos psicológicos descritos, acaba se desenvolvendo por uma abordagem mais perversa atravessado por um humor bem negro. No fundo, o filme trabalha com uma espécie de realização de desejo do público em ver os nazistas serem torturados e mortos cruelmente, como uma espécie de castigo, semelhante a lei de Talião (olho por olho dente por dente).

O filme é bem envolvente no que se refere ao roteiro, apesar de tratar de um tema recorrente como a Segunda Guerra Mundial, se mostrou criativo e surpreendente. Christoph Waltz roubou a cena, sendo o grande destaque, não à toa ganhou o merecido Oscar de ator coadjuvante, além de outros prêmios.


Na cena final, há um ponto interessante. Quando Aldo desenha a suástica na testa de Landa, ele está olhando diretamente para a câmera e após terminar diz: “acho que esta pode muito bem ser a minha obra-prima. Talvez quem esteja falando isto já não é mais o Apache, mas sim o próprio Tarantino, rompendo com a quarta parede. De fato, provavelmente esse foi o seu melhor filme.

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Dante Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.