Mostra de SP 2018 | ‘A Favorita’: novo filme de Yorgos Lanthimos é acessível mas não menos peculiar

Yorgos Lanthimos é um diretor, digamos que, peculiar. Seus últimos trabalhos, O Lagosta e O Sacrifício do Cervo Sagrado, definitivamente, não são para todo mundo. Os personagens apáticos, as premissas bizarras, tudo que envolve esse diretor é fora do comum e, no mínimo, pesado. Seu olhar de mundo é algo pouco visto no cinema atual, tornando-o um dos mais brilhantes e promissores diretores em atuação no momento. A Favorita é seu primeiro trabalho distante, ou talvez nem tanto, do que ele vem apresentando nos últimos anos.

Lanthimos foge da repetição e se aventura, pela primeira vez, em um filme de época. E, para provar mais uma vez a originalidade do diretor, ele foge não só de sua própria repetição, como também da repetição dos filmes de época, e conta a história de uma rainha que não sabe tomar decisões de governo sozinha, e usa sua conselheira Sarah (Rachel Weisz) para isso. A partir do momento em que Abigail (Emma Stone), prima distante de Sarah, chega ao reino, tudo muda e a atenção que Sarah recebia da rainha Anne (Olivia Colman) se torna dividida e disputada com sua prima. É, basicamente, um triângulo não-amoroso formado por interesse e poder.

Ao se falar de triângulo não-amoroso, é preciso se discutir os sentimentos e as intenções das personagens. Poderíamos muito bem acompanhar um triângulo amoroso em tela, se as personagens de Weisz e Stone não deixassem em aberto seus verdadeiros sentimentos em relação a rainha. Será que a intriga entre as duas era somente interesse? Ou será que havia sentimentos envolvidos também? Yorgos brinca com essas suposições, e entrega uma rivalidade resumida em momentos de amizade e manipulação.

A atenção que as duas brigam para obter da rainha, e a rainha em si, é o que dá margem para o roteiro inserir humor negro na trama. Escrito por Deborah Davis e Tony McNamara, o roteiro brinca, não só com a rivalidade entre Sarah e Abigail inserindo-as em situações e diálogos cada vez mais absurdos, mas também com a personalidade excêntrica de Anne. E é ao dar vida a ela que Olivia Colman se destaca. A atriz é o auge do filme. Sua rainha Anne é mimada e raivosa, mas usa dessa personalidade excêntrica para causar humor roubando o filme para si toda vez que está em cena.

Rachel Weisz é mais concentrada e séria, mesmo com sua personagem estando nas piores das situações. Weisz não deixa a peteca cair mantendo sempre a elegância, manipulação e até a decepção a altura do que vem construindo ao longo do filme. O desenvolvimento de sua personagem, e das duas que complementam o trio é excelente. Stone se mostra inocente a princípio, mas revela que de inocente não tem nada. É mais uma grandiosa atuação vindo dela, se mostrando cada vez mais como uma das mais importantes e talentosas atrizes de sua geração.

A direção do filme navega por movimentos de câmera de um lado para o outro, ou de ângulos com lente angular para obter uma visão maior do que está em cena. Lanthimos utiliza dessas lentes ao longo do filme inteiro, sempre causando uma estranheza ao olhar. Todo esse talento na direção é complementado perfeitamente pela direção de arte, fotografia e trilha sonora. O filme é belíssimo e um espetáculo visual. A trilha sonora clássica e forte engrandece o filme juntamente com os figurinos que são um show à parte.

Mesmo com o final anticlimático, A Favorita se mantém firme na mensagem que pretende passar. É o filme mais acessível ao grande público do diretor, mas que ainda possui características suas já conhecidas anteriormente. É uma visão diferente de um filme de época que pode desagradar a muitos, mas que, com certeza, o brilhantismo do roteiro e direção irão alavancar um número alto de indicações nas premiações.

4.5

RESUMO

A Favorita se firma como o trabalho mais acessível de Yorgos Lanthimos, mas é primoroso, brilhantemente dirigido e com atuações excepcionais.

A FAVORITA | THE FAVOURITE
Reino Unido, Irlanda, EUA, 2018. 120 Min.
Direção: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Debora Davis, Tony McNamara
Elenco: Olivia, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Holt, Joe Alwin

Onde e quando assistir:

Dia 20/1019:30 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1

Dia 24/1021:30 – CINEARTE PETROBRÁS 1

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.