Crítica | ‘A Casa que Jack Construiu’ é a essência de Lars von Trier

Para muitos, Lars von Trier causa revolta, incômodo e até enjoo. O diretor usualmente transmite em seus trabalhos suas críticas e inquietações, expondo não só o lado mais sombrio de sua mente, mas também o lado obscuro da sociedade. Banido por 7 anos do Festival de Cannes após falar que entende Hitler, von Trier retorna em 2018 com A Casa que Jack Construiu, que para variar, gerou forte polêmica. Mais de 100 pessoas saíram da sessão, além de considerarem o filme nojento, patético, desumano e muito explícito. Mas o que esperar de um filme sobre um serial killer?

Divido em cinco partes e um epílogo, o filme é narrado por Jack (Matt Dillon), que conta cinco episódios aleatórios em um período de 12 anos que contribuíram para a evolução da sua mente psicopata. Agora um assassino de primeira e mais de 60 mortes registradas, Jack mata homens, mulheres, crianças e até animais. Os episódios citados, no entanto, mostram mulheres em sua maioria.

Narrado de forma similar à Ninfomaníaca (que compara a urgência por sexo com a pesca), Jack conta suas histórias à Verge (Bruno Ganz) – uma representação do poeta Virgílio de A Divina Comédia, o qual guia Dante até o inferno. Dessa forma, Verge é o responsável por fazer o mesmo com Jack, enquanto os dois relacionam os assassinatos com amor, livros, quadros e projetos de arquitetura. Além de expor a vasta bagagem cultural, o protagonista não é nada menos que a própria representação dos impulsos de Lars von Trier.


Mas não apenas o diretor se projeta em Jack, como tenta inserir sua verdadeira essência ao longa. Filmado dentro dos aspectos estilísticos que marcam sua direção, como a câmera na mão que oscila sem parar, Von Trier dá um passo a frente por seu estilo em combinação com a ótima montagem nos deixar mais próximos ainda dos personagens. Há mais zooms e cortes do que o habitual de seus filmes, mas todos eles servem para captar ou a frieza de Jack, ou o desespero de suas vítimas. O diretor ainda coloca cenas de seus trabalhos anteriores, como Melancolia, Anticristo, Ninfomaníaca e Kingdom Hospital.

Surpreendentemente com tons de humor no começo, como o transtorno obsessivo-compulsivo de Jack e situações bastante improváveis que acabam favorecendo para que o personagem mate suas vítimas e não seja pego, o filme começa a tomar um rumo cada vez mais pesado, não somente na violência, mas também em seus diálogos. Verge, então, pergunta: Por que mulheres?

Mulheres são mais fáceis, diz Jack, não se referindo à forma física. O serial killer acaba formando um padrão de matar mulheres por elas o irritarem de alguma forma, seja falando demais ou sendo extremamente ingênuas. Além de resultar em mais cenários que ajudam Jack, também são situações que podem servir de crítica, como quando o protagonista ainda auxilia uma de suas vítimas a gritar por ajuda antes de matá-la. Em um prédio com apartamentos adjacentes, é impossível que os gritos não tenham sido escutados, mas ninguém faz nada para ajudar.


Ainda, diálogos como “Por que a culpa é sempre dos homens?”, que o próprio diretor afirma não ser uma provocação, se tornam engraçados em meio a um discurso um tanto patético que, claramente, sai da boca de um homem misógino que culpa as próprias vítimas por suas mortes.

Usando sua estética de direção habitual e adquirindo a narrativa de seu filme precedente, o diretor manifesta seu interior disfarçado de uma história de serial killer, que é igualmente envolvente e violenta. Lars von Trier se projeta em A Casa que Jack Construiu, e se ele ainda acha que não irritou pessoas suficientes com seu novo filme, ele terá que se esforçar bem mais se quiser gerar a ira de seus fãs.

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RESUMO

Lars Von Trier manifesta seu interior disfarçado de uma história de serial killer em A Casa que Jack Construiu, que é igualmente envolvente e violento.

A Casa que Jack Construiu | The House That Jack Built
Dinamarca, Alemanha, França, Suecia, 2018. 155 Min.
Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman, Siobhan Fallon Hogan, Sofie Gråbøl, Riley Keough

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível ver todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é uma forma de viajar e conhecer outras realidades sem sair do lugar.